Como se observou recentemente quando ''Atirador'' estreou por aqui ao mesmo tempo e hora dos principais mercados internacionais, esta história de lançamento mundial não é para ser levada a sério. O fato de ''A Estranha Perfeita'' chegar simultaneamente ao circuito mundial (veja a programação de cinema na página 2) não significa absolutamente nada em termos de adicional de qualidade. O espectador pode até achar, num primeiro momento ufanista, que aquilo que é visto com prioridade 'urbi et orbi' é a cereja do bolo da cinematografia mundial. Mas uma boa e atenta olhada nesta trama que começa bem, prossegue mal e termina ainda pior, é o suficiente para concluir que pressa (na entrega) e perfeição (no resultado) serão eternamente inimigos mortais.
O thriller tem suas variantes, e as mais versadas são a psicológica, a policial e o suspense. ''A Estranha Perfeita'' procura acomodar as três, mas aqui o espaço mais amplo é para o suspense, mesclado com elementos sexuais, enganos, traições e violência - nenhuma dúvida de que esta é uma das fórmulas que a produção americana mais recentemente tem explorado com empenho. O filme se inscreve neste subgênero através da personagem Rowena Price (Halle Berry), jornalista na linha investigativa. Ela conclui que a morte de uma amiga está relacionada com o muito rico e poderoso executivo de publicidade Harrison Hill (Bruce Willis), mais interessado em suas funcionárias do que em criar campanhas de venda.
Salvo honrosas exceções, o jornalismo nunca encontrou vida boa no cinema. E ''A Estranha Perfeita'' não é uma dessas exceções. O que primeiro se vê de Rowena é seu conceito discutível da profissão, misturando jornalismo com chantagem. Nela, raça e falta de escrúpulos se confundem na mesma medida. Após tentar desmoralizar um senador que passa por chefe de família, mas esconde sua homossexualidade, Rowena se dedica a investigar a morte violenta da amiga. Para isso entra na empresa do suspeito principal e arma um jogo de sedução. Com a ajuda de um amigo (Giovanni Ribisi) que se diz jornalista, mas que não passa de hacker vulgar, a moça também esmiúça o computador do executivo.
Daí em diante - e somente passou a primeira metade - o filme adentra com firmeza em território minado por lugares comuns e muitos disparates de roteiro, rigorosamente estrambótico. Sob o pretexto da originalidade, a trama cresce em monotonia, e entre enganos, perseguições, ambiguidades, segredos obscuros (Rowena é assaltada por flash-backs injustificados sobre seu passado de menina sexualmente abusada em família), duplas personalidades e um estranho amor compartilhado entre ela e a amiga morta, a narrativa se torna mais e mais desinteressante.
O diretor James Foley, que na década de 1980 foi cult com ''Jovens Sem Rumo'', curiosa refilmagem do ''Acossado'' de Godard, não se acerta com este roteiro. Que culmina com um final precipitado em que há tantos suspeitos que já não faz mais diferença a identidade do assassino. E a resolução é a mais absurda das muitas possíveis. A beleza singular de Halle Berry faz o que pode com os despropósitos da personagem. E Bruce Willis está a vontade, já que o cinismo tem sido o carro-chefe em sua carreira.

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