MUITO ALÉM DO ESPETÁCULO
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de junho de 2001
Katia Michelle De Londrina 
O diretor paulista Roberto Lage encontrou uma alternativa de sobrevivência na selva do teatro de apelo popular. Não deixa de montar espetáculos puramente comerciais ele mesmo admite como Vida Privada, com Mara Carvalho e o ex-ator global Juan Alba, em cartaz em São Paulo, mas busca em projetos alternativos a consolidação de seus mais de 30 anos de carreira.
Aos 54 anos, Lage já dirigiu mais de cem espetáculos. Algumas montagens surprendentes como Agatha (1999), com textos de Marguerite Duras, em que a platéia entrava em uma instalação, conferem ao diretor uma característica inovadora e provocativa ao seu trabalho. Resultado que continua buscando nos espetáculos que dirige e também no Espaço Cultural Ágora, que fundou com o também diretor Celso Frateschi. Lage esteve em Londrina, ministrando uma oficina de teatro para presidiários no Festival Internacional de Londrina (Filo). Em entrevista exclusiva à Folha2 falou sobre os projetos que está desenvolvendo dentro e fora do Ágora.
Depois de ter dirigido Jeniffer O amor é mais frio que a Morte (1997) com o grupo londrinense Proteu e ter participado do Filo com Agatha (1999), você volta a Londrina para ministrar uma oficina de teatro para presidiários. Como foi esse trabalho?
O fato dos detentos terem solicitado essa oficina contribuiu para que eu não fosse um corpo estranho no meio deles. Houve uma aceitação ao trabalho, mas considero a oficina como uma inserção, um princípio. Agora que eles tiveram o primeiro contato com o segmento do teatro é o momento de começar. Não dá para simplesmente abandoná-los por questões éticas. Nós firmamos um compromisso com esse segmento e a Nitis Jacon (diretora do Filo) me garantiu que vai haver uma continuidade.
Você trabalhou durante dez anos em sistemas carcerários. De que forma essa experiência influência no seu trabalho?
Em meados da década de 70, a Secretaria de Cultura de São Paulo propôs o teatro como instrumento de reintegração social na Febem. Eu fui dar aulas lá e me apaixonei pelo trabalho. Consegui promover uma recuperação de grupo e acabar com a rivalidade entre eles através do teatro. Estendemos as aulas para as penitenciárias e o resultado foi bem sucedido na relação com os detentos. Além desse retorno, essa vivência com os presos me instrumenta como indivíduo, me enriquece como ser humano. Mas o sistema não vê com bons olhos essa prática. Os presos acabam sendo reprimidos por fazerem teatro. Acho que os agentes penitenciários precisam mais de um trabalho de reintegração do que os próprios detentos. Eles são os verdadeiros presos e são revoltados por isso. Como é uma carreira pública eles não vão mais sair dali. O preso mais cedo ou mais tarde sai. Depois de um tempo, a Coordenadoria Geral das Penitenciárias de São Paulo proibiu minha entrada e achei melhor não lutar por isso.
Você acabou de dirigir um espetáculo que trata justamente desse universo. Mancha Roxa é uma coincidência?
É. Mas essa temática dos excluídos sempre me interessa. A idéia surgiu quando a Silmara Pimpinato e a Maíra Galvão me procuraram para dirigir um texto do Strindberg que eu achei que não era apropriado e sugeri Mancha Roxa. Elas leram e gostaram. Resolvemos montar há um ano, mas não conseguimos patrocínio. Montamos mesmo assim. É uma montagem absolutamente econômica. Trabalhamos sem cenário, faço a luz, a sonoplastia e dirijo.
O Plínio Marcos escreveu Mancha Roxa na década de 80. É quase um retrato da sociedade, dos problemas daquela época. O texto envelheceu?
Não. O texto está atualíssimo. O Plínio tem uma frase que diz que a culpa dos textos dele serem atuais não é dele, e sim da situação do País, que não muda. Mancha Roxa é a história de seis mulheres que estão presas e descobrem que tem aids. Uma delas propõe que quando elas saírem da prisão cada uma deve contaminar mais mil pessoas. Essa situação reflete a falta de cuidado do governo com o contigente dos excluídos, que está levando os indivíduos a se vingarem. Essa vingança pode se manifestar na realidade de forma cultural, como a invasão do hip hop contaminando a população, ou marginal.
Paralelamente você também está dirigindo O Caçador de Rolinhas do Mário Prata, que estava há 18 anos sem escrever para o teatro. Já tem previsão de estréia?
Vamos estrear em agosto, no Teatro Imprensa, em São Paulo. No elenco estão Paulo Gorgulho e Maria Clara Fernandes. Está faltando um personagem que adoraria que fosse interpretado pelo Rogério Cardoso, mas ele ainda não aceitou. No texto, Mário se apropria da questão do maníaco do parque e cria uma circunstância muito interessante. O maníaco é irmão de um candidato ao governo de Tocantins. Para não prejudicar a carreira, o político esconde o irmão e contrata um diretor de teatro para convencer o assassino de que ele é louco. Acontece que esse diretor de teatro se identifica com o maníaco. Ele começa a acreditar que também aniquilou uma série de mulheres e no final... bem... o final eu não posso contar...
Esse universo psicológico também aparece em outro trabalho que você está dirigindo com um grupo de atores até então desconhecido. O que é esse projeto?
