Durante muito tempo Luis Melo se esquivou dos convites para atuar na televisão para se dedicar integralmente ao teatro. Finalmente seduzido pelo veículo, ele atualmente vive o vilão Molina, falso padre jesuíta em ‘‘A Padroeira’’
Fazer uma novela na Globo é normalmente um momento de consagração para qualquer ator. Mas para Luis Melo nunca foi bem assim. Cada trabalho que realiza, o ator encara com a mesma tranquilidade, naturalidade e profissionalismo. Nem mesmo o primeiro vilão que interpreta na tevê – o falso padre jesuíta Molina, da novela ‘‘A Padroeira’’, de Walcyr Carrasco – é motivo de qualquer deslumbramento. ‘‘Vejo todo papel que recebo como uma grande, porém, a mesma oportunidade de realizar um bom trabalho’’, explica humilde o ator de 43 anos que, para compor este personagem, utilizou uma metodologia similar à teatral. ‘‘Ao longo de minha vida, procuro ter nenhuma influência e ao mesmo tempo ter todas referências’’, ensina.
Na verdade, desde sua estréia na Globo, Melo foi invariavelmente reservado para papéis excêntricos. Além do falso padre jesuíta de ‘‘A Padroeira’’, Melo deu vida ao Diabo na microssérie ‘‘O Auto da Compadecida’’, obra de Ariano Suassuna, adaptada para televisão e cinema pelo diretor Guel Arraes. ‘‘Este trabalho foi um marco de nossa dramaturgia’’, recorda, nostálgico, o ator que durante muitos anos dispensou convites da principal emissora do país. Tudo para se dedicar à companhia teatral Macunaíma, liderada pelo diretor Antunes Filho. A opção acabou dando certo. Luis Melo se consagrou nos palcos brasileiros e até mundiais. Como consequência, ele ganhou prêmios relevantes do teatro nacional, como Shell, Mambembe, APCA e Moliére. ‘‘ Até então, optei pelo teatro porque sabia que a televisão sempre estaria no mesmo lugar’’, justifica o ator.
Embora Melo hoje tenha sido finalmente seduzido pela televisão, ele continua dedicando boa parte do seu tempo às causas teatrais. Uma delas é o Ateliê de Criação Teatral, que ele montou em Curitiba. O espaço também oferece atividades voltadas para música, dança e artes plásticas. ‘‘É uma forma democrática que a gente encontrou para levar cultura para pessoas que têm pouco acesso’’, empolga-se Luis Melo.
Você nunca foi um ator de emendar uma novela na outra. O que fez aceitar o convite para trabalhar em ‘‘A Padroeira’’, logo depois de ter feito ‘‘O Cravo e A Rosa’’?
Foi justamente pela nova oportunidade de voltar a trabalhar com o diretor Walter Avancini. Infelizmente, ele acabou largando a direção geral da novela por motivos de doença. Na realidade, estou sempre procurando os mestres. Minha trajetória no teatro também foi assim. Tive uma passagem ininterrupta nas mãos do diretor Antunes Filho, que é outro grande mestre, mas do teatro brasileiro. Então, procuro unir o útil ao agradável. E, com Avancini, a gente sente uma confiança muito grande. Ele nos permite a experimentar várias coisas.
O que muda com a saída dele?
Muita coisa. Como disse, o Avancini tem uma preocupação muito grande com o ator. Mas não é apenas o nosso trabalho que cresce nas mãos dele. A arte, cenografia e os figurinos também, que se tornam caprichados quando uma produção está sob a direção dele. O Avancini é tipo do profissional que nos ensina a respirar. Mas estou motivado com a entrada do Roberto Talma. Ele também é um diretor experiente e que vai acrescentar muito ao nosso trabalho.
Como está sendo a experiência de interpretar, pela primeira vez, um vilão numa novela?
Para falar a verdade, os vilões são os mais difíceis de fazer. Na televisão, existe uma marca: o grande vilão é aquele que consegue se tornar uma caricatura. Só que, até acertar o tom deste tipo de personagem, é muito complicado. A novela é uma obra aberta. Por outro lado, tem uma vantagem: a gente também não fecha definitivamente todas as características do personagem. Com isso, o ator tem a possibilidade de criar novas fórmulas. Na novela ‘‘O Cravo e A Rosa’’, por exemplo, os personagens tiveram uma transformação muito grande ao longo da trama. Isto foi bárbaro. Mas em ‘‘A Padroeira’’, minha maior preocupação é tentar criar uma necessita orgânica para justificar todas as maldades do Molina. Na verdade, ninguém é mau porque quer.
Você se inspirou em algum vilão específico?
