São Paulo - Ao contrário do que muita gente imagina, beleza nem sempre é fundamental para um galã. Apesar de importante, ela precisa vir acompanhada de sensibilidade, charme, carisma e masculinidade para que um ator seja promovido ao almejado posto de herói das telenovelas e queridinho do público.
Pode até parecer fácil encontrar esse tipo de artista, mas, de acordo com as emissoras, não é. Diretores e autores afirmam que está cada vez mais difícil achar rapazes que reúnam esses requisitos para estrelar as diversas atrações que a TV tem produzido. A situação vem se agravando ainda mais desde que a Record decidiu investir pesado na teledramaturgia. ''O mercado cresceu. Antes, havia apenas uma emissora fazendo novela. Ficava fácil escalar galãs. Mas não houve preocupação em formar uma nova geração. Parece que a procura cresceu, mas a formação de atores não acompanhou a demanda'', pondera Cristianne Fridman, autora de ''Vidas em Jogo'', próxima trama da Record.
Para o pesquisador em teledramaturgia da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro ''Quem Matou... O Romance Policial na Telenovela?'', Claudino Mayer, as grandes emissoras não se deram conta de que as fontes poderiam se esgotar. ''A indústria não está mais produzindo esse tipo de galã. Antigamente, ele era construído com determinados atores fazendo sempre personagens centrais, e eles acabavam se firmando no posto. Agora, o ator bonito faz um papel importante, depois volta à TV em um secundário. Dessa forma, o público não fixa uma imagem dele como galã'', analisa.
Já o diretor global Ricardo Waddington diz acreditar que essa escassez seja algo comum na televisão. ''Está faltando e sempre faltará, porque a gente produz muito. Estamos em uma safra em que as heroínas são mais fartas do que os heróis. Mas isso é cíclico.''
A importância do galã
''Além de ser bonito e talentoso, ele precisa ter carisma, brilhar na televisão. Mais do que ter uma beleza óbvia, ele precisa ser interessante, despertar atração nas mulheres'', define Ricardo Linhares, coautor de ''Insensato Coração''. E Waddington completa: ''Galã é o herói, lindo e bom ator, com o qual o público se identifica. É fundamental para a TV, pois é quem abre a porta para toda a história''.
É importante pontuar também que aquele perfil dos galãs de antigamente não existe mais. Nas décadas de 1950 e 1960, por exemplo, dez entre dez mulheres sonhavam em ter uma chance com Tarcísio Meira. Ele representava o homem perfeito, era galanteador e queria se casar com a mocinha. Agora, são analisadas outras questões, como o fato de o galã ser uma pessoa normal, que erra e acerta. ''Nossa sociedade mudou, e o papel que o homem ocupa nela também. Naquela época, os atores tinham suas vidas preservadas, eram inalcançáveis'', destaca a pesquisadora do núcleo de teledramaturgia da USP, Maria Cristina Mungioli.
Entre os galãs da nova geração estão Cauã Reymond, Bruno Gagliasso, Guilherme Berenguer, Wagner Moura, Rodrigo Santoro e Fábio Assunção. Velhos conhecidos do público, que, além de fazerem a alegria da mulherada, ajudam na divulgação de uma produção. Por isso, também são disputados a tapa. ''Como ganha destaque quando está em uma novela, o galã teria de ficar longe por um tempo para não gastar sua imagem, o que nem sempre dá para fazer'', diz Hiran Silveira, diretor de teledramaturgia da Record.
A reserva de atores por parte de alguns novelistas, que não escondem que têm seus preferidos, dificulta ainda mais a escalação de galãs. Comum na Globo, esse tipo de conduta não costuma acontecer na emissora de Edir Macedo. ''Aqui não há esse sistema. Os autores demonstram interesse e, se der certo, conseguem ter o ator na novela. Mas, se aparecer um papel bacana antes, ele entra'', afirma Silveira.
Novos rostos
Diante dessa crise, uma saída tem sido apostar em atores desconhecidos. Foi o que fez a Record recentemente, ao contratar quatro novos rapazes da oficina de atores da emissora. Nada garante, no entanto, que vão cair nas graças dos telespectadores. ''Eles estão em início de carreira e alguns a gente espera que se tornem galãs. Não dá para saber'', declara Hiran Silveira.
A expectativa, porém, é grande. Principalmente porque já aconteceu de gratas revelações surgirem dessas investidas. ''É preciso estar atento, pois pode aparecer um herói a qualquer momento, como aconteceu com aquela coisa linda do Caio Castro. Não pude deixar passar, ele é um galã'', diz Waddington, relembrando a participação do ator em um concurso do ''Caldeirão do Huck'', em 2007.

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