Muito além dos personagens
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de outubro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
O premiado Denzel Washington esteve no recente Festival de Veneza promovendo dois filmes. Um deles, ''Chamas da Vingança'', está em exibição desde sexta-feira no Brasil. Mais sociável e receptivo à imprensa do que há dois anos, quando entrou mudo e saiu calado com ''Dia de Treinamento'', filme que acabou dando a ele o Oscar de melhor ator, Washington, que completa 50 anos em dezembro, conversou em Veneza com a reportagem da Folha2 sobre seus dois mais recentes personagens, falou sobre política (nenhuma declaração explícita contra Bush, nem sim, nem não, muito pelo contrário...), de suas ações humanitárias ajudando crianças africanas vítimas da Aids e da guerra, abordou detalhes do ofício de ator e revelou projetos como produtor. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida no Hotel Des Bains, com exclusividade para o Brasil.
Sua carreira é pontuada por personagens uniformizados, pelo menos meia dúzia deles a partir de ''A História de Um Soldado'', de 1984. Agora, simultaneamente, estréiam o ex-marine e ex-agente da CIA em ''Chamas da Vingança'', John Creasy, e o major Ben Marco de ''Sob o Domínio do Mal'' (com estréia prevista no Brasil já na próxima sexta-feira). É escolha pessoal?
É o cinema ''macho'' dos estúdios. Sempre o herói que persegue os maus é policial ou militar. Não são os uniformes que me interessam nos personagens, mas sua evolução, a maneira como superam seus problemas, sua fragilidade. Em ''Chamas da Vingança'', John, através do relacionamento com a garotinha, se arrisca a sair da escuridão em que está metido.
Ambos os personagens que você trouxe a Veneza são pessoas que estão passando por crises existenciais, são dois sofredores. Seu sucesso como ator estaria então mais ligado a este lado mais frágil, e por consequência, mais humano?
Todos nós temos problemas, ou não? Talvez eu seja atraído pelo perfil do personagem, não sei. Em particular, o John Creasy de ''Chamas da Vingança'' é um dos mais heróicos que eu já interpretei. Talvez em razão do sacrifício a que se submete para tirar a menina das mãos dos sequestradores. De qualquer maneira, no teatro enfrentei o desafio de buscar as nuances do desenvolvimento emocional e psicológico de um papel. Sempre me ensinaram a tentar compreender sua evolução. Em ''Chamas da Vingança'' conversei muito com o diretor Tony Scott sobre algumas passagens da Bíblia que se referem à passagem das trevas à luz. Esta se tornou uma idéia interessante na base do personagem do filme.
O que o público aceita melhor, uma trama envolvendo sequestro ou uma história de corrupção política? (NR: ''Sob o Domínio do Mal'' é fantasia política sobre paranóia, e tem como argumento um complô para eleger nos Estados Unidos um presidente-fantoche)
A corrupção política é alguma coisa que se espera, infelizmente sempre existiu e sempre existirá. O episódio de uma garota sequestrada é sempre emocionalmente mais forte, fala mais ao coração. Quem não está seguindo com apreensão o que agora mesmo está acontecendo em Beslan? (NR: a entrevista foi feita no dia 2 de setembro, véspera do massacre na escola no norte do Cáucaso)
O cinema, ficção ou documentário, tem o poder de mudar politicamente a opinião pública?
Sim, acredito que sim. Um filme pode abrir a cabeça de muitos espectadores, pode motivar a busca de uma verdade diferente daquela oficial. Nos Estados Unidos isto está acontecendo. Sim, um filme pode mudar o voto. Eu, pessoalmente, gosto de agir politicamente, mas através de ajuda humanitária. Dou minha contribuição para a construção de dezenas de orfanatos na África, locais para abrigar crianças que perderam os pais portadores de Aids ou na guerra. Dou voluntariamente tempo e dinheiro à causa, embora não seja somente isso que me interessa.
Muitos atores estão participando ativamente da campanha anti-Bush...
(Depois de pequena hesitação, seguida de um sorriso maroto) Esta é a América, a beleza da América. O direito de manifestar livremente as próprias idéias ainda existe.
Como foi trabalhar no set de ''Chamas da Vingança'' com a pequena atriz Dakota Fanning, com quem parece você se deu muito bem?
A química funcionou de fato. Ela é mesmo uma pequena jóia, uma garota especial e já uma atriz brilhante. Os pais dela a ensinaram a ser muito humilde. E no set passei a considerá-la minha filha adotiva...
Há algum papel que você esteja procurando agora, especificamente?
Adoro Shakespeare (NR: Denzel já interpretou ''Muito Barulho por Nada'', de Kenneth Branagh), e gostaria de fazer qualquer coisa dentro de sua dramaturgia. Mas parte do meu trabalho é deixar-me surpreender diante daquilo que me é proposto. Parte da magia está na própria descoberta, e não gosto muito de planejar. Agora, como produtor estou com dois projetos prontos: um, sobre soldados negros que combateram na França na Segunda Guerra, e outro é a biografia de Sammy Davis Jr.


