Mulheres e cineastas
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de agosto de 2016
Murilo Pajolla<br> Especial para Folha2 

Mulheres de todo canto do planeta têm gritado alto reivindicações por uma vida melhor, livre da violência física e psicológica, do assédio e da dependência financeira. A arte, que sempre funcionou como um espelho atento da sociedade, não poderia deixar de captar essas transformações. Londrina espera para os próximos meses pelo menos três estreias de curtas-metragens roteirizados e produzidos por mulheres, que contam histórias de outras mulheres fortes e agentes do seu próprio destino.
Com estreia prevista para novembro e filmado pela Clareira Filmes, o curta Grünstadt retrata a chegada de Eva Heumann ao norte do Paraná, após fugir da Alemanha nazista na década de 30. Na vila fictícia que dá nome ao filme, a protagonista encontra a bandeiras nazistas tremulando livremente no céu. "Eu sou feminista, mas a personagem que eu criei não se declara feminista. Ela é, antes disso, uma mulher emancipada e independente, inclusive sexualmente. É uma cinema tarantinesco, com muito tiro", conta a roteirista e diretora Celina Becker.
A inspiração para a personagem veio no período em que Celina deixou de trabalhar após o nascimento da primeira filha. Ao abrir um livro sobre a história de refugiados judeus no Brasil, encontrou fotos da inauguração da Escola Alemã de Rolândia onde havia suásticas. "Decidi parar de trabalhar depois que a minha filha nasceu, mas como tenho a cabeça muito ativa, comecei a produzir o roteiro".
A força do cinema também atraiu Jackeline Seglin, atriz de teatro com 26 anos de experiência, para o ofício de roteirista e diretora. Há 3 anos, movida pela curiosidade e pela admiração dos clássicos do cinema, Jackeline se inscreveu em uma oficina de dramaturgia e não parou mais de produzir. Seu curta "O Retrato" foi filmado pelos alunos de pós-graduação em Criação e Produção Audiovisual da Faculdade Pitágoras, na qual está matriculada, em parceria com a produtora Kinopus.
"O Retrato aborda a relação de amizade entre duas mulheres e a decisão que uma delas precisa tomar diante do pedido inesperado da outra. O roteiro foi levado para a sala de aula, onde fizemos ajustes. Estamos descobrindo como fazer enquanto fazemos. Tem sido uma experiência apaixonante", avalia Jackeline. O curta está em processo de montagem e será lançado até o fim do ano.
Na sua trajetória de atriz, Jackeline sempre encarnou personagens femininas concebidas e dirigidas por homens. Com "O Retrato", planeja trazer à tona a força presente na singeleza dos atos das mulheres, frequentemente sub-representados num mundo eminentemente masculino.
"Procurei colocar no filme um pouco de cada mulher que eu encontro na rua, de histórias simples do cotidiano que estão sempre escondidas".
Outra curta produzido em Londrina está programado para chegar às telonas neste ano é "Quando o verde toca o azul", o segundo curta idealizado por Letícia Nascimento. O filme tem financiamento do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC). "Há quem pense que as mulheres estão plenamente livres, mas não estamos. No filme eu busquei uma reflexão sutil sobre o ser mulher na sociedade", comenta Letícia.
Seu primeiro trabalho como roteirista e diretora, "Onde o coração canta", levou o prêmio de melhor filme no júri popular do Festival Kinoarte do ano passado e conta a história de uma jovem que sonhava em ser cantora e, apesar da bela voz, encontrou na prostituição um meio de se sustentar financeiramente. "Minhas referências são Lynne Ramsay, Sofia Coppola, Lucrecia Martel, e a brasileira Anna Muylaert, que com certeza inspira todas as mulheres que trabalham ou almejam trabalhar com cinema no Brasil", afirma Letícia.
E não foi apenas Letícia que se encantou com as personagens femininas da paulistana Anna Muylaert. Roteirizado e dirigido por Anna, o longa "Que Horas Ela Volta", escolhido para representar o Brasil no Oscar de 2015, recebeu a premiação máxima no festival de Sundance e foi acolhido calorosamente pelo público brasileiro. Mãe de dois filhos, a cineasta já afirmou que não esperava encontrar tanto machismo na indústria cinematográfica e sofreu com a disparidade de salários em relação aos homens e com a falta de oportunidade de trabalhar com projetos envolvendo orçamentos maiores.
Acostumada a contar histórias de mulheres em situação de fragilidade ou de submissão como em "Proibido Fumar" ou "Chamada a Cobrar" - Anna retratou em "Que Horas Ela Volta" uma personagem forte e confiante. Jéssica é uma adolescente pobre e nordestina que, ao se hospedar no casarão dos patrões da mãe empregada doméstica em São Paulo, recusa-se a "se colocar no seu lugar". Simboliza, assim, a afirmação da autonomia das mulheres pobres frente ao machismo e ao preconceito de classe.



