As polêmicas andam em baixa, mas um - aparentemente - modesto livro introdutório pode trazer de volta alguns contendores verbais ao ringue das letras. Trata-se de Poesia Concreta e Visual, o mais recente título da coleção Roteiros de Leitura, da editora Ática.
A coleção tem fins didáticos e busca, através de textos de estudiosos, enriquecer a leitura de obras significativas das literaturas brasileira e portuguesa. Pela coleção, já saíram volumes dedicados a obras de Jorge Amado, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Fernando Pessoa e outros nomes de mesmo quilate.
ReproduçãoLivro de Philadelpho Menezes dedica o grosso das páginas ao movimento criado por Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos: concretismo em revisão críticaPoesia Concreta e Visual, de autoria de Philadelpho Menezes, refaz a trajetória da vertente poética que - como ele diz na introdução - ‘‘migrou para outros espaços, ganhou asas e voou para fora do modelo tradicional que conhecemos: o texto escrito em verso’’.
O percurso da poesia visual é contado a partir de seus primórdios entre as vanguardas futuristas européias no começo do século XX, passando pelos desdobramentos posteriores até chegar ao panorama atual onde se vislumbra a emergência de uma - na expressão do autor - ‘‘poesia tecnológica’’.
Poema sem título de Philadelpho Menezes(1984): autor também faz o caminho do experimentalismoEntre uma ponta e outra, o painel apresenta a poesia concreta, o neo-concretismo, o poema-processo, o poema-embalagem, o poema-colagem e o poema-montagem. Inclui ainda, curiosamente, um capítulo sobre poesia sonora com a qual a corrente visual manteria vínculos sob o guarda-chuva do termo ‘‘poesia experimental’’.
Como não poderia deixar de ser, o grosso das páginas é dedicado ao movimento concretista fundado em São Paulo por Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos na década de 50. Philadelpho Menezes avalia a importância da escola, pioneira no Brasil na exploração de recursos visuais - fazendo deles inclusive a pedra de toque de sua plataforma estética -, mas não poupa os concretos de uma revisão crítica.
ReproduçãoNo poema visual de Edgar Braga (1966), o leitor é convidado a um jogo com as primeiras letras que aprendemos na infânciaAponta a falta de originalidade na adoção do termo ‘‘poesia concreta’’ (cunhado alguns anos antes pelo poeta sueco Oyvind Falstron num ‘‘Manifesto da Poesia Concreta’’), minimiza a repercussão do movimento na Europa (‘‘onde havia já uma tradição de cinco décadas de experimentação estética e poética’’), e chega a relativizar as criações iniciais do trio paulistano (‘‘dentro de uma análise formal, a inventividade e o arrojo experimental dos primeiros trabalhos de Ferreira Gullar guardam uma distância nítida dos primeiros poemas dos poetas paulistas’’).
Mas provocações à parte, o livro atende tanto a iniciados quanto a neófitos na matéria sumarizando as teses defendidas pelo autor em seus dois títulos anteriores - Poética da Visualidade (1991) e A Crise do Passado - Modernidade, Vanguarda e Metamodernidade (1994). Ilustrado com trabalhos de autores representativos das várias ramificações da vertente, o volume inclui manifestos de alguns movimentos enfocados, bibliografia comentada, glossário e exercícios para o leitor se divertir criando seus próprios poemas visuais.

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