MUNDO JOVEM - Cangurus modernos
Entenda por que cada vez mais jovens estão optando por morar com os pais e as implicações dessa escolha na vida moderna.
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de julho de 2008
Entenda por que cada vez mais jovens estão optando por morar com os pais e as implicações dessa escolha na vida moderna.
No filme ''Armações do Amor'', Tripp (Matthew MacCounaghey) vive um trintão que insiste em morar com os pais, cansados da comodidade do garotão de meia idade. A película trata da situação de maneira cômica, no entanto, levanta uma questão bem atual: a cada dia os jovens têm saído mais tarde da casa dos pais.
Pesquisa realizada no final do ano passado pelo site Universia Brasil (www.universiabrasil.com.br), especializado em carreira universitária, e o instituto de pesquisas E-Bit, revelou que 60% dos jovens entrevistados moram com os pais. Os dados foram levantados por meio das respostas de 4.715 pessoas entre 15 e 30 anos (pré-universitários, universitários e pós-universitários) nas capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Curitiba, Manaus e Porto Alegre.
Não há exatamente uma resposta para essa mudança de comportamento, o chamado ''canguru'', e sim a união de fatores: desde o aumento de comunicação entre pais e filhos, que favorece o bom relacionamento em casa; até o crescimento do número de internautas, responsável por tornar o jovem mais caseiro. No entanto, duas justificativas são mais recorrentes, a falta de dinheiro e o medo da violência, como indica a pesquisa.
''É um custo muito alto morar sozinho. Só optaria por morar sozinho se fosse para outra cidade. A maioria das pessoas que conheço que moram sozinhas é casada ou veio de outro lugar'', conta o analista de sistemas Daniel M., que, aos 26 anos, divide a casa com o pai, a mãe, o avô e mais dois irmãos, uma de 23 anos, formada em Design, e outro de 22, atualmente na graduação de Tecnologia da Informação.
De acordo com Daniel, a presença dos familiares não limita sua liberdade, porém, é necessário observar algumas ''regrinhas'', não importa a idade, para manter o respeito. ''Em casa tudo é moderado, não é rígido, mas tem a questão do respeito. Nunca levei uma menina para dormir em casa'', observa.
PORTO SEGURO
A casa dos pais continua sendo tratada como um ''porto seguro'', daí o receio de ficar distante de casa por medo da violência ou outros fatores que possam transmitir a sensação de desproteção. ''Ia sair de casa aos 24 anos. Mas meu pai ficou doente e veio a falecer, fiquei um pouco deprimida com isso'', lembra Cássia Imai, de 30 anos, que só recentemente saiu da casa dos pais.
No caso de Cássia, o problema financeiro não foi um empecilho e a vontade de deixar o lar foi para alcançar a independência. ''Queria ter meu espaço, mais liberdade. Você pode ter qualquer idade, mas seu espaço na casa dos pais será somente seu quarto.''
A mudança trouxe responsabilidades que antes Cássia não tinha que lidar. ''Me senti um pouco sozinha na primeira semana, além disso passei a ter mais responsabilidades, contas para pagar'', diz. A saída ''tardia'' da casa dos pais ajudou-a a lidar com o assunto com mais maturidade, inclusive na hora de escolher o local para morar. ''Minha casa, tudo foi pensado para o futuro onde quero ficar por uns 20 anos.''
Íris Jerusa D'Amico Burger, de 36 anos, deixou a casa dos pais aos 25 anos, casou-se, e hoje está de volta. A indefinição do momento profissional de Íris forçou uma permanência a mais com a família. ''Em casa não tenho problema nenhum'', comenta. ''Mas surgiram umas oportunidades de trabalhar fora e daí tem que pensar em vender a casa ou rescindir contrato'', complementa.
Apesar do bom convívio com a irmã e com a mãe, com quem mora em Curitiba, Íris acha necessário o jovem deixar a casa dos pais. ''Não pela questão da liberdade, mas para você ter a independência, para pensar que não precisa bater de frente com os pais toda hora que for tomar decisões.''
Cássia concorda e também diz que hoje tem até um relacionamento melhor com a família. ''Acho que o relacionamento melhora um pouco quando você sai de casa. Você passa a ter mais saudades da mãe, de valorizar cada momento que tem com a família'', avalia.
O importante, de acordo com Íris, é respeitar seu próprio tempo, sem se incomodar muito com os rótulos ou com que os outros falam. ''Acho legal sair mais cedo. Mas cada um tem o seu tempo. A mudança da casa dos pais tem a ver com o seu momento, tanto profissional quanto pessoal.''
(atualizado em 05 de maio de 2025.)





