Curitiba No mesmo dia em que o filme ''Carandiru'' era exibido em uma sessão fechada para jornalistas, anteontem em Curitiba, um homem acusado de matar nove pessoas oito de uma mesma família foi encontrado morto na cela em que estava preso. Teria se suicidado, segundo versão divulgada pela polícia. A semelhança entre o que acontece no filme dirigido por Hector Babenco o que aconteceu na Penitenciária Estadual de Piraquara (PEP), na Região Metropolitana de Curitiba, é gritante e comum. Mas ao levar tanta realidade para as telas, Babenco é cênico demais, asséptico demais, o que rouba boa parte da verossimilhança do longa. Olhar o jornal do dia, nesse caso, causa mais emoção, choque ou qualquer outro tipo de reação do que assistir a ''Carandiru''.
O filme é baseado no livro ''Estação Carandiru'', do médico Drauzio Varella, e tem estréia nacional no próximo final de semana. É o oitavo longa-metragem de Babenco, que tem no seu currículo, o histórico ''Pixote - A Lei do Mais Fraco'' (1980), responsável por sua projeção internacional. Nascido em Buenos Aires em 1946, Babenco sempre esteve às voltas com a realidade do Brasil. Seu primeiro filme, ''O Rei da Noite'' (1975), retrata o cotidiano de um malandro tipicamente brasileiro. O famoso bandido Lúcio Flávio também foi retratado pelas lentes de Babenco em ''Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia'' (1977).
Mas foi depois de Pixote que o diretor deixou de lado o nada digerível tema que bebe do cotidiano nacional para embarcar numa nova fase. Dirigiu ''O Beijo da Mulher Aranha'' (1985), com Sonia Braga e Willian Hurt no elenco e ''Iromweed'', com Meryl Streep e Jack Nicholson, indicado ao Oscar de melhor ator naquele ano. Foi quando Babenco consolidou, definitivamente, sua carreira internacional.
Mas, como diz o ditado, o bom filho à casa torna. E há cinco anos, Babenco retomou a sua ligação com o País, com ''Coração Iluminado'' (1998). É em ''Carandiru'', entretanto, que ele dá continuidade ao tema que deu início a sua carreira. O filme é uma espécie de exercício de predição do que aconteceu com os personagens de ''Pixote''. No material de divulgação do filme, onde responde a prováveis perguntas feitas por jornalistas, o diretor deixa claro que essa não foi a intenção inicial, embora admita essa possibilidade de interpretação.
''Quem viu Pixote e quiser fazer essa leitura tem todo o direito de fazê-lo. Mas repito que 'Carandiru' foi realizado sem nenhum espírito de continuação, pois trata-se de um filme que tem história própria'', diz o diretor. Babenco não pôde acompanhar a exibição em Curitiba por que sua mãe ficou doente e ele teve que viajar, às pressas, para Buenos Aires.
''Carandiru'' narra através do olhar de um médico as histórias de crime e vingança dos presidiários do até então maior presídio da América Latina, o Carandiru, implodido no ano passado. No longa, o médico interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos não tem nome. É apenas o Médico que faz um trabalho diário e incansável de prevenção de Aids na penitenciária superlotada. Ao conviver com as desgraças pessoais e crimes praticados pelos internos, o Médico dá uma visão extremamente lúdica à realidade, talvez para deixá-la mais palatável.
Com o tempo, o médico consegue a confiança dos detentos e com ela a confissão deles. Não em busca de redenção (porque lá dentro, ''não existe culpado''), mas em um certo tom de conversa amigável, como se eles estivesse na mesa de um bar fora dos portões que guardam o código de ética próprio da prisão. E talvez seja essa opção de abordagem a responsável por boa parte da falta de credibilidade do filme.
Se o espectador tenta se chocar com o preso que é morto por seus companheiros de cela e aparece enforcado como sendo um suicida, ou com o menino que tinha tudo para ser um ''bom moço'' e caiu injustamente nas garras do crime para salvar a honra da irmã, é barrado por uma interpretação (salvo exceções) extremamente pueril, que não lembra em nada a realidade retratada, por exemplo, em ''Cidades de Deus''.
É bom evitar comparações, mas em ''Cidade de Deus'' o que se vê são atores que conviveram com a realidade da favela que dá nome ao filme, mais ainda: são moradores da favela. Em ''Carandiru'', o rosto ''limpinho'' de Floriano Peixoto não convence como o assaltante de carro-forte Antônio Carlos, por exemplo, e tampouco a meiguice de Caio Blat (como Deusdeth) convence como assassino dos prováveis estupradores de sua irmã.
Mas há atuações memoráveis, claro, como Rodrigo Santoro no papel da travesti Lady Di e seu partner Sem Chance (Gero Camilo). Foi Santoro mesmo quem escolheu fazer o papel nada convencional, em busca de um novo exercício de interpretação. Conseguiu realizá-lo fugindo do estereótipo e também por isso merece mérito. O ator paulistano Milhem Cortaz também surpreende como o bandido Peixeira, que se vê atormentado com a culpa por não ter matado mais uma pessoa.
E se todos esses bons atores dão contraponto ao filme por ter fugido do lugar-comum, a cena que deveria ser a principal do longa peca justamente por cair nessa armadilha. O massacre do Carandiru, onde morrerram 111 presos e nenhum policial no confronto entre policiais e detentos, é retratado da maneira mais óbvia possível. Ainda assim, ''Carandiru'' deve constar na lista de filmes a ser visto, talvez pelo sentido inverso da sua intenção: a de mostrar que a situação carcerária no País carece de revisão. Não é cinema.

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