Eis que inicia mais um ano letivo nas escolas e faculdades e, invariavelmente, uma pergunta costuma martelar na cabeça de quem acaba de terminar o Ensino Médio e pensa em escolher uma profissão: ''Pra qual curso vou prestar vestibular?''. Decisão difícil, principalmente em época de mudanças na vida, momento de aumento de responsabilidades e exigências. Some aí um mercado de trabalho a cada dia mais competitivo e a pressão familiar de entrar em uma faculdade. A tarefa de encontrar uma resposta é árdua, mas pode ser menos dolorosa.
''A escolha de uma profissão no Brasil ocorre muito cedo. As decisões dos jovens, então, ficam muito relacionadas à influência da família, dos caminhos que os amigos estão tomando'', explica a doutora em Psicologia Clínica (PUC-SP) e especialista em Terapia Familiar, Sílvia Maria Grassano, que vem trabalhando com jovens vestibulando no Sabernético, empresa especializada em tratar do assunto.
A alta taxa de desemprego e os baixos salários pagos para empregados que não possuem um diploma de universidade ou faculdades acabam fazendo com que os jovens escolham muito cedo por uma carreira que mal conhecem ou nem mesmo gostam. Na Europa, por exemplo, adolescentes passam mais tempo trabalhando e/ou estudando antes de optar por uma profissão. Muitos sequer buscam o canudo.
''Os parâmetros da maioria vão de acordo com os valores da família. A maioria se sente pressionada porque tem que escolher alguma coisa'', diz Sílvia, que também destaca outro dado interessante. ''As exigências são maiores nas classes sociais mais altas. Os adolescentes das classes mais baixas não têm tempo para ficar pensando e seguem o fluxo rumo ao mercado de trabalho. Já os das classes mais altas têm mais tempo para terem dúvidas.''
Arthur Henrique Meyer Machado, de 17 anos, passou recentemente no vestibular para Engenharia Civil na Universidade Federal do Paraná (UFPR). No entanto, o caminho para chegar à aprovação teve como maior obstáculo a dúvida de estar procurando o curso certo para uma vida inteira. ''Cheguei a pensar em Medicina mas depois que vi como é o trabalho, desisti'', lembra.
Para Arthur, o fato da família não pressioná-lo sobre sua escolha ajudou-o a pensar mais sobre a decisão. Ele teve a ajuda da psicóloga Sílvia para encontrar o rumo mais adequado. ''Meu pai é engenheiro, então já sei um pouco sobre a profissão, e gosto de física e matemática. Basicamente, você olha para as opções e vê suas aptidões e o curso que tenha a ver com isso. Procurei a Engenharia Civil pela facilidade de poder trabalhar por conta própria mais tarde'', justifica.
O vestibulando Renan Barcik de Castro Wille, de 17, optou pelo curso de Engenharia Elétrica por motivos semelhantes aos de Arthur. ''Eu sempre gostei de Lego e robótica e meu pai sempre trabalhou com peças de aparelhos eletrônicos'', afirma.
''Comecei a pesquisar e primeiro quis fazer Mecatrônica, depois Engenharia da Computação, Engenharia Elétrica e Administração. Depois, fui vendo as características de cada área e descobri que falta engenheiros no Brasil'', comenta Renan. ''Eu quero um trabalho que eu goste e que me dê retorno financeiro. Meu pai ficou um pouco indeciso sobre minha decisão mas achou que se eu fosse feliz seria melhor pra mim. É um risco que a gente passa, todos passam.''
Mais difícil foi a decisão de Marina Barcik de Castro Wille, de 28 anos. ''Quando fiz vestibular, queria fazer Música, depois fiz Engenharia Química, detestei'', recorda. ''Depois fiz vestibular para Administração, Letras, Design... Meus amigos estavam resolvidos e eu ainda estava meio perdida'', complementa.
Nesse caso, Marina afirma que a experiência e uma pesquisa maior sobre as profissões acabaram ajudando a escolher com mais calma e precisão a carreira desejada. ''Depois dessa minha experiência, fui a primeira colocada no vestibular de administração'', conta.
Marina hoje é sócia-gerente da Sabernético e procura aproveitar a própria experiência para auxiliar outros jovens que estão passando pelas mesmas dificuldades. ''Uma vez uma menina me disse que queria fazer Biologia ou Engenharia Florestal, que são duas coisas completamente diferentes, só porque gostava de natureza. A maioria escolhe de acordo com a matéria que gosta, mas você precisa ir na universidade que pretende estudar, conversar com os professores, com os alunos. Quando descobri que teria que trabalhar em uma fábrica quando fazia Engenharia Química, pensei ''nem pensar''. Então, tem que conhecer melhor o curso'', sugere.
''Você precisa se conhecer melhor, conhecer o seu ''Horizonte Temporal''. Qual é o horizonte que você pode projetar? Você se formar não é o mais importante, não é um projeto de vestibular que está fazendo, e sim um projeto de vida'', aconselha a psicóloga Sílvia.

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