Para um artista, a inspiração não tem hora para chegar. E quando ela acontece a primeira providência é registrá-la para não correr o risco de esquecer em seguida. No caso dos artistas gráficos, uma forma muito comum de fazer isso é andar com um caderno sempre à mão. Conhecidos como cadernos de viagem, eles são companheiros para esboços, anotações, colagens e tudo o que for importante para ser lembrado mais tarde.
Adeptos dessa prática, os ilustradores Renato Ventura, de 19 anos, e Jorge Torres Galvão, de 24 anos, estão entre os 88 artistas que vão registrar seus traços numa produção coletiva chamada Cadernos de Viagem, organizada em parceria pelo projeto IdeaFixa e a encadernadora Caderno Listrado, de Curitiba.
Desde o mês passado, três cadernos circulam de um artista para o outro e cada um deixa ali a sua marca. Um quarto caderno será preenchido pelos blogueiros do IdeaFixa. ''O bom é que você está em contato com vários trabalhos de outros ilustradores. Tem ilustradores que trabalham com técnica digital e ali você vai ver um trabalho diferente, algo mais cru'', observa Ventura. ''Você vê outros traços ali na sua frente. É diferente de ver na internet. Impressiona mais. Tem uns caras fera aí, dá até medo'', completa Galvão.
Ilustrador profissional há três anos, Ventura começou a desenhar por brincadeira em casa, no tempo livre após os estudos. Hoje é colaborador de várias publicações, entre elas a revista Capricho, da Editora Abril. Segundo o desenhista, seus cadernos funcionam como fonte de consulta para compor futuros trabalhos. ''Às vezes você aproveita até o pedaço de um desenho em outro'', explica.
Galvão também desenha desde cedo e aos 14 anos começou a grafitar. Mas foi a partir de 2001, quando passou a frequentar o curso de Gravura, da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, que aprimorou sua técnica. A experiência em um estúdio de design também o ajudou a reconhecer seu talento. ''Comecei a ver que eu tinha um traço e vi que podia investir nisso'', lembra o artista, que hoje trabalha para uma agência de comunicação.
Para Galvão, os cadernos tornaram-se uma forma de organizar as ideias. ''Até o ano passado eu tinha um só. Agora tenho um para cada coisa: anotações e rabiscos, personagens e desenhos pequenos, e colagem'', conta o artista, que carrega todos os cadernos e uma porção de canetas para onde for. ''Tem que rabiscar, tem que estar sempre à mão. Toda hora você pode ser atingido por uma ideia. Depois que comecei a ter os caderninhos, nunca mais fiz desenho em folhas soltas.''

mockup