MUNDO JOVEM - Arte em permanente circulação
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terça-feira, 24 de junho de 2008
Rodrigo Juste Duarte<br> Equipe da Folha 
Ilustradores, grafiteiros, pintores, fotógrafos, gravadores ou artistas plásticos. Seja qual for o segmento, o artista gráfico sempre quer mostrar seu trabalho ao público. Será que é preciso sempre recorrer ao formato tradicional da exposição em um espaço fixo para cumprir este objetivo? Quem anda pelas ruas do centro de Curitiba pode responder que não, ao ver que alguns ônibus da linha Circular Centro estão rodando com painéis estampados na parte traseira. Todas estas imagens são obras de artistas locais.
Desta forma, ao invés de esperar que o público venha até a arte, a arte vai até o público em um espaço de grande visibilidade, fazendo com que as obras fiquem conhecidas por muito mais gente do que seria possível através da formas convencionais de exposição.
O espaço foi disponibilizado por meio de um edital do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura da Prefeitura de Curitiba, chamado ''Arte Urbana - Transporte Coletivo'', iniciado há cerca de um ano, que, nesta segunda edição, contemplou oito nomes da comunidade de artistas da cidade.
A iniciativa é ideal para gente nova, como é o caso do fotógrafo Arthur do Carmo, que aos 22 anos teve oportunidade de exibir uma de suas melhores imagens. Aluno do terceiro ano do curso de Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Arthur se interessou por fotografia no primeiro ano de estudos acadêmicos. Suas fotos chamaram a atenção de professores, que recomendaram que ele investisse nesta carreira.
''Tive a iniciativa de me inscrever no edital por indicação da fotógrafa Milla Jung, com quem fiz um curso de fotografia documental'', revela Arthur. ''Ela achou que era possível que meu trabalho fosse aprovado, pois tinha um traço de pesquisa fundamentado. A fotografia que está sendo exibida no ônibus sintetiza a idéia de indivíduos que convivem em um mesmo espaço público, no entanto eles não se relacionam, as pessoas se olham mas não se vêem. Isso tem tudo a ver com a circulação de pessoas dentro do transporte coletivo'', comenta.
Segundo ele, o episódio foi definitivo para que tomasse a decisão de ser fotógrafo profissional. ''Agora não tem mais volta'', brinca. E não é só ele que vê o projeto como uma injeção de ânimo para os novos artistas. O ilustrador, Simon Ducroquet, 25 anos, que também foi agraciado, fica contente com o caráter de renovação. ''Conheci cinco dos contemplados pelo projeto, e fiquei feliz em ver que eram todos jovens artistas como eu'', afirma.
Para Simon, que trabalha com ilustração editorial, outro trunfo é o da iniciação na área de exposições. ''As pessoas que vêem gravam a imagem, é uma exposição do trabalho. Por enquanto eu não sou um artista do circuito de exposições, e esse projeto facilita a mostra de uma obra, até porque ela está em um espaço público.''
Valério Sicqueira, 32 anos, é veterano do grafite, com dez anos de dedicação a esta arte. Pela primeira vez encarou o fato de uma obra sua estar em um local móvel. ''O grafite é um trabalho feito na rua, fica parado. Como o ônibus se movimenta, pensei em algo diferente do grafite convencional. Então eu fiz três imagens sobrepostas que se confundem: um fusca, uma bicicleta e um labirinto. Da primeira vez que a pessoa vê, ela nota uma das imagens. Quando o ônibus passa de novo, percebe que tem outra. Fiz a arte pensando nesta construção'', explica.
Já é a segunda vez que ele participa de um edital de arte urbana, sendo que da primeira vez a categoria foi destinada a painéis pintados em viadutos e trincheiras, em que participava de uma equipe de seis pessoas, em trabalho coletivo. Atuante no mercado de design, Valério não vê como obstáculo o fato de não ter diploma acadêmico. ''Não sou formado, sou autodidata. O que aprendi foi através da prática e da experiência. E, mesmo sem diploma, eu trabalho no mercado'', orgulha-se.
André Mendes, 28 anos, encarou a oportunidade como uma forma de divulgar não só sua arte, mas também um ideal: a jardinagem libertária. ''É uma forma de reocupação do espaço urbano. As pessoas precisam encarar a rua como um espaço delas. É um conceito global, que está ligado à reciclagem, ecologia, uso de transportes alternativos e vida sustentável'', explica André.
Membro do coletivo de arte urbana Interlux, André fez faculdade de Design, realizou diversas exposições entre individuais e coletivas (inclusive em Portugal) e já morou na Austrália e em Barcelona. Para ele, o retorno mais desejado não é se mostrar como artista, mas sim iniciar uma reflexão. ''Se a pessoa entender a jardinagem libertária, já cumpri o objetivo de conscientizar'', afirma.
Em breve, todos os participante vão ministrar palestras e workshops sobre suas respectivas artes, como contrapartida social. Arthur dará um curso de fotografia em parceria com Milla Jung. Simon mostrará como utilizar o computador como ferramenta para imagens artísticas, enquanto Valério discorrerá sobre estética, história e panorama atual do grafite. Quem sabe nestes minicursos não surjam novos artistas que estarão expondo na próxima edição do projeto?


