Curitiba - Em uma manhã chuvosa de julho, o estudante Marcelo Henrique da Silva, de 18 anos, tentava seguir a recomendação do instrutor da auto-escola. ''Não fique nervoso'', repetia para si mesmo, como um mantra, enquanto esperava seu nome ser chamado no setor de exames práticos do Departamento de Trânsito (Detran) do Estado. Estava próxima a hora da verdade, quando passaria por uma transformação única, de pedestre para motorista.
Assim como a maioria dos jovens da sua idade, Marcelo vislumbra o início de uma nova vida com a aprovação no teste. Ele acredita que a carteira de habilitação será a senha para a conquista da independência e da liberdade, tão almejadas nessa fase da vida. ''Não vou mais depender dos outros para me levar aos lugares'', prevê. Assim também pensa seu ''xará'', o auxiliar de restaurante Marcelo Veríssimo, 18 anos, que já passou nos exames e agora aguarda apenas o momento de pegar a carteira. ''Vou parar de andar de ônibus'', comemora.
Além de facilitar a locomoção, a habilitação de motorista pode trazer novas oportunidades. Ezequiel Dias, de 20 anos, espera encontrar emprego após aprender a dirigir. ''Sem carteira fica mais difícil'', considera. Enquanto assiste às aulas teóricas de direção, ele faz planos: ''Quero dirigir um Opala, acho um carro muito legal''.
Segundo dados do Detran, de 1º de janeiro até 28 de junho deste ano, 75.972 pessoas tentaram a primeira habilitação nas categorias A (moto), B (carro) e AB (carro e moto). Desses, 62.599 - mais de 82% do total - são jovens entre 18 e 30 anos. Veríssimo não entra nesta conta, apesar de jovem, essa é a segunda vez que ele realiza o exame prático. Na primeira vez ele reprovou na baliza (prova de estacionamento). Seu diagnóstico foi o mesmo da maioria dos reprovados: o nervosismo.
Foi o que Melissa Meyer alegou ao comentar as três reprovações no exame prático, no ano passado. ''Estava muito nervosa'', avalia. Após um ano do início do processo, ela teve que voltar a assistir às aulas teóricas na auto-escola e precisará refazer os exames médico e psicotécnico. Aos 29 anos, seu perfil destoa um pouco da maioria que tenta tirar a habilitação pela primeira vez. ''Nunca senti necessidade de dirigir, meu pai e meu irmão quebravam meu galho'', conta.
Melissa avalia que será uma motorista prudente, não gosta de velocidade e costuma respeitar as regras. Mas os jovens postulantes ao volante não têm a mesma avaliação da sua geração. Segundo Ezequiel, ''o pessoal é mais louco, bebe e dirige''. Marcelo da Silva concorda: ''Tem gente da minha idade que vai tirar carteira e gosta de beber'', observa. Nesse ponto a estudante de pedagogia Eloísa Maria, 23 - que também tenta a habilitação pela primeira vez - é enfática, ''Os jovens não têm responsabilidade para dirigir''. Segundo ela, ''Eles deturpam o sentido da liberdade''.

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