Mulheres de bem com a vida
Nelson Sato
De Londrina
Qual é o assunto central, aquele que rende mais ibope e atrai mais tagarelice numa rodinha de amigas?
Homens, claro. Existiriam outros? Se você lembrar de algum, com certeza ele foi lembrado também pelas autoras do livro 02 Neurônio Almanaque para Garotas Calientes, que acaba de ser lançado pela Conrad Editora.
Com pinta de fanzine, inclusive na programação visual das páginas, o livro é desbocado e recheado de textos bem-humorados sobre o universo feminino abordando inclusive tópicos que raramente saem das referidas rodinhas tipo os prazeres do sexo anal ou o tamanho do órgão masculino.
O livro nasceu de um fanzine criado há dois anos pelas jornalistas Raquel Affonso (26 anos), Jô Hallack (29) e Nina Lemos (29). No formato original, chegou aos leitores em cinco edições, tudo produzido artesanalmente como manda o figurino das publicações alternativas.
Essa trajetória é contada no volume: Enquanto legiões de fãs se debatiam para conseguir um exemplar, alguns invejosos espalhavam aos quatro ventos que era um zine de cornuda. Amigos íntimos, preocupados, falavam que o tiro tinha saído pela culatra. Mal sabiam eles que as três começaram a fazer muito mais sucesso com os homens e a arranjar vários pretês.
Bem-sucedidas, as três pensaram em transformar as páginas xerocadas numa revista de verdade, mas desistiram logo da idéia com medo de quebrar a cara e a conta bancária. Optaram por reunir os textos num livro e se deram bem. Agora elas pretendem iniciar uma série em edições semestrais. Para este número de estréia, contaram com projeto gráfico de Joana Brasileiro.
Os textos reunidos são, em sua maioria, inéditos. Além dos escritos das meninas, o livro reúne artigos dos colaboradores Cláudio Paiva e Xico Sá e quadrinhos de Adão Iturrusgarai. Há também um amigo que, a convite delas, aparece queimando o filme no test-drive um dia de modess. A fotonovela mostra o sujeito atravessando um dia com o absorvente grudado na cueca.
O livro é dividido em blocos de temas e não em capítulos. O sumário flagra títulos como O dia que eu investi num careta, A verdadeira mulher superior, Aprenda a se infiltrar num papo sobre dieta, Ela tá com a pombagira, Como sobreviver a um pé na bunda, Por que somos ridículas: ser cool e por aí vai.
Jô, Raq e Nina despejam sua sabedoria pop sobre tudo o que diz respeito a condutas femininas mesclando o tom de manual de auto-ajuda com as palavras-de-ordem dos manifestos mas tudo na base da tiração de onda. Num trecho, por exemplo, elas escrevem: Às vezes a minha vida vira uma caricatura de 9 Semanas e Meia de Amor. Não se anime. A parte que lembra a minha vida é a de quando a Kim Bassinger ainda não tinha conhecido o Mickey Rourke. Típica vida de solteira de filme americano. No sábado, ela vai almoçar com uma amiga. Depois vai a uma feira de antiguidades. E à noite vai na locadora pegar um filme que vai assistir sozinha. Eu juro, isso aconteceu comigo. Foi horrível.
Reprodução
Em outra passagem, elas anotam: A revolução gay é uma das maiores conquistas dos anos 90. Isso é ótimo. O problema é que ser gay ou lésbica virou obrigação e patrulhamento. Se você é moderno mesmo, tem que ter experiências bis, para não parecer uma careta reprimida. Isso equivale àquela pressão para ser playboyzinha quando você tinha 13 anos. Não trate a sua sexualidade como se fosse um novo modelo de tênis Nike.
O livro tem 100 páginas. É hilariante, repleto de sacadas e dá bem uma idéia do que andam pensando as garotas dos anos 90.





