Edinelson Alves
De Brasília
Especial para a Folha2
Como parte das comemorações do descobrimento, a Bancada Feminina no Congresso Nacional acaba de lançar o livro ‘‘Mulheres do Brasil - 500 Anos de Lutas e Conquistas’’. O livro é uma homenagem às figuras femininas que mais se destacaram na história brasileira. Na apresentação, é feito um retrospecto da caminhada para a libertação da mulher. Após a Revolução Russa de 1917, por exemplo, foi reconhecido o voto de direito feminino, direito que havia sido conquistado pelas mulheres australianas em 1902. No Brasil, só a partir de 1933 a mulher conquistou o direito do voto. Mas no Rio Grande do Norte, elas tiveram esse direito antecipado e começaram a votar em 1928.
O trabalho feminino também é enfocado. Apesar de ter sido reconhecido desde o início do século, a diferença salarial entre homem e mulher ainda é marcante. Também persiste muito forte a discriminação numa cultura em que os homens sempre ocuparam os cargos de decisão.
A Bancada Feminina do Congresso instiga as mulheres a terem maior participação na vida política, como forma de ocupar uma função estratégica na proposição e votação de novas leis que regulam a vida da sociedade brasileira. Do universo de 594 parlamentares no Congresso Nacional, apenas 37 cadeiras são ocupadas por mulheres, sendo 30 deputadas e sete senadoras. Lamentavelmente, o Paraná é um dos poucos estados que não têm nenhuma representante em Brasília. São Paulo e Rio de Janeiro têm as maiores bancadas femininas com 5 deputadas cada um. Apesar de serem minoria, as mulheres são muito atuantes. Dos 179 projetos de lei em tramitação sobre as áreas de trabalho, saúde, direitos civis, violência, poder, educação, sexualidade, desenvolvimento e infra-estrutura, 61 deles foram apresentados por deputadas e senadoras.
A Bancada Feminina cobra que os partidos cumpram a lei que reserva às mulheres pelo menos 30% dos cargos nas eleições. Esse seria um dos instrumentos para aumentar a participação feminina na política eleitoral. As deputadas e senadoras entendem que a revolução na política, com as mulheres ocupando postos-chave nos poderes legislativos e executivos, seria um passo fundamental para as leis que regem a sociedade ganharem uma nova ótica. ‘‘O Legislativo e sobretudo a população ganharam muito com a atuação da bancada feminina. Quanto ao passado, resta-nos lamentar que a humanidade tenha perdido tanto ao menosprezar a mulher’’, declaram.
Sobre as mulheres que fizeram parte da História do Brasil, segundo a Bancada Feminina no Congresso, as homenageadas tiveram as mais diferentes formas de atuação. Vai desde a enfermeira Ana Néri, passando pela lutadora da inconfidência Bárbara Heliodora, pela bióloga Berta Lutz, pela guerrilheira Anita Garabaldi e até chegar em Zuzu Angel, que procurou até a morte o filho desaparecido durante o regime militar.
No livro ‘‘Mulheres do Brasil - 500 Anos de Lutas e Conquistas’’ destacam-se alguns perfis.
Anita Garibaldi (1821-1849) - A catarinense Ana de Jesus Ribeiro conheceu o guerrilheiro José Garibaldi em Laguna (SC), quando ele fugia da Itália. Ela entrou de cabeça nas lutas e nas causas defendidas por Garibaldi. Aliaram-se aos guerrilheiros do sul para combater o exército imperial. Ela acabou presa. Conseguiu permissão para procurar o marido, que todos acreditavam morto, e fugiu. Garibaldi e Anita foram para o Uruguai combater o caudilho Oribe. Em seguida, ele volta à Itália, ela fica com três filhos em Montevidéu. Anita vai ao encontro do marido na Itália onde lutam contra os franceses. A cabeça de Garibaldi é colocada a prêmio. Mesmo grávida, ela foge com o marido rumo a Ravena. Não suportando a fome, sede e febre acaba Anita acaba morrendo numa casa da floresta.
Ana Néri (1814- 1880) - Ana Justina Ferreira Néri ficou viúva aos 30 anos do capitão-de-fragata Isidoro Antônio Néri. Em 1965, seus três filhos foram convocados para a Guerra do Paraguai. Aos 50 anos, ofereceu-se como voluntária para trabalhar como enfermeira naquela guerra. Ela atendeu dezenas de feridos em barracas improvisadas por onde entravam balas por todos os lados. Não desistiu, nem mesmo quando encontrou morto um de seus filhos entre os feridos. Ela foi a precursora da Cruz Vermelha Brasileira. Ana Néri foi condecorada com diversas medalhas. Após receber pensão vitalícia do imperador, ela educou quatro órfãos de soldados que morreram na guerra. Por toda essa dedicação voluntária ao próximo, Ana Néri foi chamada de ‘‘Mãe dos Brasileiros’’.
