Duelos com espadas, castelos, cavaleiros com armaduras, reinados, cruzadas, magos, guerreiros, bárbaros. Estes e tantos outros termos que rementem à Idade Média parecem ter ficado para trás no imaginário da maioria das pessoas. No entanto, milhares de jovens continuam apreciando este período histórico, em pleno século XXI.
Muitos até se reúnem com os amigos para reviver a época, como é o caso de André Luiz Valgrande, 24 anos, que organiza, anualmente, uma festa particular para reunir entusiastas, que comparecem caracterizados com trajes medievais. ''Semelhante atrai semelhante. Ao longo dos anos eu fui encontrando outras pessoas que gostam disso. Daí surgiu a idéia de fazer a festa temática, afinal cultura medieval é o que une a gente'', explica. No evento, realizado em um ambiente decorado de acordo com os vilarejos medievais, há jogos, duelos, show de música celta, comidas típicas, entre outros atrativos para unir o pessoal.
Boa parte dos jovens que hoje apreciam a Idade Média têm influência de filmes, livros, games, RPGs (Role Playing Games) e músicas que fazem referências à época. Para André, as motivações vão além da estética. Segundo ele, os valores, os costumes e a dinâmica de vida daquele período são dignos de lembrança e até mesmo de um resgate. ''Hoje a gente tem muita correria. As preocupações daquela época eram outras, bem mais simples'', comenta.
O consumismo e a preocupação monetária dos dias atuais, afetando todas as classes sociais, também são lembrados como fatores discutíveis. ''Naquela época, quem estava por baixo não se preocupava com dinheiro, eles produziam para subsistência. Não havia geladeira, que alguns dizem ser o grande mal da sociedade moderna. Se não existisse geladeira, não haveria tanta gente obesa, e nem o hábito de frequentar academias'', exemplifica.
Apesar de tudo, André não acha que o século XXI seja pior que antigamente. ''Hoje temos água encanada, saúde, e outras melhorias que a modernidade trouxe. Mas ao mesmo tempo que melhoramos algumas coisas, também pioramos outras. Tem alguns valores daquela época que eu acho importante resgatar, como por exemplo a honra'', cita. ''Não se pode simplesmente abandonar o que tinha lá atrás, pois havia muita coisa legal. Se fosse pra compor uma sociedade melhor no futuro, a gente teria que misturar um pouco de cada época'', finaliza.
Cultura medieval nas prateleiras
A indústria cultural produziu nos últimos anos muitos filmes de sucesso ambientados na antiguidade, sejam eles de história ou de fantasia. A trilogia ''O Senhor dos Anéis'', inspirada nos livros de J.R.R. Tolkien é o exemplo mais bem-sucedido. ''As Crônicas de Nárnia'', do autor C.S. Lewis, está seguindo o mesmo caminho, em menor escala. ''Beowulf'', ''Cruzada'' e ''Rei Artur'' são outros títulos que ganharam os cinemas ultimamente e inspiraram muitos jovens.
Antes mesmo desta leva de lançamentos nas telonas, Rossana Ceres, 26 anos, encantou-se com a Idade Média ainda criança, através de um título bem mais antigo. ''Tudo começou com 'Excalibur', que me chamou a atenção. Até hoje eu tenho esse filme em fita VHS'', relata. ''Depois do filme, passei para os RPGs, como Tagmar, o primeiro que joguei'', completa.
A literatura também foi fonte preciosa de informação. Além de ter em sua estante livros como ''As Brumas de Avalon'' e ''O Senhor dos Anéis'', Rossana também teve influência de histórias contadas pelos pais. ''Eles são professores de letras, e sempre foram bons contadores de histórias. Meu pai é escritor e doutor em poesia. Ele contava as histórias de Gengis Khan, Anibal, dos grandes generais e guerreiros'', lembra.
O mundo das letras também foi de grande valia para Fausto Kulik, 25 anos. ''Comecei a espandir mais esse meu gosto pela cultura medieval através de um autor, Bernard Cornwell, que deu a primeira visão diferenciada e realista do Rei Artur. Ele trabalha no gênero ficção histórica, e procura juntar tudo o que foi relatado sobre a Idade Média para fazer ficção baseada nisso'', relata. Entre os títulos do autor publicados no Brasil estão as trilogias ''As Crônicas de Artur'', ''A Busca do Graal'' e ''As Crônica Saxônicas''.
Os jogos de RPG são citados por diversos apreciadores de cultura medieval como portas de entrada para este universo. Foi assim com Endrigo M.S. Prevedello, 27 anos, que teve um incentivo da família. ''Quando criança eu gostava muito de fábulas de heróis. Minha mãe viu que eu tinha este interesse e comprou um livro de RPG chamado Dangeoneer, que me fez procurar esse universo todo. Depois dele veio Gurps, AD&D e D&D, que aumentaram meu interesse'', relata.
Os termos citados, referem-se ao jogo de interpretação Dangeons And Dragons (D&D) e sua versão advanced (AD&D), que inspiraram o famoso desenho animado ''Caverna do Dragão''. Everson Choma, 24 anos, também se iniciou em Idade Média através desse RPG. ''Junto veio o jogo de videogame 'Baudur's Gate', inspirado no livro'', comenta. A trilha sonora do game o fez procurar por música da época e o levou à profissão de músico, aos 18 anos.
Não foram apenas a música celta e a renascentista que fizeram parte de seu gosto, mas também as bandas de heavy metal que tratam de temáticas medievais, como Rhapsody e Blind Guardian. ''Eles têm influência da música celta e também do folclore de países europeus. No caso do Blind Guardian, que é alemão, o folclore germânico tem muitas histórias voltadas para temas tradicionais'', completa.

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