MULHERES
NA MESA DO BAR
Depois de ‘‘Confissão de Adolescentes’’, as mulheres de 30 também ganham peça falando de suas dúvidas e certezas
Aqui as confissões
são como uma segunda
adolescência
Zeca Corrêa Leite
DivulgaçãoA atriz Clarice Niskier faz parte do elenco de ‘‘Confissões das Mulheres de 30’’ que está em cartaz no Teatro Fernanda Montenegro
Quando mulheres se reúnem do que mais elas falam? De homens. Se nem todas se dão a esse trabalho, a maioria sim. A peça ‘‘Confissões das Mulheres de 30’’, em cartaz no Teatro Fernanda Montenegro, até domingo, embora esmiuce o universo feminino, pelo menos metade dos assuntos discutidos no palco, referem-se à figura masculina.
Bem ou mal eles estão ligados aos céus e aos infernos do mulherio, mas não são a única coisa a merecer reflexão. Entre outros temas igualmente relevantes, está a queda infalível dos peitos e do bumbum. Os cabelos, tratados com tanto carinho, acham de embranquecer, a pele insiste em não ser mais a mesma. O sexo ganha nova conotação. A vida fica por um fio.
Toda essa história que deve existir desde o começo do mundo, inquietando desde as simplistas às mais vaidosas almas, aparece agora escancarada na peça dirigida por Domingos de Oliveira. O texto pertence às atrizes que participaram do espetáculo nos últimos cinco anos, entre elas Maitê Proença.
Há dois anos ‘‘Confissões das Mulheres de 30’’ voltou a ser representado com sua formação inicial: Priscilla Rozembaum, Dedina Bernardelli e Clarice Niskier. A adaptação dos depoimentos coube ao diretor.
Segunda adolescênciaPelo título percebe-se que a montagem tem um pé em ‘‘Confissões de Adolescentes’’, o fenômeno teatral escrito pela filha de Domingos, Maria Mariana. Se as garotas tinham o que contar na inquietante fase da transição para a vida adulta, o que não teriam a dizer as mulheres que passaram da casa dos 20 e ainda não chegaram ao sossego da maturidade?
Para responder a essa indagação, Domingos de Oliveira propôs a Priscilla, Dedina e Clarice que escrevessem suas verdades mais íntimas, com todos os grilos e soluções, sem constrangimentos. As três toparam a parada e no final de tudo resultou naquilo que o curitibano verá entre hoje a domingo.
Aqui as confissões são como uma segunda adolescência, ou uma segunda transitoriedade. É a fase da beira do precipício para situações diversas: além de questões puramente ligadas com a vaidade, há outras mais contundentes, como a maternidade (‘‘ou tenho um filho agora ou nunca mais’’) e a afirmação na profissão. Tem coisas que dos 30 para a frente ficarão mais difíceis.
Não quer dizer que as portas se fechem, mas a vida impõe declínios e mudanças que mexem com a cabeça de qualquer um. O homem sofre essas bruxarias aos 40, acredita o diretor.
Pílulas e AidsEsta geração, muito especialmente, tem o que contar, pela experiências de suas vidas. Nenhuma outra viu a liberação de costumes com intensidade tão grande como a dos anos 60, acompanhada pelo surgimento das pílulas anticoncepcionais. A essa maré, que não durou duas décadas, sobreveio a sombra mortal da Aids.
Da euforia à contenção, rolam as situações mais comuns e por isso mesmo universais. Domingos de Oliveira, em entrevista à Folha Dois, afirmou que a princípio imaginava que a peça seria vista apenas por mulheres de 30. A realidade foi diversa das expectativas.
Um público feminino de todas as idades vem prestigiando o espetáculo nesses cinco anos. Os homens também têm comparecido às salas, num sinal de que há uma compreensão intrínseca da vida, sem prender-se às peculiaridades do sexo. ‘‘É um espetáculo sincero, que mostra a mulher numa fase em que vive o auge: sem a inocência dos 20 e sem a experiência dos 40’’, comenta Oliveira.
O fato de ‘‘Confissões’’ ser uma comédia de sucesso comprova apenas que inseguranças e temores vividos no dia-a-dia, desde que colocados com leveza no palco podem se transformar em espelhos para a platéia. O riso é o aval de que a verdade abraça a todos. Ou, então, a todas.
‘‘Confissões das Mulheres de Trinta’’. Direção de Domingos de Oliveira. Com Priscilla Rozembaum, Dedina Bernardelli e Clarice Niskier. Dias 29 e 30 às 21 horas, 31 às 19 horas, no Teatro Fernanda Montenegro (tel. 224-4986). Ingressos: R$ 20,00 (preço único).

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