MUITO ALÉM DO NORMAL
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de junho de 2001
Leandro Calixto TV Press 
Desengonçado e engraçado. Esses são os adjetivos que melhor classificam Luís Fernando Guimarães que voltou a fazer as pazes com a popularidade através do humorístico Os Normais
Luís Fernando Guimarães bem que tenta passar despercebido. Mas é mesmo impossível não notá-lo. Do alto de seus 1,88 metros distribuídos em 88 quilos, o comediante definitivamente não é um tipo convencional. Com seu jeito desengonçado, ele chega esbaforido para mais um dia de gravação de Os Normais, o novo programa de humor das noites de sexta-feira na Globo. Gesticulando muito e com o indefectível olhar maroto, se apressa em direção ao camarim. Enquanto recebe os últimos retoques para encarnar o excêntrico Rui que vive às turras com a noiva Vani, interpretada por Fernanda Torres , Luís Fernando aproveita para dar uma rápida passada nos diálogos do roteiro que está prestes a gravar. Este é o tipo de programa que não preciso ficar decorando absolutamente nada. A gente vai criando muita coisa ao longo da gravação, explica o carioca de 51 anos.
Luís Fernando tem assumida aversão a decorar textos. Este, aliás, é um dos motivos de ele participado de poucas novelas na sua carreira na Globo. Outra coisa que também o leva a atuar com mais frequência nos programas de humor é a chance de opinar na criação das produções. Gosto realmente de dar minhas palpitadas, além de ser um trabalho menos desgastante, justifica o ator. Mesmo com esta resistência em fazer novelas, Luís Fernando acabou se rendendo a um convite do autor Silvio de Abreu para fazer a próxima das sete da emissora, que leva o título provisório de As Filhas da Mãe. Na trama, ele vai viver o picareta personal trainer Valdecir. Aceitei o convite porque foi um personagem escrito especialmente para mim, valoriza.
Mas Luís Fernando só começa a participar das gravações da novela em agosto. Até lá, ele continua com as atenções totalmente voltadas para Os Normais, que deve ter apenas 12 episódios. O humorístico, que estreou com uma expressiva média de 30 pontos no Ibope, é a chance da redenção do ator na Globo. O seu último trabalho, Vida Ao Vivo, amargou derrotas seguidas na luta pela audiência. Acho que este programa cumpriu muito bem seu papel. Foi bom enquanto durou, filosofa.
É correto afirmar que O Normais resgata um pouco de A Comédia da Vida Privada?
Acho que Os Normais é um humor novo. Mas reconheço que ele tem pedaços de vários coisas que fiz dentro da Globo, desde programas como Vida ao Vivo até o Programa Legal. Principalmente porque em Os Normais, a gente também retrata o cotidiano de um casal, que era muito explorado na Comédia. Mas o programa atual não aborda necessariamente as relações conjugais. Os Normais mostra o cotidiano do ser humano em si. Aquela pessoa que se acha normal, mas que também tem suas maluquices.
Você também tem suas maluquices?
Claro que sim.
E quais são?
Isto é muito íntimo, mas o que posso dizer é que minhas loucuras são parecidas com as de todo mundo. Quando adolescente, por exemplo, já sabia que um dia iria morrer. Só que tinha muito medo de isto acontecer um dia. Isto me assustava muito. Onde já se viu um adolescente ficar pensando na morte? Só que muitas pessoas me disseram que também tiveram este tipo de pensamento um dia. Esta é a proposta do programa: a de mostrar as anormalidades das pessoas comuns.
Você acha que o programa tem elementos para atingir todas as classes sociais?
Pelas pesquisas que a Globo realizou, até onde eu sei, o programa atinge em cheio a classe popular. Só que, quando faço um trabalho, não tenho este tipo de pensamento. Em primeiro lugar, penso em agradar as pessoas que pensam igual a mim. Mas não dá para precisar ainda. Até porque o programa acabou de estrear. Mas, pegando como exemplo minha empregada, ela gosta muito do meu trabalho como artista. Ela não pertence a minha classe social, não tem acesso as informações que eu tenho, mas gosta dos programas do gênero que participo. Tenho amigos intelectuais, que gostam deste tipo de programa também.
Você se preocupa com a audiência do seu programa?
Sinceramente não entro nesta neura. Não trabalho com isto. Mas confesso que é gratificante quando a gente sabe que o programa está dando certo.
Os Normais já tem data para terminar. Como você vê esta nova estratégia da Globo de fazer produções curtas?
Existem pessoas na Globo, como o próprio diretor Guel Arraes e outros atores de minha geração, que preferem trabalhar assim. É legal porque daí a gente não cansa o público. A gente, atores, também acaba não se cansando. Gosto de trabalhos curtos e também de fazer participações. Com isso, a gente também tem tempo para desenvolver outros projetos paralelos. Também tem tempo para fazer depois do trabalho concluído um balancete mais apurado. Com esta estratégia, acaba com aquele negócio de toda grade só estrear em março, como era feito antigamente na Globo. Era muito irritante. Estreava tudo em março e no restante do ano, não acontecia mais nada de interessante. O público gosta de novidades durante todo o ano.
Ao final de Os Normais, você vai fazer As Filhas da Mãe, do Silvio de Abreu. Qual sua expectativa de voltar a fazer uma novela?
A novela parece ser muito boa, o elenco interessante, além do diretor Jorginho Fernando ser muito meu amigo e o Silvio ter escrito o personagem especialmente para mim. Vou viver o Valdecir, que não gosta de ser chamado por este nome. Ele é um personal trainer, um grande golpista, que vai usar a beleza da irmã para se dar bem na vida. Mas, para falar a verdade, não sou muito de criar expectativas com meus trabalhos. Primeiro porque estou envolvido com Os Normais. E depois, só começo a gravar a novela em agosto. Então, no momento estou concentrado no programa.
Por que tanta resistência em fazer novelas?
É um trabalho muito longo, onde acabo não tendo um total controle. Se pudesse, só faria participações, como a que fiz em Uga Uga. Já nos programas que faço, não preciso ficar decorando o texto ou tendo de ler o roteiro em casa. Acho tudo isto muito cansativo. A coisa mais chata que existe é decorar um texto. Em casa eu gosto de ler e não de ficar decorando. Também tem aquela coisa de ficar oito meses preso num único trabalho. Parece que a gente vive para aquilo. A impressão que me dá é que a gente se muda para a emissora. Também não considero um trabalho tão criativo para a minha carreira.
Como você descobriu sua vocação cômica?
Não sei explicar direito. Não me considero uma pessoa muito engraçada. Até hoje em dia, não sou o palhaço da minha turma. Quando saio em grupo, jamais sou o centro das atenções. Às vezes, fico me observando e vejo que sou um cara tranquilo. Nunca fui um cara desinibido. Acho que tenho uma inteligência cênica. Mas quando as pessoas me vêem, muitas delas dão risada do meu jeito um pouco desengonçado. Acho que é porque o público está acostumado em me ver fazendo humor.
Como ator, você não se preocupa em ficar estigmatizado como comediante?
Já tive esta preocupação no início de minha carreira. Mas cheguei à conclusão que vivo tão bem com a comédia que não tem razões para eu ficar preocupado. Não tenho como ignorar que sou um comediante de fato. Também é o trabalho que me traz mais prazer.


