De um lado, um analítico feroz sobre uma nação incoerente e em crise. De outro lado a produção de poemas esparsos, o projeto de um livro de fotografias comentadas, um roteiro adaptado ao cinema de ‘‘Os Ratos’’ - que será a estréia do diretor Carlos Adriano em longa-metragem - e anotações para um livro que deverá estar pronto no ano 2000.
Décio é um apaixonado por ‘‘Os Ratos’’, de Dyonélio Machado, que levou o prêmio da Academia Brasileira de Letras, de 1934, ao retratar um dia sufocante da vida de um funcionário público, Naziazeno. Ele está sem dinheiro, mas tem que pagar a conta do leiteiro, que fez um pequeno escândalo pela manhã.
Há muitos anos Pignatari vem acalentando o sonho de adaptar o livro ao cinema. Chegou a hora, mas a idéia praticamente fixa de um filme frio, em preto-e-branco, com o personagem Naziazeno caminhando por uma Porto Alegre provinciana, num cenário seco, contido, mudou. ‘‘Quero um filme preto-e-branco em cores’’, tenta explicar. Ou seja, ‘‘um filme preto-e-branco com incursões em cores’’. Essa mudança de visão deveu-se aos recursos que a tecnologia oferece atualmente. ‘‘Agora já faço umas coisas mais avançadinhas, e não apenas aquela coisa bem seca tipo noveau roman francês, tipo Camus’’.
Vem aí ‘‘Errâncias’’, que Décio chama de ‘‘um livro de fotografias comentadas, pensadas’’. São registros de personalidades e lugares extraídos dos arquivos do escritor e de outros fotógrafos. Estarão ali, entre outros, nomes como Umberto Eco, Pierre Boulez, Jorge Luis Borges, João Cabral de Mello Neto, Volpi, Tarsila do Amaral, Paulo Leminski.
As fotos deverão receber todo um tratamento de recuperação, mesmo porque elas não foram feitas em estúdio, com cuidados técnicos. O registro de Tarsila do Amaral, por exemplo, foi feito sem que ela soubesse da indiscrição do jovem Pignatari. ‘‘Tirei a foto no ano de sua morte. Ela estava entrevada, o pé necrosado’’, lembra ele.
A artista, que a essas alturas contava com mais de 80 anos, não permitia que a fotografassem. Décio não se deu por achado: como havia espelhos pelo cômodo, captou-a num desses reflexos. Ali estão a pintora, Haroldo de Campos e a neta, Araci Amaral, ‘‘que nos levou até lᒒ. Um dos tesouros são as imagens inéditas de Ezra Pound, colhidas por Wesley Duke Lee. ‘‘Ganhei-as de presente dele’’, conta.
‘‘Fora isso tem um romance que quero escrever até o ano 2000, ‘Obra em Obras: o Brasil’’’, anuncia. Há três anos o escritor vem fazendo anotações, para ter material consistente na hora que for ao computador. O livro será uma profunda reflexão sobre o País ‘‘que só promete e não cumpre’’.
A obra ainda não foi iniciada, mas Pignatari já rebate: ‘‘Não me venha dizer que estou fazendo crítica destrutiva. É preciso fazer crítica que arrase o passado ruim. Você quer os maiores absurdos, mesmo em nível de povo? O Brasil é tetracampeão de futebol e não desenhou uma bola. Não desenhou uma camisa, uma jaqueta. Todas as reformas e desenhos do futebol vieram de fora.’’ Pois é. ‘‘Pretendo colocar de tudo no livro’’, antecipa.
Quem não tiver paciência em esperar pelo que vem por aí, tem à disposição o livro ‘‘Cultura Pós-Nacionalista’’ que indaga sobre a nossa cultura. Que foi feito dela? Por que a prosa brasileira em literatura não é nada? ‘‘Não temos prosador, romancista, escritor, nada. Temos só cronistas superficiais. Depois de Guimarães Rosa não temos mais ninguém’’, lamenta. Felizmente a poesia está bem, ‘‘os poetas são um pouco mais cultos, mas os prosadores brasileiros são ignorantes’’. Nem tudo está perdido.(Z.C.L.)

mockup