O MPB-4 está completando 35 anos de carreira. É – até prova em contrário – o grupo mais antigo do mundo a funcionar por tanto tempo, ininterruptamente, com a mesma formação dos primeiros dias. Está contratado por gravadora nova, Abril Music, para a qual acabou de gravar um disco interpretando autores da nova geração da música brasileira, de Zeca Baleiro a Lenine e Zélia Duncan. Recebeu promessa de, em futuro próximo, fazer novos discos, desta vez com músicas inéditas.
Os trabalhos mais recentes do quarteto têm sido temáticos – cantando Milton Nascimento, por exemplo, ou se unindo ao Quarteto em Cy para interpretar Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Morais. O crudelíssimo e nada inteligente mercado fonográfico brasileiro prefere assim: jogar no certo, no consagrado, no já conhecido. Naturalmente, os rapazes do quarteto fazem discos formidáveis com esse material, ou seja, não se perde: ganha-se.
Mas o grupo gosta de ousar, sempre gostou, andou sempre na linha de frente. Essa questão, porém, parece agora equacionada. E, enquanto isso, o MPB-4 prepara a festa de lançamendo do novo CD, que deve chegar às lojas nos próximos dias. Sim, haverá shows de lançamento.
Para lembrar um pouco da história deles: os integrantes são Ruy Alexandre Faria, nascido em Cambuci, Aquiles Rique Reis, de Niterói; Milton Lima dos Santos Filho, de Campos; e Antônio José Waghabi Filho, de Itaocara – cidades todas do Estado do Rio. Ruy, Miltinho e Magro Waghabi faziam engenharia, Aquiles queria ser sociólogo.
Até que se juntassem no formato que ainda hoje perdura, passaram por outros grupos. E a paixão de todos é o vocal – e, naqueles anos 60, a música era o principal tradutor dos anseios da juventude, sobretudo a universitária, que se batia por mudanças sociais (e na qual se bateria, e muito, depois do golpe militar de 1964).
Num certo momento, chamavam-se Quarteto do CPC – sigla do Centro Popular de Cultura que havia nas universidades. O golpe de 1964 fechou a União Nacional do Estudantes (UNE), à qual os CPCs eram ligados, e o grupo precisou mudar de nome. Música popular brasileira, MPB. Quarteto: MPB-4.
Diz-se qua a sigla foi criada por eles (outra versão atribui a criação ao jornalista Sérgio Porto, ou Stanislaw Ponte Preta, como era seu pseudônimo). E que, portanto, todos deveriam pagar royalties pelo uso da sigla – mas é brincadeira. Mesmo que MPB tenha passado a significar o que significa só em 1965, Ari Barroso já tinha usado as três letras para falar de música popular brasileira – escrevendo na contracapa de um elepê de bossa nova.
As reuniões do quarteto, inicialmente, davam-se nos grêmios estudantis, em clubes e boates. A fórmula não poderia ser mais simples: o violão de Miltinho, a percussão grave de Magro, uma eventual percussão mais aguda de Aquiles, às vezes de Ruy – que sempre foi o principal solista vocal.
Cada um por si, eles eram bons cantores. Juntos, eram – como são – formidáveis. Não existiu, na música brasileira, outro grupo em que o entrosamento vocal fosse tão perfeito – eles nasceram para cantar juntos. Havia Os Cariocas, de sotaque mais jazzístico; houve, depois, o Boca Livre, de vida mais curta, ótimo, também. Só que nenhum chegou perto da perfeita combinação do MPB-4. Bem, há o Quarteto em Cy. Mas estamos falando de vozes masculinas.
E se tudo funciona às mil maravilhas quando abrem acordes a quatro vozes, ou como quando as combinam num arranjo circular como o que Magro escreveu para ‘‘Roda Viva’’, de Chico Buarque, uma concepção vocal insuperada quase 30 anos depois, eles conseguem produzir um uníssono impecável – quem canta sabe que nada é mais difícil para um grupo vocal do que chegar à solução do uníssono.
A vida acenava, as faculdades iam ficando para lá. Numas férias, em 1965, o MPB-4 veio a São Paulo. Fez a verdadeira estréia profissional no Teatro da Pontifícia Universidade Católica, o Tuca. Chegaram aqui em julho. Encontraram o produtor Chico de Assis, que os convidou para uma temporada com o Quarteto em Cy (que já era profissional). Mas Chico de Assis advertiu: ou eles largavam as faculdades e levavam a música a sério ou voltavam para Niterói e iam cuidar das vidas universitárias. Para as duas coisas, não haveria tempo.
Eles se reuniram para discutir o futuro. Sentaram-se no Bar Redondo, que ainda existe, embora sem a graça que já teve, tomaram a necessária quantidade de chopes e mandaram a faculdade às favas – curioso é que Aquiles era, naquela época, menor de idade. Ruy era responsável por ele.
Chico de Assis também os levou a Manoel Carlos, que era um dos diretores do Fino da Bossa, programa da TV Record cuja principal atração era Elis Regina. Logo na estréia do Fino, cantaram com ela. Aí a coisa não parou mais – embora, no início, os apresentadores dos programas ficassem confusos com aquela sigla que batizava os meninos – saía MPM-4, PPM-4. ‘‘A turma não entendia, os jornais publicavam barbaridades e os jornalistas perguntavam quantos nós éramos’’, lembra Ruy.
Foi ainda Chico de Assis que apresentou o quarteto a um jovem compositor, estudante de arquitetura, carioca, mas morando em São Paulo – Chico Buarque de Holanda. ‘‘A apresentação foi assim: ’Esses são os rapazes do MPB-4 e este é o autor do Samba do Padre’’’, lembra Magro. O tal Samba do Padre era ‘‘Olê, Olᒒ, por causa dos versos: ‘‘Seu padre, toca o sino, que é pra todo mundo saber, que a noite é criança, que o samba é menino...’’
Nos anos seguintes – de 1969 a 1974 –, Chico Buarque foi quase um quinto MPB-4. Cantavam todos no mesmo microfone. Juntos eles rodaram o mundo e influenciaram muito a juventude brasileira. O quarteto lançava seus discos pela gravadora Elenco (o Chico Buarque era de outra). Elenco, um bom nome: estavam lá, começando, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Tamba Trio, a turma da bossa nova...O que não os impediu de aparecer no programa Jovem Guarda, de Roberto Carlos, algumas vezes.
Ao longo dos 35 anos de vida profissional, o grupo criou estilo, ditou moda, formulou padrões. Reinventou o vocal para a música brasileira – não havia jazz, na música deles, mas samba mesmo, e choros e valsas e canções. Montaram espetáculos memoráveis, com textos de Millôr Fernandes, Ziraldo, Aldir Blanc; ajudaram a consolidar as carreiras de grandes compositores e são referência para música de qualidade. Continuam sendo. Seu novo disco, com repertório de compositores da nova safra, só o confirma. E para a festa dos 35 anos, quando o CD estiver nas ruas, a MPB – ou seja lá como se queira chamar a música brasileira, hoje que esse rótulo perdeu um tanto do sentido – estará toda em festa, desejando pelo menos outros 35 anos para os bravos meninos que tanto a dignificaram e dignificam.

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