Muito prazer, Astolfo
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de julho de 1998
César Almeida e Rosângela Marques da Agência Estado 
Arquivo FolhaRogéria: ao contrário de Roberta Close, ela acha ser homem uma delíciaBem que o velho e bom Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, dizia: Um dia o terceiro sexo ainda passa pra segundo. Quem chegou lá, e com muita classe, foi Rogéria, nascida Astolfo Barroso Pinto, que consegue a proeza de agir como mulher, pensar como mulher, representar como mulher, mas não abre mão de continuar sendo homem. Aos 55 anos de idade, o transformista mais famoso do Brasil vai comemorar seus 30 anos de carreira artística com o lançamento do livro Astolfo, Dr. Jekyll and Mr. Hyde do Leme.
Mas, enquanto Rogéria não admite sequer pensar na idéia de fazer uma operação para troca de sexo, Luiz Roberto Gambini, que adotou o nome de Roberta Close, entrou na faca, na Inglaterra, e não se arrependeu, como conta em seu livro Muito Prazer, Roberta Close, com texto final da jornalista Lucia Rito, lançado recentemente pela Editora Rosa dos Ventos/Record.
Fui convidada a fazer o filme No Rio, Vale Tudo, uma produção franco-brasileira com o Gerard Depardieu, e consegui juntar o dinheiro que faltava para fazer a cirurgia, contou Roberta, em entrevista à imprensa. Naquela época, gastei cerca de vinte mil dólares, entre a operação e a internação.
Não foi por falta de oportunidade que Rogéria não seguiu o mesmo caminho. Ela lembra em suas memórias que, quando se apresentou na Espanha, ainda nos tempos do generalíssimo Franco, recebeu um ultimato da polícia fascista: ou trabalharia como homem, sem pintura, ou teria de fazer uma operação para mudança de sexo. Rogéria se mandou rapidinho para a França. Como todo homem, morro de medo de dor.
Já antes de fazer a operação, Roberta chamava a atenção por sua beleza, tanto é que passou a ser assediada para posar nas capas de revistas masculinas - só na Playboy foram quatro vezes. Nas últimas semanas, passou a ser vista na tevê, na novela Mandacaru, da Manchete, onde mostrou seu corpo escultural, no papel da insinuante cantora Maitê Flores.
Rogéria também pode ser vista com relativa frequência na tevê, ora ancorando coberturas de bailes de carnaval, ora participando de programas de debates e entrevistas ou comentando a Copa do Mundo, como aconteceu recentemente, nas mesas-redondas do Jô Soares Onze e Meia, nas quais aflorava também sua porção Astolfo, demonstrando muito conhecimento sobre futebol.
Atualmente, Roberta, que fala fluentemente espanhol, italiano, francês, alemão e inglês, divide sua vida entre o Brasil e a Suíça, onde mora com o marido, Roland Granacher, com quem está casada há cinco anos. Uma de suas grandes mágoas é a dificuldade que vem enfrentando para conseguir a autorização da Justiça para mudar oficialmente de nome. Estou amargando há muito tempo essa espera e, apesar de agora ser uma mulher normal, não posso sequer fazer a alteração nos meus documentos, lamenta.
Por esse problema é que Rogéria nunca passará, pois gosta dessa dualidade com Astolfo, que baseou o título do livro no famoso romance de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro (Mr. Jeckil and Mr. Hyde). Só que, ao contrário do livro, a transformação não tem nada de assustadora. Enquanto Rogéria se identifica com o universo feminino, Astolfo admite que é uma delícia ser homem.


