Mulheres em 28 milímetros
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de maio de 2009
Bruna Haddad<br> Especial para a Folha 2 
''Mas isso não é uma mostra da França no Brasil, é do Brasil no Brasil!'', exclama uma senhora ao ver que a exposição ''28 milímetros - Mulheres'', do renomado artista francês JR, traz fotografias de moradoras do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, e não de Paris ou Provença. O recado é dado logo na entrada da Casa Brasil-França, sede da exposição. O retrato da moradora Rosiete Marinho estampa a fachada do prédio e avisa: ali dentro o visitante entra em contato com a vida, sonhos e sofrimentos de moradoras da favela mais antiga do Rio.
Inaugurada em 23 de abril, a exposição segue até 21 de junho contando as histórias das mulheres da Providência. O projeto segue a linha de outros trabalhos de JR, conhecido por fotografar comunidades marginalizadas e expor suas obras em instalações a céu aberto. Os olhos de 17 mulheres fotografadas pelo ''artivista'', como ele gosta de se definir, também estão nas paredes da Sala Cecília Meireles e nos arcos da Lapa. ''Eu acho que está tudo nos olhares'', diz a professora Mônica Fontes, de 33 anos; ''Acho que é importante isso ser retratado para que as pessoas passem e se lembrem que existem pessoas em momentos difíceis'', completa.
O Morro da Providência saiu do esquecimento em julho de 2008, quando três jovens foram capturados pelo exército, entregues para traficantes de uma facção criminosa rival e brutalmente assassinados. A repercussão do caso chegou à França e aos olhos de JR, que decidiu que a favela seria a próxima locação do projeto ''28 milímetros - Mulheres'', iniciado na África. ''Normalmente eu trabalho assim: ouço na mídia e resolvo ir aos lugares para ver com meus próprios olhos. Por isso eu resolvi vir para a Providência, para ver onde os três garotos morreram, a favela tomada pelo exército, o efeito da presença dos soldados'', explica o francês.
JR chegou em agosto de 2008, sem muitos contatos, e contou com a ajuda do fotógrafo Maurício Hora, morador da favela, para conhecer a comunidade. Com ele, batia nas portas das casas, se apresentava e explicava o projeto. No início, a vendedora Roberta Cristina, de 24 anos, não queria ser fotografada. ''Mas depois da primeira foto, rolou uma amizade. Eu ajudei a colar foto com os alpinistas, responsáveis pela instalação das imagens nas paredes das casas do morro, fiquei amiga da equipe toda.'' O boca a boca também ajudou a angariar moradoras. Taís dos Campos, 11 anos, foi apresentada ao fotógrafo pela tia, que também estava sendo fotografada. No começo, a menina estranhou os ''gringos'', mas depois ''rolou aquela simpatia, aquela amizade, e fomos tirar fotos, milhares de fotos'', conta, rindo.
O trabalho de 15 dias de fotos e filmagens resultou na exposição realizada no ano passado no Morro da Providência, onde as fotografias das moradoras foram coladas nas paredes de casas da favela, formando um mosaico de olhares sobre o Rio de Janeiro.
SERVIÇO
- 28 milímetros-Mulheres - JR
Quando - Até 21 de junho
Onde - Casa França-Brasil, R. Visconde de Itaboraí, 78, Centro, Rio de Janeiro


