Suzana Uchôa Itiberê
Especial para a AE
Em 22 de junho de 1969, o corpo de Judy Garland foi encontrado por seu quinto marido, Mickey Deans, no banheiro da casa onde moravam, em Londres. Judy se havia trancado e Deans foi obrigado a entrar pela janela. Ela estava sentada no vaso sanitário. Seu corpo já afetado pelo rigor mortis. Tinha acabado de completar 47 anos e sucumbira a uma overdose de barbitúricos. Diferente da morte de outras estrelas que partiram precoce e tragicamente, como Marilyn Monroe, neste caso, a imprensa não soltou o sonoro oh..., de perplexidade.
‘‘O maior choque que cercou a morte de Judy Garland foi o fato de ninguém ter ficado chocado com isso’’, escreveu Vicent Canby no New York Times. ‘‘As pessoas se perguntaram como ela sobrevivera por tanto tempo’’. É a questão que permanece, novamente, ao fim de ‘‘Judy Garland - A Primeira Biografia Completa’’, que acaba de sair pela Editora Record. O autor, David Shipman, escreveu um tijolo de quase 600 páginas, esmiuçando cada detalhe da conturbada vida da mãe de Liza Minnelli e uma das mais completas artistas de todos os tempos.
O relacionamento de Judy com a mãe, Ethel, já explica, em muito, a personalidade autodestrutiva da estrela. A caçula de três irmãs, Frances Ethel Gumm veio ao mundo em 10 de junho de 1922, em Grand Rapids, Minnesota. Pode-se dizer, até mesmo, que seu talento era nato: os pais eram artistas ambulantes de teatro de variedades. Judy tinha dois anos e meio quando foi retirada do palco, aos prantos, após encantar a platéia repetindo incansavelmente a canção natalina ‘‘Jingle Bells’’, durante o intervalo de shows no teatro de propriedade do pai, Frank. Judy nunca perdoou a mãe pela infidelidade ao marido.
O susto maior, porém, viria quando ela soube que Frank era um homossexual não assumido e cujas estripulias com rapazes eram mantidas em segredo por Ethel. Esta, por sua vez, era uma mulher autoritária, que viu na voz afinada das três filhas a oportunidade para fazer dinheiro. Transformou-as no trio As Irmãs Gumm e, quando este foi desfeito pelo casamento de uma delas, Ethel tratou de apostar tudo em Judy, que parecia ter mais jeito para o negócio.
Segundo a biografia, o rompimento entre mãe e filha teria ocorrido mais tarde, quando a estrela descobriu que a mãe e o segundo marido a haviam destruído financeiramente, ao administrarem seus ganhos em proveito próprio. ‘‘Judy é egocêntrica desde criança, a culpa é minha, eu tornei tudo fácil demais para ela’’, opinou Ethel. ‘‘Ela se esforçava para ser atriz porque isso era o que ela mais queria, Judy nunca disse: quero ser amada; ela só dizia: quero ser famosa’’.
Que espécie de mãe, entretanto, aprovaria o excesso de pílulas com que entupiram a estrelinha de 15 anos quando seu ritmo de trabalho nos musicais da MGM era exaustivo? Tomava pílulas para emagrecer, para dormir, para acordar, para ficar acesa, para ficar calma. Os remédios, aliados às catastróficas idas a psicólogos, contribuíram na formação da personalidade depressiva da atriz.
‘‘Eu era uma propriedade na qual se investira milhões de dólares; era interesse do estúdio manter seu investimento sadio e fotogênico e, até certo ponto, feliz’’, observava Judy. ‘‘O investimento só daria lucros enquanto eu estivesse trabalhando, claro.’’ Sua tese se fez verdadeira quando, em 1950, a MGM não hesitou em despedir Judy, já consagrada, pelos constantes atrasos e sumiços durante as filmagens de ‘‘Bonita e Valente’’. A ingratidão em relação à estrela do maior sucesso do estúdio, ‘‘O Mágico de Oz’’, resultou em uma das numerosas tentativas de suicídio. Foi o produtor Sidney Luft, seu terceiro marido, que a salvou, em outra ocasião, quando ela cortou a garganta com uma navalha. As ameaças de que iria matar-se se tornaram parte da rotina de quem convivia com a atriz.
