Walcyr Carrasco costuma trabalhar em cima de histórias de humor. Mas, agora, surpreende em sua estreia no horário nobre. É verdade que, por algumas semanas, "Amor à Vida" passou um período de marasmo e sem grandes surpresas na trama. Só que, atualmente, passados mais de 130 capítulos no ar, o bom ritmo e a dose equilibrada de comédia e drama são grandes trunfos nas mãos do autor. Mas talvez seja a capacidade de criar tipos tão dúbios, com características tanto boas quanto más, sua melhor qualidade neste trabalho.
No núcleo principal, por exemplo, isso é visível em vários personagens. César, vivido por Antônio Fagundes, mostra sua carga vilanesca ao renegar o filho Félix, de Mateus Solano, em função da sexualidade do rapaz. As cenas dos dois, inclusive, servem para humanizar o ex-administrador do hospital San Magno, que já foi capaz de roubar o bebê da irmã Paloma, de Paolla Oliveira, e jogá-lo em uma caçamba de lixo. Assim como o ex-"riponga" Ninho, papel de Juliano Cazarré, que deu uma repaginada no visual e também na visão que tinha sobre a paternidade. Tanto que, depois de alcançar o sucesso como artista plástico nos Estados Unidos, retornou ao Brasil disposto a conquistar o carinho da filha Paulinha, de Klara Castanho.
Mas algumas situações da novela parecem pouco críveis. Como, por exemplo, a rejeição da família de Daniel, interpretado por Rodrigo Andrade, ao relacionamento dele com a enfermeira Perséfone, de Fabiana Karla. É claro que o preconceito contra obesos existe. Mas é difícil acreditar que uma família que prega tanto a ética e luta para que a autista Linda, papel de Bruna Linzmeyer, não seja excluída pela sociedade, se oponha tão claramente ao casamento do filho simplesmente porque ele escolheu uma gordinha para se casar.
De qualquer forma, Walcyr Carrasco já tem uma oportunidade para, em breve, promover uma nova reviravolta na história: a vingança de Mariah, de Lúcia Veríssimo, e Aline, de Vanessa Giácomo, contra César. Vanessa, aliás, é uma das atrizes mais convincentes do folhetim. Sabe ser suave o suficiente para dar credibilidade aos golpes que sua personagem aplica no marido e, ao mesmo tempo, aproveita cada cena com Susana Vieira, que vive a traída Pilar, e Mateus Solano para exercitar seu lado mais vilão. E sem cair no clichê de apostar no humor para dar charme à morena má da trama. Ponto para a atriz, que, desde "Morde & Assopra", vem se destacando em personagens escritos por Walcyr. Parece mesmo ter caído nas graças do autor.

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