Na minha carreira, eu procuro não ter nenhuma influência e ao mesmo tempo ter todas as referências. Na verdade, se a gente busca alguém como referência, o personagem acaba ficando centrado demais. E em muitos casos, ao longo da novela, existe a necessidade de transformar os personagens. No caso do Molina, por exemplo, às vezes percebo que ele tem de ser simpático. Porque para dominar a situação, ele tem de seduzir as pessoas. Isto é um tipo de método muito utilizado no teatro.
Você é um ator com larga formação teatral. Por que demorou tanto para trabalhar na televisão?
Foi uma opção. Em meados da década de 80, atuei num programa voltado para o público infantil na TV Cultura, de São Paulo. Este trabalho possibilitou para que eu me dedicasse inteiramente à companhia do Antunes Filho. Fazíamos um teatro profundo e nem um pouco comercial. Por isso, atuar na companhia do Antunes era uma dedicação basicamente diária. Com o grupo Macunaíma, viajamos o mundo todo. Acho que aquele grupo a ajudou tornar conhecido o teatro brasileiro lá fora. Através do teatro, inclusive, que me tornei um ator respeitado em São Paulo. Para muitas pessoas, virei até uma referência do ator bem-sucedido que não precisava atuar na televisão.
Então realmente houve uma grande resistência...
É que sou o tipo do ator que vou atrás de projetos. Naquela época, o projeto da companhia era tão importante para mim que não queria fazer outra coisa. Também tinha aquela história: ‘‘Não vamos chamar o Melo para não mexer com Antunes. O trabalho que eles estão desenvolvendo lá é muito legal’’. A gente fazia o chamado teatro de pesquisa brasileiro. Estudava obras de Shakespeare, Nélson Rodrigues, Oswaldo de Andrade, Guimarães Rosa, entre outros. Por isso, que foi uma opção mesmo. Porque sabia que a televisão estaria sempre ali.
Como muitos atores de teatro, você também tinha preconceito contra a televisão?
No meu caso, não podia fazer televisão sem ter uma base. Para fazer teatro e conquistar um espaço, o custo é muito trabalho. Hoje em dia, a televisão tem uma coisa que você pode estar em evidência do dia para noite. Só que é uma transformação muito efêmera. Na televisão, no caso a dramaturgia, existe uma necessidade constante de renovação. Por isso, não queria simplesmente passar pela televisão. Entrar é muito fácil. Difícil é permanecer. Acho que minha estratégia de chegar à televisão funcionou. Estreei numa novela legal, ‘‘Cara e Coroa’’, interpretando um professor bacana que foi o Rubinho.
Foi difícil se adaptar a um veículo de massa como a televisão?
A televisão nunca me cobrou nenhum tipo de adaptação. Quando fiz minha estréia, eles precisavam justamente de um ator que fosse extremamente teatral. Porque o professor Rubinho tinha todo aquele romantismo. O personagem era para realmente criar um certo estranhamento na novela. Mas existem outros projetos na televisão que acho bárbaros. Como, por exemplo, os trabalhos com o diretor Guel Arraes. As minisséries também são interessantes. Elas exigem o máximo do ator. Acho que o profissional vindo do teatro se encaixa mais facilmente neste tipo de trabalho.
Com Guel Arraes, você fez dois projetos voltados para o humor: ‘‘A Invenção do Brasil’’ e ‘‘O Auto da Compadecida’’. Como foi a experiência?
R - Me sentia um pouco fora da turma do Guel Arraes. Tudo porque todas as pessoas envolvidas nestes dois projetos já tinham experiências de programas de humor. E no teatro, fiquei muito tempo sem exercitar meu lado de comédia. Sempre tive mais facilidade para o drama e também para a tragédia. Mas a experiência foi surpreendente. Sempre tive um grande desejo de trabalhar com Guel e passar por este tipo de experiência. Só que ainda não domino a maneira que ele dirige. É muito nova. Tem todo um universo novo para descobrir. O Guel trabalha de uma maneira muito minuciosa. Adora preparar e ensaiar o elenco antes de um grande trabalho. É bom trabalhar com um diretor do quilate do Guel. Como o Avancini, ele tem uma paixão muito grande pelo trabalho do ator. Sabe que assim o retorno de todos envolvidos numa produção é mais compensador.
‘‘O Auto da Compadecida’’ foi sucesso de público e crítica na televisão e depois foi para o cinema. Foi surpreendente o sucesso do filme, que teve mais de 2 milhões de espectadores?
Realmente foi uma coisa maluca. Ninguém acreditava no filme porque já havia passado na televisão. Tanto que foi lançado de forma tímida no começo. Depois, foi aquela avalanche que todo mundo já sabe. Mas acho que muitas pessoas que assistiram na televisão, acabaram indo ao cinema para rever o filme.

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