De acordo com Shipman, essa tendência sofria um agravante toda vez que Judy dava à luz, por causa da forte depressão pós-parto. Foram três filhos: Liza, fruto do casamento com o diretor Vincent Minnelli; Lorna e Joey, filhos de Judy com Luft. Dos cinco maridos, apenas o compositor David Rose e Minnelli não se tornaram legítimos parasitas. Com Minnelli, no entanto, ela sentiu na pele a experiência da mãe, ao estar casada com um homossexual.
Para o autor, Judy teria casado com o diretor por dois motivos: um, para vencer a fossa do fim do romance com Joe Mankiewicz (seu verdadeiro amor), dois, porque se casando com um gay ela se permitia a manter outros relacionamentos. E foram muitos. Entre a vasta lista estão Tyrone Power, Victor Flemming, Yul Brynner e Glenn Ford. Apesar dos boatos, ela nunca teve nada com Mickey Rooney, o fiel parceiro em musicais. A obra ainda revela algumas manias depravadas da estrela, como casos com mulheres e sodomia por gays, mas afirma que a obsessão de Judy em conquistar quem aparecesse em sua frente seria uma forma de vencer um arrebatador complexo de inferioridade.
Ela morria de ciúme, por exemplo, da beleza estonteante de Lana Turner e de Elizabeth Taylor. ‘‘Eu era baixinha, gordinha e tinha uma espinha tão curta que as pernas pareciam começar nos ombros’’, reclamava. Judy também não resistia a homens casados, como Joe Mankiewicz, os quais fazia questão de tornar infiéis.
A estrela submeteu-se a vários abortos, quando um filho surgia como obstáculo em determinados momentos de sua carreira. Judy sabia o que era ser uma criança indesejada: sua mãe não se importava de contar quantas vezes pulou da escada na tentativa de abortar o feto da filha que se desenvolvia em seu ventre. E mais: seus pais estavam certos de que seria, finalmente, um menino, e não esconderam a decepção com a chegada da terceira filha.
Assim como mudava de humor e de peso de um dia para o outro, Judy jamais encontrou equilíbrio na vida amorosa. Embora Sidney Luft seja o responsável pela volta de Judy aos palcos, foi ele quem mais tirou proveito da carreira da mulher. Os dois últimos casamentos-relâmpago - e com homens mais jovens - só contribuíram para arruinar as finanças da estrela, que terminou a vida praticamente sem teto e legando para os filhos um enorme abacaxi na forma de uma dívida de US$ 4 milhões. Nos últimos anos, Judy não tinham mais forças para dar a volta por cima. Uma hora estava enorme de gorda, outra parecia anoréxica. Na verdade, sofria de um sério problema renal que, aliado ao vício, a transformou numa quarentona enrugada e abatida.
Foi como a Dorothy de ‘‘O Mágico de Oz’’ que ela recebeu da Academia um Oscar em miniatura. Mas a estatueta que quase abocanhou por ‘‘Nasce uma Estrela’’ acabou nas mãos de Grace Kelly, pelo filme ‘‘Amar É Sofrer’’. Shipman passa boa parte do livro descrevendo, detalhadamente, cada fase da carreira de Judy. Relembra os árduos primeiros anos, quando fez dupla com Mickey Rooney em produções como ‘‘O Amor Encontra Andy Hardy’’ e ‘‘Sangue de Artista’’. Explora os agitados bastidores de ‘‘O Pirata’’, ‘‘Desfile de Páscoa’’ e ‘‘Julgamento em Nuremberg’’.
A profissão de atriz, no entanto, representa apenas parte da vida de Judy, que tinha uma legião de fãs que lotavam os teatros para ouvir a voz que, segundo a colunista Hedda Hopper, ‘‘era pura como um trompete de ouro’’. A inesquecível aparição no Carnegie Hall, em 23 de abril de 1961, após longa ausência, aparece como um dos momentos de maior emoção. Judy foi ovacionada por um público de exatas 3.165 pessoas, entre elas os amigos Frank Sinata, Rock Hudson, Richard Burton, Henry Fonda, Spencer Tracy e Julie Andrews.
Embora seja inegavelmente completa, a biografia tem um porém. O autor se estende além da conta na narrativa da carreira de Judy, num relato que, muitas vezes, peca por ser burocrático e monótono. Melhor seria se Shipman tivesse resumido os pormenores profissionais e explorado com mais afinco os mexericos e indiscrições acerca da intimidade da atriz. Esses são, afinal, os grandes atrativos das biografias.

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