Olga Benário (1908-1942) - Natural de Munique, Alemanha, desde cedo Olga Benário Prestes participou de atividades comunistas. Em 1934, veio ao Brasil na companhia de Luiz Carlos Prestes para fazer a revolução comunista. Com o fracasso do movimento, Prestes, o principal líder é procurado por toda força policial. A ordem é levá-lo morto. Olga e Prestes foram localizados num casa do Méier, no Rio. Na hora em que os policiais iam disparar contra ele, Olga se atirou na frente. Como queriam levá-los em carros separados, ela se agarrou ao marido e não permitiu. Descoberta sua identidade de alemã e judia, mesmo grávida de Prestes, foi deportada por ordem de Getúlio Vargas e entregue à polícia nazista. No campo de concentração nasceu sua filha Anita Leocádia Prestes. Em 1942, Olga foi morta na câmara de gás junto com outras 200 mulheres.
Pagu (1910-1962) - Escritora, jornalista, e militante comunista, Patrícia Rehder Galvão ficou conhecida nos meios intelectuais como Pagu. A partir de 1928, ela se aproximou de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, com quem teve um romance um ano depois. Em 1931, filia-se ao Partido Comunista e quatro depois é presa no Rio por causa do levante comunista, sendo condenada a dois anos de prisão. Foi a primeira mulher brasileira presa por motivos políticos. Em 1938, Pagu foi presa novamente, desta vez pelo Estado Novo. Ela viveu intensamente. Além de ativista, foi escritora e jornalista, tendo sido correspondente de jornais cariocas nos Estados Unidos, Japão, China, União Soviética, Alemanha e França, onde foi presa junto a Juventude Comunista e deportada ao Brasil. Em 1940, ao deixar a prisão, rompe com o PC e entra em crise existencial. Cinco anos depois, lança o livro ‘‘Famosa Revista’’ em que questiona o comunismo e o partido único.
Tarsila do Amaral (1890-1973) - Paulista de Capivari, Tarsila do Amaral foi uma das fundadoras do grupo Pau Brasil, que deu origem ao movimento modernista. Mas ela não participou da Semana de Arte Moderna de 22. Naquele período, ela fazia um curso em Paris. Depois de sua volta ao Brasil, Tarsila se juntou ao grupo de Anita Malfatti, Menotti del Pichia, Oswald e Mário de Andrade. Casada com Oswald, ela o presenteou em 1928, por ocasião do aniversário dele, com o quadro ‘‘Abaporu’’. O quadro nasceu de pesadelos e lembranças de histórias contadas por velhas escravas. Impactado com a obra, Oswald lança o movimento libertário antropofágico. Para se ter uma idéia da importância de ‘‘Abaporu’’, o quadro foi vendido em 1995 por US$ 1,3 milhão, o mais alto valor pago por uma obra de artista brasileiro. Com sua obra, Tarsila foi uma colecionadora de prêmios e considerada pioneira no Brasil ao fundir a linguagem internacional, contemporânea e nacionalista.
Leila Diniz (1945-1972) - Ela começou a vida como professora primária no subúrbio do Rio. Mas, consagrou-se como artista de teatro, cinema e televisão. Além disso, foi responsável por revolucionar os costumes femininos, com sua postura, maneira de vestir. Era um verdadeiro furacão em movimento, pronto para contestar o óbvio da sociedade e as regras estabelecidas. Leila Diniz chocou o Brasil ao aparecer grávida de biquíni nas praias. Ela virou um símbolo de contestação e reinou soberana pelas bandas de Ipanema. Seu jeito libertário incomodava. Suas entrevistas, principalmente no Pasquim, quebravam tabus ao falar sobre amor, liberdade sexual e padrões tradicionais. Por isso Leila foi muito censurada. Morreu aos 37 anos num acidente quando ainda tinha muitas polêmicas para viver.
Zuzu Angel - Ela foi considerada pelo cronista Carlos Heitor Cony como ‘‘única mãe de mártir da história do Brasil’’. Estilista de destaque com clientes famosos como Joan Crawford, Kim Novak, Liza Minelli, entre outros, Zuzu passou sete anos procurando pelo corpo de seu filho, Stuart Angel, morto pela ditadura militar sob tortura, em 1971. Em 1977, ela morreu num estranho acidente de carro no Rio de Janeiro. Testemunhas disseram que ela foi vítima de um atentado. O caso foi levado ao Comitê dos Mortos e Desaparecidos. Antes do acidente, ela havia dito para alguns amigos que estava sendo ameaçada. Zuzu Angel entrou para a moderna história como heroína devido a luta incansável para encontrar o corpo do filho. Sua causa ficou conhecida internacionalmente. A morte dela e do filho ainda são feridas abertas na história da repressão política no Brasil.Bancada Feminina do Congresso lança livro destacando o trabalho das mulheres ao longo da História do Brasil
ReproduçãoO furacão Leila Diniz subverteu as regras e transformou-se em símbolo de contestação, não poderia ser esquecida entre as brasileiras que fizeram históriaReproduçãoPatrícia Galvão: escritora, jornalista, ativista e musa do modernismo

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