Zé Rodrix: livro mostra sua trajetória criativa, produtiva e provocadora. Na foto, ele aparece com a cadela Jade.
Zé Rodrix: livro mostra sua trajetória criativa, produtiva e provocadora. Na foto, ele aparece com a cadela Jade. | Foto: Toninho Vaz/2007



Um dos autores da canção "Casa no Campo", que se tornou um clássico da música popular brasileira na voz de Elis Regina, o carioca Zé Rodrix (1947-2009) tem sua trajetória revisitada em uma biografia escrita por Toninho Vaz. Publicado em coedição pela Editora Olhares e Caravela Filmes, o livro com 324 páginas desnuda a personalidade multifacetada do carioca que se tornou um dos personagens mais enigmáticos da música nacional dos anos 70. O lançamento está programado para acontecer logo após o carnaval.

A publicação faz um check-up geral na trajetória produtiva e provocadora do artista. A sólida formação musical - atributo que moldou sua carreira - teve início ao receber as primeiras noções musicais de seu pai. No Conservatório Musical do Rio de Janeiro e na Escola Nacional de Música, estudou teoria musical, harmonia e contraponto, piano, acordeon, flauta, saxofone e trompete. A carreira artística se iniciou no Colégio de Aplicação da UFRJ, onde fundou um grupo de teatro no qual exercia as funções de ator, diretor, cenógrafo e compositor de trilhas sonoras. O livro conta ainda, com detalhes, os desdobramentos dessa empreitada na primeira atividade artística profissional, como ator, ainda na época escolar, quando se tornou um dos mais ativos membros do emergente Teatro Tablado, no Rio.

Zé Rodrix foi um multiartista que tinha o dom de estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Na banda Momento4, aos 19 anos, acompanhou Edu Lobo na vitória de "Ponteio", no Festival de Record de 1967. Com a lendária Som Imaginário, criada inicialmente para acompanhar Milton Nascimento, foi protagonista do flerte da MPB com o rock progressivo. No trio com Sá e Guarabyra fundou o estilo que seria chamado de Rock Rural. Com a gravação de Elis de "Casa no Campo", estourou em todas as paradas e teve uma carreira solo de enorme sucesso. A versão de Elis também apareceria em seu LP do ano seguinte, 1972, e foi posteriormente apontada pela edição brasileira da revista Rolling Stone como a 93ª Música Brasileira Mais Importante de Todos Os Tempos.

Num dado momento, como se entenderá nas páginas do livro, parou tudo. Houve muitos Zé Rodrix, antes e depois disso. Compositor, multi-instrumentista, publicitário, escritor, ator, gozador, maçom, cozinheiro, era na verdade um grande inventor de histórias - um "fabuloso fabulista". Se retirou do mercado fonográfico por decisão própria, direcionou seu talento para o jingle publicitário (e mil projetos mais) e foi um dos grandes do Brasil nessa seara. Ainda ingressou na maçonaria e escreveu uma trilogia de fôlego, onde misturou, em 1.400 páginas, fatos reais e ficção, abordando a fundação da maçonaria na época do Rei Salomão, ano 1.000 a.C. Demonstrou também uma afiada verve literária.

Toninho Vaz: "O Zé era conhecido como contador de histórias, quase sempre fabulosas. Portanto, tive que investigar com muito mais cuidado, ter segurança na informação"
Toninho Vaz: "O Zé era conhecido como contador de histórias, quase sempre fabulosas. Portanto, tive que investigar com muito mais cuidado, ter segurança na informação"



Isso tudo seria pouco para a personalidade inquieta desse artista brasileiro, que dá o tom do livro. Craque na criação de jingles, conquistou importantes premiações internacionais através da sua produtora A Voz do Brasil. E manteve a atividade de arranjador, produtor e compositor de trilhas, coisas do arco da velha como o inesquecível solo de teclado Moog (e arranjo) da música Fala, do grupo Secos e Molhados. Integrou ainda o grupo Joelho de Porco, ícone do estilo punk-rock-humor brasileiro, e participou do Festival dos Festivais em 1985, ganhando o prêmio de melhor letra pela música "A Última Voz do Brasil".

