'Multidões silenciosas vendo a rua viver'
Paris - A Cidade Luz é também a cidade dos cafés. E leva isso muito a sério. São cerca de 10 mil estabelecimentos do gênero, locais em que o levantamento de xícara é exercício sagrado no dia-a-dia. São locais em que se aproveita para descansar, para encontrar amigos, para discutir negócios ou simplesmente para ver a vida passar. Émile Zola, cujos restos repousam no Panteão de Pari, escreveu certa vez que ''nos cafés estão as grandes multidões silenciosas vendo a rua viver''. É isso.
O primeiro café foi aberto em 1672, no quarteirão do Museu do Louvre. Não existe mais, deixando para o Le Procope o título de mais antigo, aberto em 1686 pelo siciliano Francesco Procopio dei Cotelli. O Le Procope era popular entre a elite política e artística (entenda-se: literária e teatral, principalmente entre os atores da comédia francesa, que hoje batiza a rua).
Hoje é impossível pensar em Paris sem lembrar-se da imagem romântica de grandes artistas e intelectuais discutindo os rumos do mundo sentados num desses charmosos cafés da margem esquerda do Sena.
No século 19, os ricos, elegantes e poderosos elegeram seus ''points'' o Café de Paris e o Café Tortini , enquanto o público de teatro rumava em procissão para os vizinhos da Opéra, como o Café de la Paix.
Mas nada é mais representativo do que os cafés de Saint-Germain-des-Près e Montparnasse, onde os literatos e revolucionários de outros tempos se encontravam e os novos ricos de hoje adoram ser vistos. A lista dos que frequentaram a região é interminável.
Dois ícones, no entanto, seguem esbanjando vitalidade e rivalidade: Café de Flore e Les Deux Magots, preferidos por Sartre e Simone de Beauvoir . Mudaram os frequentadores. Entre taças de vinho e xícaras de café, hoje há turistas esbaforidos e apenas restos de Existencialismo.
Os tempos são mesmo outros. Agora há cafés-tudo: café-karaokê, cybercafé, café-filosófico, café-biblioteca. Há até a heresia das heresias para os franceses: no ano passado, numa esquina da Avenue de l'Opéra, nascia a primeira loja da gigante americana e mundial das casas de café Starbucks. ''Une passion pour le café'', dizia o slogan, num cartaz cheio de donuts e brownies. Esqueça. Os troquets (cafés de esquina) e pastis (o aperitivo nacional francês) são insubstituíveis. (V.K.)





