Qualquer espectador mais conectado com as estripulias destes sempre tão previsíveis e medíocres roteiristas hollywoodianos e suas imaginações atreladas ao box office sabia que era questão de tempo, chegar a esta espécie de terapia regressiva criada para ''explicar'' o personagem Hannibal Lecter, um dos mais sofisticados serial killers já incluídos no receituário do cinema de gênero.
Sim, porque sob tão sádica e retorcida personalidade, e para efeito de alimentação de bilheteria, se escondia obrigatoriamente e com certeza freudiana alguma atrocidade que marcaria para sempre a infância do personagem e sua futura conduta criminosa. Tediosamente óbvio como dois e dois são quatro, este trauma de psicologia de almanaque está na estréia nacional ''Hannibal - A Origem do Mal'' (veja a programação de cinema na página 2).
Na Lituânia, em plena Segunda Guerra Mundial, o jovem Hannibal Lecter (Gaspard Uliel) testemunha a morte dos pais e o assassinato de sua irmã menor, que um grupo de soldados famintos termina devorando. Após a tragédia familiar, Hannibal é criado num orfanato opressivo, de onde foge um dia para a França. Lá, o ressentido e inteligente Lecter faz contato com a aristocrata Lady Murasaki (Gong Li), viúva de um tio dele. Trancado em si mesmo, o personagem alimenta sua recorrente idéia de vingança, que no entanto vai se tornando rotineira à medida em que se repetem decapitações, sangramento aos borbotões ou imersões em formol, sempre pelas mãos deste gourmet especializado em vísceras fumegantes.
O que o público tem diante de si, a título de ''origem do mal'', é uma iniciação inane que transforma um dos mais fascinantes ícones modernos do terror psicológico em tolice psicopatológica sem qualquer rasgo de originalidade. O roteiro do próprio escritor Thomas Harris passa ao largo de sutilezas e se fixa somente na violenta catarse explícita do personagem, dotado de olhares enviesados e fala pausada, a fim de caracterizar o comportamento amoral - os diálogos dele com uma forçada e gratuita Gong Li são de chorar, de tão avassaladora ruindade. A registrar a imensa saudade do livro de receitas de Anthony Hopkins.

Motoqueiros - E ainda hoje há uma terceira estréia nacional, ôMotoqueiros Selvagens", que pretende ser engraçado com um argumento que poderia ter engrenado se bom humor houvesse. Quatro amigos veteranos (Martin Lawrence, John Travolta, Tim Allen e William H. Macy) são metidos a motoqueiros avançados, mas não são exatamente isso. Confusões ocorrem quando têm que enfrentar gang barra pesada, os Del Fuegos, chefiada por Ray Liotta, o único personagem que se salva. O filme simplesmente não decola porque não há ritmo de comédia, não há química entre os atores, nada há nada. (C.E.L.J.)

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