"Mulan" chega para venda direta nas versões dublada e legendada
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quarta-feira, 30 de junho de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 01 (AE) - Já é tradicional: nas férias de julho, estréia nos cinemas o novo desenho da Disney. A partir de amanhã (02), "Tarzan" ocupa boa parte das salas brasileiras que escaparam à voracidade de "Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma". Só na cidade de São Paulo serão 38 salas. Na terça, o desenho da Disney do ano passado chega ao mercado de vídeo. "Mulan" será vendido em todos os hipermercados, lojas de departamentos e locadoras do País por tempo determinado, a partir do dia 6. Nos Estados Unidos, vendeu 10 milhões de fitas.
O Brasil não pode nem sonhar com um sucesso dessa magnitude, mas "Mulan", com certeza, deverá atrair uma parcela significativa do público, nas duas versões - dublada e legendada. Só não adianta querer antecipar números com base no desempenho do lançamento de vídeo da Disney no ano passado, "Hércules". A Buena Vista Home Entertainment não divulga dado algum. Embora a fita dublada deva atingir o maior número de espectadores, a legendada ostenta como principal atração a hilária atuação de Eddie Murphy. Ele empresta sua voz ao dragãozinho, um dos personagens mais simpáticos da história que ostenta o padrão Disney de qualidade e é considerada a melhor do estúdio desde "O Rei Leão".
O sucesso foi tão grande em todo o mundo que reconciliou a China com a Disney. Os produtos da empresa estavam impedidos de circular na terra de Mao. Em fevereiro, um protocolo especial acabou com a proibição e "Mulan" pôde estrear em mais de cem cidades da China. "O Rei Leão" baseava-se em Shakespeare. "Mulan" não tem a mesma origem ilustre, mas é baseado numa lenda chinesa que remete a uma situação universal - a figura da mulher que se faz passar por homem para poder lutar na guerra. Quem leu "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, sabe que não se trata de uma exclusividade da lenda oriental. Diadorim percorre a mesma trajetória, mas isto não diminui o impacto, nem a eficiência, de "Mulan" como fábula feminista.
Numa época em que as mulheres chinesas eram educadas para o casamento, Mulan consegue afirmar-se no próprio universo masculino. No começo do desenho, ela é uma mocinha estouvada que
por sua independência de espírito e falta de modos durante a cerimônia do chá, não consegue arranjar um marido, para fúria de seu pai. Ele está velho e doente e, por isso, não pode atender ao pedido do imperador da China. Com o país invadido pelos hunos
o imperador requisita um varão de cada família para compor o exército contra os invasores. Para poupar o pai, Mulan veste-se de homem e parte para a guerra.
Se você conhece um pouco que seja de cinema (e da Disney
em especial) sabe que Mulan vai destacar-se nos combates e, ainda por cima, arranjar um marido. Neste sentido, a fábula, embora feminista, é um tanto ambígua. O importante é que a galeria de personagens é bem distribuída. O imperador ombreia-se com o pai como figura representativa da autoridade temperada de humanismo. Encarna a lei e a ordem. Há também Shang, o bravo guerreiro, que será, para ficarmos na comparação com Rosa, o Riobaldo chinês, com direito a casamento e tudo com a heroína. Mas os melhores personagens secundários são os bichinhos que cercam a protagonista - o grilo Cri-Kee e o pequeno dragão que encarna o espírito dos ancestrais.
Como produção da Disney que se preze, "Mulan" é eivado de conceitos edificantes. Mulan reconcilia-se com o pai e uma frase do diálogo resume o conceito do desenho (e da heroína): A mais bela flor é a que se desenvolve na adversidade. Como realização, o desenho é um prodígio. Com a tecla rewind, que permite voltar atrás e rever a imagem, o espectador de vídeo poderá apreciar melhor as virtudes técnicas do espetáculo. Dois programas, intitulados Atilla e Dinasty, foram especialmente desenvolvidos para "Mulan" e permitiram a integração de elementos de animação em terceira dimensão ao mundo gráfico bidimensional do desenho. Isso permitiu a criação de cenas de multidão com movimentos diferenciados. Um terceiro programa, o Faux Plane, foi criado para acrescentar profundidade ao mundo estilizado do desenho. O resultado está nas cenas de batalha, que impressionam mesmo. Serviço - "Mulan". EUA, 1998. Direção de Barry Cook e Tony Bancroft. Buena Vista Home Entertainment. Preço médio: R$ 20,00


