MUITOS ANOS DE MÚSICA
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quarta-feira, 03 de janeiro de 2001
Mauro Dias Agência Estado 
O MPB-4 está completando 35 anos de carreira. É até prova em contrário o grupo mais antigo do mundo a funcionar por tanto tempo, ininterruptamente, com a mesma formação dos primeiros dias. Está contratado por gravadora nova, Abril Music, para a qual acabou de gravar um disco interpretando autores da nova geração da música brasileira, de Zeca Baleiro a Lenine e Zélia Duncan. Recebeu promessa de, em futuro próximo, fazer novos discos, desta vez com músicas inéditas.
Os trabalhos mais recentes do quarteto têm sido temáticos cantando Milton Nascimento, por exemplo, ou se unindo ao Quarteto em Cy para interpretar Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Morais. O crudelíssimo e nada inteligente mercado fonográfico brasileiro prefere assim: jogar no certo, no consagrado, no já conhecido. Naturalmente, os rapazes do quarteto fazem discos formidáveis com esse material, ou seja, não se perde: ganha-se.
Mas o grupo gosta de ousar, sempre gostou, andou sempre na linha de frente. Essa questão, porém, parece agora equacionada. E, enquanto isso, o MPB-4 prepara a festa de lançamendo do novo CD, que deve chegar às lojas nos próximos dias. Sim, haverá shows de lançamento.
Para lembrar um pouco da história deles: os integrantes são Ruy Alexandre Faria, nascido em Cambuci, Aquiles Rique Reis, de Niterói; Milton Lima dos Santos Filho, de Campos; e Antônio José Waghabi Filho, de Itaocara cidades todas do Estado do Rio. Ruy, Miltinho e Magro Waghabi faziam engenharia, Aquiles queria ser sociólogo.
Até que se juntassem no formato que ainda hoje perdura, passaram por outros grupos. E a paixão de todos é o vocal e, naqueles anos 60, a música era o principal tradutor dos anseios da juventude, sobretudo a universitária, que se batia por mudanças sociais (e na qual se bateria, e muito, depois do golpe militar de 1964).
Num certo momento, chamavam-se Quarteto do CPC sigla do Centro Popular de Cultura que havia nas universidades. O golpe de 1964 fechou a União Nacional do Estudantes (UNE), à qual os CPCs eram ligados, e o grupo precisou mudar de nome. Música popular brasileira, MPB. Quarteto: MPB-4.
Diz-se qua a sigla foi criada por eles (outra versão atribui a criação ao jornalista Sérgio Porto, ou Stanislaw Ponte Preta, como era seu pseudônimo). E que, portanto, todos deveriam pagar royalties pelo uso da sigla mas é brincadeira. Mesmo que MPB tenha passado a significar o que significa só em 1965, Ari Barroso já tinha usado as três letras para falar de música popular brasileira escrevendo na contracapa de um elepê de bossa nova.
As reuniões do quarteto, inicialmente, davam-se nos grêmios estudantis, em clubes e boates. A fórmula não poderia ser mais simples: o violão de Miltinho, a percussão grave de Magro, uma eventual percussão mais aguda de Aquiles, às vezes de Ruy que sempre foi o principal solista vocal.
Cada um por si, eles eram bons cantores. Juntos, eram como são formidáveis. Não existiu, na música brasileira, outro grupo em que o entrosamento vocal fosse tão perfeito eles nasceram para cantar juntos. Havia Os Cariocas, de sotaque mais jazzístico; houve, depois, o Boca Livre, de vida mais curta, ótimo, também. Só que nenhum chegou perto da perfeita combinação do MPB-4. Bem, há o Quarteto em Cy. Mas estamos falando de vozes masculinas.
E se tudo funciona às mil maravilhas quando abrem acordes a quatro vozes, ou como quando as combinam num arranjo circular como o que Magro escreveu para Roda Viva, de Chico Buarque, uma concepção vocal insuperada quase 30 anos depois, eles conseguem produzir um uníssono impecável quem canta sabe que nada é mais difícil para um grupo vocal do que chegar à solução do uníssono.
A vida acenava, as faculdades iam ficando para lá. Numas férias, em 1965, o MPB-4 veio a São Paulo. Fez a verdadeira estréia profissional no Teatro da Pontifícia Universidade Católica, o Tuca. Chegaram aqui em julho. Encontraram o produtor Chico de Assis, que os convidou para uma temporada com o Quarteto em Cy (que já era profissional). Mas Chico de Assis advertiu: ou eles largavam as faculdades e levavam a música a sério ou voltavam para Niterói e iam cuidar das vidas universitárias. Para as duas coisas, não haveria tempo.
Eles se reuniram para discutir o futuro. Sentaram-se no Bar Redondo, que ainda existe, embora sem a graça que já teve, tomaram a necessária quantidade de chopes e mandaram a faculdade às favas curioso é que Aquiles era, naquela época, menor de idade. Ruy era responsável por ele.
Chico de Assis também os levou a Manoel Carlos, que era um dos diretores do Fino da Bossa, programa da TV Record cuja principal atração era Elis Regina. Logo na estréia do Fino, cantaram com ela. Aí a coisa não parou mais embora, no início, os apresentadores dos programas ficassem confusos com aquela sigla que batizava os meninos saía MPM-4, PPM-4. A turma não entendia, os jornais publicavam barbaridades e os jornalistas perguntavam quantos nós éramos, lembra Ruy.
Foi ainda Chico de Assis que apresentou o quarteto a um jovem compositor, estudante de arquitetura, carioca, mas morando em São Paulo Chico Buarque de Holanda. A apresentação foi assim: Esses são os rapazes do MPB-4 e este é o autor do Samba do Padre, lembra Magro. O tal Samba do Padre era Olê, Olá, por causa dos versos: Seu padre, toca o sino, que é pra todo mundo saber, que a noite é criança, que o samba é menino...
Nos anos seguintes de 1969 a 1974 , Chico Buarque foi quase um quinto MPB-4. Cantavam todos no mesmo microfone. Juntos eles rodaram o mundo e influenciaram muito a juventude brasileira. O quarteto lançava seus discos pela gravadora Elenco (o Chico Buarque era de outra). Elenco, um bom nome: estavam lá, começando, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Tamba Trio, a turma da bossa nova...O que não os impediu de aparecer no programa Jovem Guarda, de Roberto Carlos, algumas vezes.
Ao longo dos 35 anos de vida profissional, o grupo criou estilo, ditou moda, formulou padrões. Reinventou o vocal para a música brasileira não havia jazz, na música deles, mas samba mesmo, e choros e valsas e canções. Montaram espetáculos memoráveis, com textos de Millôr Fernandes, Ziraldo, Aldir Blanc; ajudaram a consolidar as carreiras de grandes compositores e são referência para música de qualidade. Continuam sendo. Seu novo disco, com repertório de compositores da nova safra, só o confirma. E para a festa dos 35 anos, quando o CD estiver nas ruas, a MPB ou seja lá como se queira chamar a música brasileira, hoje que esse rótulo perdeu um tanto do sentido estará toda em festa, desejando pelo menos outros 35 anos para os bravos meninos que tanto a dignificaram e dignificam.


