MUNDO JOVEM - Com olhos puxados e jeitinho brasileiro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de janeiro de 2008
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
No dia 16 de junho deste ano, os cerca de 1,5 milhão de nikkeis (descendentes de japoneses) que moram no Brasil, a maior colônia nipônica fora do Japão, comemoram os 100 anos da imigração japonesa, em evento batizado como ''Imin-100''. Nesse tempo, o inevitável intercâmbio cultural fez com que as tradições brasileira e orientais se misturassem bastante, mudando o comportamento e aproximando as comunidades.
Atualmente, a maioria dos jovens descendentes faz parte da terceira geração, ou seja, de 'sanseis', netos de japoneses. ''A maioria é sansei e tem muito contato com não-descendentes, então não tem muita diferença com a vida dos outros brasileiros'', explica Kelly Matsumura, 23 anos, que veio de Registro (SP) para estudar Relações Públicas na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e mora na Casa do Estudante Nipo-Brasileira de Curitiba (Cenibrac).
O que ainda causa certo estranhamento entre a comunidade de descendentes japoneses e os brasileiros é o esteréotipo que o oriental ainda carrega, de sistemático, disciplinado, estudioso, tímido, pouco comunicativo. ''As pessoas acham que japonês é tudo certinho e tudo inteligente. Tem gente que é mesmo, desde criança, estuda bastante, mas na primeira prova de concurso os outros vêem que não é bem assim. Tem japonês que é mais fechado mesmo, tem gente que fala mais, depende de cada um'', descarta a generalização o estudante de Geografia da UFPR, Djalma Yoshio Shimada, 23 anos. ''Tem gente que olha pra mim e diz 'mas você tem cara de japonês e não sabe falar japonês' até hoje. Aqui tem de tudo, descendentes de japoneses mesmo, mestiços, gente que fala japonês, que não fala japonês'', ressalta Kelly.
Mesmo com tanto ''jeitinho brasileiro'' no sangue oriental, as tradições nipônicas continuam acesas o tempo todo. ''Aqui na casa do estudante a gente faz muitos eventos, fala algumas palavras em japonês para as pessoas irem aprendendo, faz yakissoba... A gente sempre participa de todos os 'matsuri' (comemorações de mudança de estação)'', comenta Kelly.
A ''invasão nipônica'' na cultura nos últimos 30 anos - seja em seriados, quadrinhos, filmes, música etc'' - também favorece a integração. ''Muita gente se interessa pelo 'taiko' (''grande tambor'', percussão japonesa), pelas artes marciais mais populares, pelo karaokê, pela comida...'', diz Shimada. ''Antes muita gente tinha até nojo. Hoje, muita gente procura comida japonesa. Tem bastante brasileiro que gosta e canta as músicas japonesas também'', acrescenta Kelly.
''Já estava procurando uma casa de estudante pra morar, mas decidi morar aqui porque também posso aprender um pouco mais sobre outra cultura'', destaca Kelen Roxane Fabienski, 18 anos. A estudante de cursinho que veio da Lapa, assim como outros moradores do Cenibrac, não é descendente de japoneses mas gosta do intercâmbio entre as etnias.
Os nikkeis, principalmente quando crianças e adolescentes, costumam andar em comunidade, o que acaba criando a idéia de que ''japonês só anda em grupos''. Isso vai mudando com a vida adulta, especialmente devido aos estudos e trabalho. ''Não tem como explicar exatamente, acho que a gente acaba simpatizando mesmo com quem tem 'olhos puxados', mas todo mundo se mistura'', assegura Shimada.
O relacionamento dos jovens nikkeis com outras comunidades étnicas é bem mais tranquilo no Brasil do que no Japão. ''No Japão eles têm muito preconceito com os brasileiros, nem tanto os mais jovens, mas os mais velhos têm, chamam os brasileiros de traidores'', lamenta o estudante de economia Fernando Yamakawa, 24 anos, que viajou para trabalhar por lá em 2000. Até hoje, muitos japoneses, principalmente os puristas, consideram os nipônicos que vieram para cá como ''covardes'', por terem deixado a Terra do Sol Nascente em período de reconstrução pós-guerra.
O ''Imin-100'' serve não apenas como homenagem e comemoração para os descendentes de japoneses, mas também como um momento de reflexão, de celebração das tradições e de planejamento para o futuro das próximas gerações. ''Uma das coisas mais importantes nesse momento é tentar entender o contexto por trás da vinda dos imigrantes, por que eles vieram? Tentar saber mais das próprias origens, saber o que significa o nome da própria família'', sugere Shimada. ''Temos que refletir sobre isso tudo e já começar a pensar no Imin-200, Imin-300...'', finaliza.
O Cenibrac é aberto para todos, inclusive para quem não é descendente de japoneses. Mais informações para quem gostaria de morar lá é só acessar o www.cenibrac.org.br.