É um projeto que está acontecendo há mais de um ano. São quatro atores da Cia do Acaso que se juntaram para desenvolver um trabalho e estabeleceram como tema o amor. Definiram como base a parafilia, que são as alterações do comportamento sexual. O espetáculo ganhou o nome Por Dentro, já está pronto, mas falta um espaço adequado para encená-lo. As cenas acontessem simultaneamente e o público pode acompanhar cerca de dez minutos de cada ação, num espécie de plataforma giratória. Cada espectador vai invadir um espaço na intimidade desses personagens. No final eles se encontram num grupo de apoio para dependentes de amor e sexo, é quando as histórias se interligam. O público acompanha cerca de quinze minutos da intimidade de cada um desses personagens. O argumento surgiu das improvisações dos atores e a montagem é naturalista. Não criei aquela coisa do ator falar sozinho em casa, por isso há muito pouco texto.
O Espaço Cultural Ágora está prestes a completar dois anos, como está o trabalho?
Fora a falta de grana, o Ágora vai bem. É horrível falar isso, mas no governo militar tínhamos mais apoio para os grupos do que atualmente. É muito difícil hoje encontrar condições para o teatro investigativo, de pesquisa. Há muito tempo eu sonhava desenvolver um trabalho assim. O último espetáculo que tinha feito nesse sentido foi Jennifer, com o Proteu. Antes de fundar o Ágora, eu estava trabalhando num ritmo comercial, voltado para o mercado até que me candidatei a ocupar o espaço Eugenio Kusnet, em São Paulo, que é um teatro que é cedido por um ano para as companhias. Perdi a concorrência e descobri que o Celso Frateschi também tinha perdido. Liguei para ele e sugeri alugarmos um espaço para dividirmos aluguel e horários. Ele topou e começamos a procurar espaço. Então surgiu o antigo Teatro Bixiga, que é um espaço do qual eu não consigo me livrar. Eu era um dos sócios quando ele foi construído, em 1977. Conversei com o Celso e resolvemos alugá-lo.
E é um espaço onde você pode desenvolver o seu trabalho, longe desse ritmo comercial...
Pois é... as pessoas ligadas ao teatro não estão mais se encontrando e discutindo sobre teatro. Resolvemos criar um espaço para desenvolver um trabalho de pesquisa e ao mesmo tempo oferecer para a comunidade espetáculos que fujam da mesmice. Percebemos que a melhor solução não era criar uma empresa e sim um espaço comum, sem fins lucrativos.
O Ágora está prestes a virar uma organização não governamental (Ong)?
Estamos em processo de, pois ainda não completamos os dois anos necessários para receber o credenciamento. Mas vamos reavaliar, pois não está mais sendo interessante fazer parcerias com o governo. O projeto está crescendo rápido e caminhando com as próprias pernas. Inauguramos em agosto de 1999 e coseguimos realizar uma infinidade de projetos mesmo sem recursos financeiros. Contamos com o apoio da classe teatral e de voluntários. É assim no Ágora Moleque, onde damos oficinas de teatro para crianças de baixo poder aquisitivo e no Ágora Livre, encontros há entre jovens atores com veteranos de teatro, além das montagens das peças e a promoção de uma série de palestras e seminários.
Quais os próximos projetos do espaço?
Estamos elencando doze dramaturgos para trabalhar algumas questões. São abordagens como Cabe ao teatro discutir questões políticas? / Cabe ao teatro reproduzir o mundo de hoje ?. Eles escolhem um dos temas e produzem um texto de cerca de vinte minutos para ser encenado pelos atores do Ágora. Também indicam um outro dramaturgo para comentar o seu trabalho. No dia das apresentações há essa troca. A previsão é que esse projeto aconteça no segundo semestre. Também estamos lançando o livro Odisséia do Teatro Brasileiro pela Editora Senac. A obra é resultado da série de palestras que promovemos no ano passado. Foi um envento único onde conseguimos reunir por exemplo Antunes, Zé Celso Martinez Correa e Augusto Boal. A obra dá um panorama retrospectivo da história do teatro brasileiro e deve chegar às livrarias dentro de um mês.
Um espaço independente como o Ágora, que produz espetáculos mesmo sem recursos, ao mesmo tempo que dá esse retorno para a comunidade é o caminho para o teatro no Brasil?
É a única alternativa possível neste momento para que os grupos possam se estabelecer e dar continuidade ao seu trabalho. A tendência é esses grupos conseguirem se juntar, trocar serviços, para poderem se desenvolver. No Brasil não existe dotação pública voltada para isso. A iniciativa privada, via leis de incentivo à cultura, não tem o menor interesse nesse tipo de atividade. Os diretores de marketing querem ligar o seu produto a pessoas famosas e não a grupos de pesquisa. Eu até entendo essa lógica, só não entendo porque o governo transfere para a iniciativa privada a responsabilidade de patrocinar projetos desse nível. O Festival Internacional de Londrina, por exemplo. Fico estabelecendo teorias do porquê das dificuldades financeiras que o evento encontra. Não só o Filo, mas outros festivais como o de Campina Grande (PB) sofrem a falta de uma política pública voltada para esses eventos, então cabe aos grupos encontrar uma alternativa para mudar essa realidade.


