Muito caminho pela frente
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de dezembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba Não foram só os fãs. Todo o Brasil suspirou apreensivo quando o ultraleve conduzido pelo músico Herbert Vianna caiu, em fevereiro do ano passado. O acidente provocou a morte de sua mulher, Lucy, e deixou o líder dos Paralamas do Sucesso paraplégico. Quase dois anos depois, Herbert se mostra muito mais que recuperado. Gravou o mais recente disco da banda, ''Longo Caminho'' (Emi, 2002), ajuda na elaboração do que deve ser o último capítulo do livro que relata a trajetória do trio, formado por ele, João Barone e Bi Ribeiro e está em turnê pelo País para divulgar o novo disco.
O álbum começou a ser desenhado antes do acidente. Depois dele, serviu como uma espécie de terapia para a recuperação do vocalista. ''Parece que ficou uma caixa-preta na cabeça do Herbert, com todas as músicas que ele tinha composto para o disco'', brincou o músico Bi Ribeiro em entrevista exclusiva à Folha. Ribeiro define o disco como um álbum forte e (até) melancólico, em função da experiência do grupo formado há mais de duas décadas.
Produzido por Carlinho Bortolini (ex-guitarrista do Ultraje a Rigor), ''Longo Caminho'' tem participação de Dado Villa Lobos e Fito Paez. O repertório pode ser conferido ao vivo em três apresentações que a banda faz em Curitiba. Leia mais sobre o processo de gravação do disco abaixo, na entrevista concedida por Bi Ribeiro.
O disco ''Longo Caminho'' foi gravado apenas um ano depois do acidente. Não foi um pouco precipitado?
Pode parecer mesmo, mas na verdade não foi. Depois do acidente andamos na velocidade do Herbert e o pouco que a gente podia fazer para ele se recuperar, fazíamos. Nos revezávamos no hospital para ficar com ele e depois nos juntávamos todos os dias para ele tocar. Isso fez parte da recuperação dele. O engraçado é que parece que o Herbert ficou com uma espécie de caixa-preta das músicas que a gente estava gravando antes do acidente. Todas as letras estavam conservadas na cabeça dele. E um disco é assim, você vai juntando e chega uma hora que você tem que gravar.
E o resultado agradou ou há alterações que a banda gostaria de fazer, vendo o álbum pronto e conhecendo a reação do público?
Nós gostamos muito e todos ficamos satisfeitos. Acho que o público também porque o disco está vendendo bem. Já vendeu 280 mil cópias.
A banda é uma espécie de ícone da geração de 80. Agora tem um público eclético, formado também por adolescentes. Para quem foi feito o disco? Que público o Paralamas tem agora?
É verdade. O Paralamas é a única banda dos anos 80 que permaneceu com a mesma formação depois de 20 anos. Acho que isso é até meio inédito no mundo. Temos o público daquela época, mas na década de 90 o público foi se renovando, ficou mais jovem. E agora tem gente mais jovem ainda. Não sei se o caso do acidente com o Herbert desperta curiosidade, mas nos nossos shows temos visto pais com os filhos e as duas gerações curtindo. Também tem uma garotada bem mais jovem que também está curtindo.
E vocês concordam com o que se tem dito, que o álbum ''Longo Caminho'' tem um caráter mais soturno, diferente do que se espera da banda? De alguma forma o acidente de Herbert contribuiu para essa característica e influenciou na escolha das músicas?
O disco está mais melancólico mesmo, mas a gente nunca direciona as coisas que vai falar. A gente grava um disco quando tem assunto e expressa o que tem que ser dito. Ele pode estar melancólico, mas ao mesmo tempo é forte. Eu não acho isso ruim.
O disco tem duas músicas em inglês (a do The Jam e a balada composta por Herbert, Hinchley Pond). Como elas foram escolhidas?
Quando começamos a pensar no disco, antes do acidente, nós estávamos vindo do disco acústico e queríamos fazer uma coisa diferente. Nós começamos a fazer um laboratório e chegamos a fazer dois shows com músicas do The Police, Clash, Costello e The Jam, que é uma banda que nem existe mais. Essas eram nossas influências e quando fomos gravar ''Longo Caminho'' escolhemos a música do The Jam como uma espécie de homenagem a essas influências. Já ''Hinchley Pond'' foi uma música que o Herbert fez para a Lucy antes do acidente. É uma referência à fazenda que o pai dela tem.
Pois é... é engraçado como certas músicas compostas pelo Herbert antes do acidente parecem um tanto proféticas. Vocês encaram isso com um certo misticismo?
Se for olhar parece que tem mesmo a ver. A gente percebeu isso quando estava gravando e também percebe nos shows. Mas fazer o quê? Acho que tem casos similares na arte. O cara sente sem saber. É estranho, mas não estamos explorando o acidente. Aconteceu...
E agora, o que muda na rotina da banda?
Antes do acidente, a gente estava dando um tempo de seis meses para voltar a fazer shows. Um pouco para desacelerar o ritmo. A gente chegava a fazer cinco ou seis shows por semana e não tínhamos tempo para família. Agora a gente quer ir com calma, se bem que o Herbert tem aguentado bem. Em Belo Horizonte fizemos três shows e ele aguentou firme.
Durante a recuperação de Herbert, vocês se dedicaram a projetos paralelos, como a Reggae B. A banda fez bastante sucesso quando veio ao Paraná, no início do ano. Quais são os planos para esses projetos agora que o Paralamas está de volta?
Eu sempre achei que eu era um Paralamas e não um músico. Quando o Herbert sofreu o acidente eu vi que não era bem assim. Eu senti necessidade de tocar e montei a Reggae B com outros colegas como uma espécie de hobby. É uma banda cover, mas é muito bom. Eu pretendo continuar com o grupo, mas com uma programação mais espaçada.
E na esteira de outras bandas, vocês estão pretendendo editar algum livro sobre a trajetória do Paralamas?
Esse projeto já existia antes de os Titãs lançarem o livro deles. Há uns quatro anos mais ou menos tínhamos tudo pronto, mas deu um problema com a editora e teve que ser adiado. Daí veio o acidente com o Herbert e o projeto ficou parado. Agora o jornalista que está escrevendo o livro, o Jamari França, está terminado o último capítulo, mas o livro deve ser lançado o ano que vem.
Serviço:
Show do Paralamas do Sucesso. Terça, quarta e quinta-feira, às 21 horas, no Teatro Guaíra, em Curitiba. Ingressos na terça-feira: platéia R$ 40,00; primeiro balcão R$ 30,00 e segundo balcão R$ 20,00. Na quarta e quinta-feira: platéia R$ 50,00; primeiro balcão R$ 40,00 e segundo balcão R$ 30,00. (Há ingressos limitados no segundo balcão, com desconto de 50%, para estudantes).


