Muito mais do que luz, câmera e ação
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sábado, 25 de fevereiro de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Hoje, quando você se sentar no sofá para assistir ao 84º Prêmio da Academia, tente enxergar para além dos vestidos brilhantes, dos flashes dos fotógrafos, do sorriso de Pitt ou dos lábios de Jolie. Não parece, mas a noite mais glamourosa do cinema em Hollywood possui muito mais do que famosos passeando por cima de seu belo tapete.
Quase anônimas, todos os anos centenas de pessoas que compõe as equipes técnicas também vestem o smoking, prontas para serem homenageadas na noite de gala. Entre esses ilustres desconhecidos do grande público, nos bastidores da Sétima Arte, estão 'arquitetos' indispensáveis para o sucesso de um bom filme.
Se você tem o costume de acompanhar anualmente a cerimônia, com certeza se lembra da vitória em 2011 do filme ''O Discurso do Rei'' nas categorias de ''Melhor Filme'', ''Melhor Diretor'' e ''Melhor Ator'', e talvez até do choro da bela Natalie Portman ao ganhar, merecidamente, o Oscar de ''Melhor Atriz'' por ''Cisne Negro''.
Force a sua memória mais um pouquinho. Consegue se lembrar de mais alguma coisa, principalmente nas categorias de ''Direção de Arte'' ou ''Mixagem Sonora''? Provavelmente não. Nessa hora, você foi até a cozinha buscar mais pipoca, bocejou de sono ou trocou o canal? Para corrigir essa cruel injustiça, a FOLHA falou com dois especialistas em Londrina, que esclareceram o que significam as categorias menos lembradas (mas não menos importantes) da cerimônia do Oscar.
Ouvi direito?
Duas das categorias que mais causam confusão no espectador do Oscar estão relacionadas aos aspectos sonoros dos filmes. Poucos entendem, com detalhes, as diferenças entre os prêmios de ''Edição de Som'' e de ''Mixagem de Som''. ''O áudio de um filme desempenha um enorme papel na narrativa, especialmente a partir do cinema falado. Um áudio de baixa qualidade, ou mal-editado, seria o equivalente a um câmera que treme na hora de filmar as cenas'', compara Otávio Santos, coordenador da primeira Pós-Graduação nacional em Trilha Sonora para Cinema e TV, que começa em março em Londrina. ''O som é uma parte extremamente importante da arte do cinema, e tem papel fundamental na narrativa. Um filme em que não se entende os diálogos, por exemplo, perde completamente a referência de sua narrativa. Isso é um prejuízo imensurável'', reflete.
Até aí, tudo bem, ninguém quer assistir a um filme com volume baixo e/ou chiado. Mas qual é a importância real do Editor de Som e da Equipe de Mixagem no processo cinematográfico? Quais as diferenças entre essas duas funções? ''As duas categorias são complementares e muito interligadas, fáceis de se confundir'' admite Otávio, apontando a distinção entre cada uma delas. ''O editor de som cria e prepara os elementos sonoros para a mixagem. Basicamente, ele é o responsável pela qualidade e clareza do áudio do filme'', resume, dando um exemplo prático: imagine uma cena onde os diálogos foram gravados dentro de um apartamento, e que vários barulhos, de carros e buzinas, interferem ao fundo. O trabalho do editor é o de limpar esses 'ruídos', deixando a conversa entre os atores clara e uniforme. ''Um bom editor de som assegurará a mesma qualidade sonora no filme, independente da ocasião ou contexto em que os sons foram gravados. É um trabalho que pode durar vários meses, e que requer muita competência'', afirma.
Depois dessa 'limpeza' sonora, o editor repassa para a mixagem todas as faixas de aúdio que foram gravadas no decorrer do filme (que incluem, além dos diálogos, os efeitos sonoros presentes no longa). ''O técnico de mixagem é o profissional responsável por balancear a presença dos diálogos, efeitos sonoros e música, de forma que todos sejam escutados de maneira clara e distinta no filme'', detalha Otávio, ilustrando a função com uma cena dramática: pense em outra situação, com um carro explodindo, o grito de uma mulher desesperada e a música triste surgindo ao fundo. Sentiu o drama? ''O técnico de mixagem ajusta os volumes e filtra as frequências de áudio, de forma que se escute a música, o grito e a explosão de maneira clara, sem que estes elementos se misturem, formando uma massa sonora'', esclarece, indicando como referência no aspecto sonoro os filmes ''O Resgate do Soldado Ryan'', ''Matrix'', ''Cartas de Iwo Jiwa'' e a trilogia de Star Wars. ''A boa mixagem em um filme é extremamente complexa e difícil de se realizar'', completa.
Um outro olhar
Enquanto a maioria do público já está familiarizada com o papel do Diretor como sendo a de 'manda-chuva' dentro do set de filmagem, poucos conseguem entender a importância fundamental das funções suplementares, executadas pelo Diretor de Fotografia e pelo Diretor de Arte. ''São dois trabalhos diferentes, mas que sempre precisam estar afinados, completamente alinhados no discurso cinematográfico. Por isso mesmo, em nosso workshop, as primeiras aulas de Direção de Arte e Direção de Fotografia são feitas juntas. No cinema, as funções sempre têm objetivos complementares'', explica o artista plástico Felipe Augusto, responsável por ministrar as aulas de Direção de Arte na Oficina de Realização em Cinema, curso que será promovido pela Kinoarte durante o mês de março.
''O diretor artístico é aquele que fica responsável pela abrangência visual do filme. Os figurinos, o cenário, os adereços que compõe a cena, além das maquiagens e dos efeitos visuais (como tiros e explosões). Tudo isso faz parte do universo do Diretor de Arte'', detalha Felipe, explicando que as fronteiras dessa função ainda estão se expandindo por causa da popularização dos efeitos 3D. ''Hoje em dia, a direção de arte às vezes fica envolvida até na pós-produção de um filme. Muitas vezes as filmagens são feitas apenas sob um fundo azul, e só na montagem é que a cena vai ser composta'', acrescenta.
Em uma comparação simples entre as duas funções, o artista explica que, enquanto o Diretor de Fotografia capta a luz e o enquadramento, o de Arte fica responsável pelo que transmite essa luz que foi capturada através da lente. ''A direção artística é a função que se preocupa, de uma forma geral, com a identidade visual do filme'', completa.
Serviço:
- A Pós-Graduação em Trilha Sonora para Cinema e TV começa no dia 3 de março, com aulas em Londrina. Inscrições e informações no site www.integralececo.com.br/trilhasonora
- Para inscrições e informações sobre a Oficina de Realização em Cinema, ligue para (43) 3026-6932 ou acesse www.kinoarte.org