Autor da biografia de Zé Rodrix, Toninho Vaz é paranaense nascido em Curitiba e radicado no Rio de Janeiro. Jornalista, roteirista, escritor e biógrafo brasileiro, publicou artigos e reportagens em diversas revistas nacionais: Fatos & Fotos, Manchete, Pasquim e jornal Nicolau. Na televisão, atuou no Jornal da Band e como editor de texto na Rede Globo de Televisão em telejornais e programas semanais como: Jornal Nacional, Globo Esporte e Fantástico, onde atuou por mais de cinco anos. Foi editor e produtor na rede norte-americana CBS Television. Editor e redator em várias publicações da Fundação Darcy Ribeiro, e é autor das biografias de Paulo Leminski, Torquato Neto, Darcy Ribeiro, Santa Edwiges e Luiz Severiano Ribeiro. Publicou em 2011, depois de três anos de pesquisa, o livro Solar da Fossa, um território de liberdade, impertinências, ideias e ousadias, com prefácio de Ruy Castro, edição esgotada.

Você apresenta o Zé Rodrix como um mitômano. Quais desafios você enfrentou para chegar à versão final dos fatos citados na biografia?
O Zé era conhecido como contador de histórias, quase sempre fabulosas. A realidade pra ele era muito chata, entediante. Portanto, tive que investigar com muito mais cuidado, checar mais de uma fonte, ter segurança na informação. Afinal, se dependesse apenas de Zé Rodrix, ele seria advogado e baiano, quando na verdade estudou direito apenas no primeiro ano da Faculdade Cândido Mendes, no Rio, e nasceu numa clínica em Botafogo. Era, portanto, carioca.

Após esse mergulho profundo na obra do biografado, quais características marcantes você destaca nas composições de Zé Rodrix?
O Zé era um músico raro, pois começou a tocar acordeon aos 13 anos, depois estudou no Conservatório de Música e acabou por tornar-se um multi-instrumentista: tocava todos os instrumentos: cordas (violão, guitarra, baixo), sopro (flauta, trompete, sax, okarina) e teclados (piano, órgão eletrônico). Tornou-se um arranjador prestigiado entre os músicos e um maestro bastante requisitado e atuante. Além disso, revelou-se um grande e talentoso escritor, quando escreveu a "Trilogia do Templo" (Ed. Record), romance histórico sobre a construção do templo do Rei Salomão, totalizando mais de duas mil páginas. Abordava, segundo ele, o início da Maçonaria.

Qual legado ele deixou para a música popular brasileira?
O legado do Zé abrange não apenas a música, mas a cultura brasileira no sentido mais amplo. Na música, nos deixou um clássico em parceria com Tavito, "Casa no Campo", gravada com grande sucesso por Elis Regina. Mas não podemos esquecer a participação dele na publicidade, onde se destacou como um fértil criador de jingles, manipulando a linguagem que modernizava a publicidade, via televisão. Com o comercial de lançamento do carro Opala, da Chevrolet, em 1988, ele e Tico Terpins (seu sócio no estúdio Voz do Brasil e parceiro musical na banda Joelho de Porco) ganharam os maiores prêmios da publicidade nacional e internacional: "É no silêncio de um Chevrolet que o meu coração bate mais alto....".

Acha que Zé Rodrix teve o devido reconhecimento como artista?
Não. Escrevi a biografia justamente por considerar que o Zé Rodrix era uma pessoa muito pouco conhecida, além dos meios musicais. Ele não fazia questão de reconhecimento, mas estava por trás da carreira e do sucesso de muita gente boa, trabalhando anonimamente no estúdio: Secos e Molhados, Língua de Trapo, Fafá de Belém, Nasi. O roqueiro Kid Vinil, falecido ano passado, reconhecia que ele e sua banda Magazine eram uma criação de Zé Rodrix, que estava junto no estúdio.

Dentre tantos acontecimentos citados no livro, quais chamaram mais sua atenção?
A revelação do Zé como escritor me foi apontada primeiro pelo músico Aquiles Reis, do grupo MPB4, que leu a trilogia completa. Decidi ler o primeiro volume (800 páginas) e não consegui parar. Ele era talentoso, criativo e tinha a envergadura dos grandes escritores. Era dono de uma enorme cultura, própria dos grandes leitores.

Paulo Leminski, Torquato Neto, Darcy Ribeiro e Santa Edwiges estão entre as personalidades que já foram biografadas por você? Já escolheu o personagem de seu próximo livro? O que leva em conta na hora de fazer essa escolha?
Ainda não chegou a hora, mas logo vou escolher um novo e interessante personagem, que promete ser ligado à cultura brasileira contemporânea. Eu me interesso por valores que merecem ser revelados. O óbvio, o já consumado, não me instiga a desvelar.

Serviço:
"O Fabuloso Zé Rodrix" (Ed. Olhares)
Autor: Toninho Vaz
Número de páginas: 324
Preço de capa: R$ 68

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