Muito barulho, pouca música
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Como David Bowie no passado, a banda escocesa Primal Scream destacou-se pela inovação e diversidade sonora de seus discos. Depois de tornar-se quase sinônimo de vanguarda no rock, com a fusão inflamável de guitarras e loops eletrônicos, passou também à dianteira do engajamento pop disparando verborragia politizada em letras e entrevistas.
Em ''Evil Heat'', o novo álbum, a militância se sobrepôs à música. O ativismo se faz notar já na capa e no encarte, que exibem fotos de jovens rebeldes do movimento anti-globalização. Os próprios crachás, distribuídos à imprensa e convidados, para assistir aos shows da atual turnê estampam o rosto de Che Guevara. A faixa ''Rise'', centro de uma controvérsia que antecipou o lançamento do CD, acentuou o travo guerrilheiro de Bobby Gillespie e seu grupo.
A música chamava-se ''Bomb the Pentagon'', mas teve que ser rebatizada sob o risco do disco ser proibido nos Estados Unidos. A faixa circulou na internet logo após os atentados terroristas de 11 de setembro do ano passado, embora já frequentasse os shows da banda antes mesmo da queda das torres. A polêmica imagem da banda, contudo, parece ter suplantado a qualidade das novas composições.
''Evil Heat'' traz poluição eletrônica até dizer chega. É um disco sujo, nervoso, apinhado de ruídos, timbres surrupiados do Kraftwerk e vocais agonizantes. Ouvi-lo é uma experiência das mais ingratas, ao contrário do que se escreveu por aí em resenhas generosas. Todas as levadas vêm torturadas por dissonâncias. Faixas como ''Miss Lucifer'' e ''Autobahn 66'' revelam a sintonia do Primal com o electro, última tendência nas pistas européias.
Para as gravações, Gillepsie convidou ilustres como Jim Reid (ex-vocalista do Jesus & Mary Chain), a supermodel Kate Moss (que faz um dueto com Gillespie em ''Some Velvet Moring'', o ex-vocalista do Led Zeppelin Robert Plant (que toca gaita em ''The Lord is My Shotgun'') e o ex-My Bloody Valentine Kevin Shields (responsável pela produção de metade do disco). Mas o peso das participações especiais e o vigor verbal não escondem o raquitismo do álbum, que é sofrível se comparado a ''Vanishing Point'' e ''XTRMNTR, os dois últimos da banda.


