Tanto no cinema quanto no teatro as produções são caras. Como um novo artista pode lançar seu próprio filme ou peça, especialmente quando ainda não tem um nome consolidado nestes meios? Inscrever um projeto em editais de leis de incentivo é uma boa alternativa. Mas o que fazer se ele não for aprovado? Será que é possível produzir arte no Brasil sem recorrer a estes mecanismos? Aí entra a criatividade de quem não só cria cultura, mas também inventa mil maneiras de divulgar essa criação.
Bruno de Oliveira, 24 anos, é um exemplo. Meses atrás, inscreveu no edital do Fundo Municipal de Cultura o projeto do curta-metragem ''Os Dias Cinzas'', que não foi aprovado. Bruno nem pestanejou com a má notícia. ''Conversei com minha equipe para informar que faríamos o filme na raça, sem dinheiro, em esquema de cooperativa. Todos aceitaram e corremos atrás'', comenta.
A equipe saiu em busca de apoios e colaborações dos mais diversos para viabilizar a realização do filme. ''Conseguimos desde empréstimos de objetos para as cenas, até doações financeiras. Parte dos equipamentos de filmagens foi emprestada pelo curso de cinema da FAP e outra parte foi alugada com desconto'', cita.
Bruno já havia feito outros curtas antes, com produção pequena, envolvendo geralmente um ator em uma locação. Para este último trabalho, a produção era maior, com mais locações e elenco, exigindo mais equipamentos e mais gente envolvida. ''Os Dias Cinzas'' tem 20 minutos e foi captado no formato digital Mini DV, apontado pelo diretor como ''a salvação dos novos cineastas''.
Em relação a filmar com ou sem dinheiro de lei de incentivo, o cineasta afirma que o trabalho é o mesmo, o que muda é a remuneração. ''Mesmo com edital, a gente sempre tem que correr atrás de apoios, descontos e equipamentos. A diferença é que com edital, toda equipe recebe cachê. Já o orçamento para a produção, este sempre acaba sendo curto, independente do valor. Em cinema, sempre parece que o dinheiro não é suficiente.''
Para produzir um audiovisual sem dinheiro, Bruno aconselha o diretor a ter uma equipe bem profissional, de preferência formada por amigos. ''Você precisa trabalhar com pessoas em quem você pode confiar, para que eles levem o projeto até o final, sem desistências.'' Além disso, é importante estar seguro do trabalho. ''Tem que saber muito bem o que você quer, ser firme e responder qualquer pergunta da equipe já na fase de pré-produção. O filme tem que estar todo na sua cabeça antes de ser filmado'', afirma Bruno, que trabalha com os amigos cineastas Carolina Maier, Fábio Allon e Adriano Esturilho. Juntos eles montaram a produtora Processo Filmes.
A experiência de cooperativa serviu de laboratório para que Bruno e seus colegas levassem adiante um novo projeto, desta vez de um longa-metragem filmado em suporte digital, para ser executado até o fim deste ano. ''No sistema de cooperativa, ninguém recebe cachê, mas entra como sócio e tem uma porcentagem de participação no filme. Se ele for comercializado, cada um recebe uma quantia proporcional à sua porcentagem'', explica.
Depois de ficar conhecido, fica mais fácil para o artista ter um projeto agraciado por um edital de incentivo à cultura, mas nem por isso é preciso depender destes benefícios. O ator e produtor teatral Marcelino de Miranda, 36 anos, é formado em artes cênicas pela PUC do Paraná, trabalha como maquiador para cinema e também realiza espetáculos teatrais. ''A cada dois anos eu trabalho como ator, para não perder as raízes'', afirma.
Seu último projeto foi a peça ''@mor.com'', que ficou em cartaz no miniauditório do Teatro Guaíra, nas últimas duas semanas. Diferente de muitos artistas de sua área, Marcelino não recorreu a uma lei de incentivo, nem teve patrocínio. ''Nós batemos de porta em porta e apresentamos nossa idéia. Os empresários foram muito solícitos e disponibilizaram o que puderam para a peça. Não houve assinaturas de contratos nem outras formalidades. Eles acreditaram na nossa palavra, e isso é difícil de se ver hoje em dia'', reconhece.
Com os apoios de catorze empresas, a produção somou recursos no valor de
R$ 33 mil para viabilizar o espetáculo. ''Foi uma grande conquista. Pagamos quase tudo, com exceção de algumas despesas que não podiam ser abatidas desta forma, como locação de teatro, por exemplo. Estas nós cobrimos através da bilheteria'', explica.
A motivação de Marcelino foi a vontade de realizar o projeto o quanto antes. ''Queríamos fazer a peça no começo do ano. Se fôssemos inscrever em um edital, demoraria dois anos até esperar o julgamento, aprovar o projeto, captar recursos. A gente ia acabar perdendo a vontade'', comenta. O espetáculo já rendeu frutos. Será exibido em outras cidades e voltará em cartaz a Curitiba no mês de novembro, no Teatro José Maria Santos.
Para os jovens artistas, Marcelino dá um recado: ''Independente de qual seja a área artística, é primordial ter coragem para fazer seu projeto acontecer e para enfrentar as questões financeiras. Se você acreditar, as pessoas acreditarão também''.

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