MUNDO JOVEM - Ano Novo diferente
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
Dia 31 de dezembro, meia-noite, todos reunidos com amigos, em praias, casas, galpões, chácaras, enfim, um lugar cheio de pessoas queridas para brindar a passagem do ano com pernil, champanhe, uvas, roupas de acordo com o que cada um quer nos próximos 12 meses... Cenário comum em todo o Brasil, em todo o globo. No entanto, nem todo mundo segue as comemorações do calendário cristão e vai celebrar a vinda de 2008 de um modo diferente.
''A gente canta bastante e baila na passagem do dia 31. No ritual, tem um hinário, a gente canta um livro com 200 hinos para a natureza, Virgem Maria, Jesus, o Natal... Passamos de 10 a 12 horas cantando, aspirando coisas positivas para o ano, concentrando na paz, porque cantar é bom para o espírito. Não é uma farra, é uma festa para desejar coisas boas'', explica a massoterapeuta Mariana Bona, de 22 anos, que participa da doutrina do Santo Daime há 8.
Mariana mora no perímetro urbano mas não gosta muito do cotidiano da cidade, sente-se mais próxima da natureza. ''Me sinto oprimida por esse consumismo, as pessoas só querem coisas materiais, não querem ter outras experiências de vida saudáveis'', critica.
Incomodada, ela então procurou por uma crença que abrisse opções mais próximas de suas idéias. ''Morei numa comunidade hare krishna e em uma das viagens que fiz tive contato com a cultura que faz ritual do Santo Daime na floresta amazônica. Só é Santo Daime quando você toma a bebida em sessão completa, participa do estudo da própria consciência, tem pensamento positivo e preserva a natureza'', destaca.
Desde então, Mariana se sente mais em paz consigo mesma e até mesmo encontrou uma conexão familiar pouco conhecida. ''A mãe da minha avó tem linhagem indígena e isso me deixou com uma ligação mais próxima com a doutrina'', observa. Mas, como em toda crença, há quem questione sua utilidade ou mesmo seus rituais. ''Sempre tem quem critica, principalmente por causa do vegetarianismo, porque é difícil as pessoas entenderem. Elas acham que está faltando alguma proteína para mim, que estou ficando fraca. Mas se não estou sendo correta com todos, a doutrina perde o sentido e procuro respeitar as pessoas.''
No próximo dia 31, a comemoração não se dá exatamente pela passagem do ano, já que os calendários indígenas contam com datas diferentes do cristianismo. No entanto, como os costumes da maioria influenciam a doutrina, a celebração é especial. ''A gente faz esse ritual de três a quatro vezes no ano. Mas no Ano Novo tem um significado diferente, para trazer a renovação do ser'', conta Mariana.
''O pessoal vai se reunir às 18 horas e vai cantar das 20 horas até o amanhecer. No dia 1º é que tem confraternização, com frutas, caissuma, que é uma bebida indígena feita com a fermentação do macaxeira. A cada ano participo em um local diferente, a gente normalmente se reúne em lugares no meio da natureza'', afirma Mariana.
Raízes brasileiras - Apesar dos rituais serem diferentes, Mariana acha que a doutrina do Santo Daime, que preserva hábitos indígenas, talvez esteja até mais ligado às raízes brasileiras do que a própria tradição cristã. Mesma opinião do estudante de publicidade Walter Dudek, 25 anos, adepto da umbanda.
''É, se você contar que o pessoal já praticava isso por aqui há muito tempo, a umbanda é muito mais brasileira'', diz ao comparar com as comemorações cristãs. Dudek cresceu sob crenças católicas, mas conseguiu encontrar mais equilíbrio para sua vida depois de entrar em contato com a umbanda. ''Conheci por causa de uma ex-namorada e comecei a frequentar, entrei para a corrente, fui batizado há uns seis meses. A minha bisavó dava 'consulta', ela tinha um 'terreiro' em Irati'', relata.
A umbanda ainda é vista de maneira pejorativa por boa parte da população e, inicialmente, Dudek precisou convencer amigos e familiares de que estava participando de uma crença séria, voltada para o bem. ''As pessoas acham que a umbanda é só coisa ruim, têm muito preconceito, eu mesmo tinha. Via aqueles 'trabalhos' na rua e todo mundo sempre dizia para sair de perto, que era coisa ruim. Acho que até devem existir lugares que façam essas coisas, por isso é que você deve conhecer bem o 'terreiro' em que vai fazer parte. Meus pai e minha mãe ficaram preocupados, mas um dia levei minha mãe e minha tia, elas adoraram, viram que só tem coisas boas'', lembra.
Na passagem de ano, Dudek afirma que cada comunidade faz uma celebração diferente, desde comemorações discretas até oferendas para Iemanjá (Orixá do mar) na praia. ''O pessoal entrou de férias e cada um celebra do jeito que quer, é a mesma coisa que na Igreja Católica'', diz. E, a exemplo da doutrina do Santo Daime, a passagem do ano está mais ligada à convenção cristã do que à própria umbanda. ''Tem datas mais importantes, como o 'trabalho' para Iemanjá que o pessoal faz no dia 2 de fevereiro e o 'trabalho' de praia, que reúne médiuns no dia 23 de fevereiro, em Praia de Leste (litoral paranaense)'', explica.


