Muito além do arco-íris
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de julho de 2002
Renata Petrocelli<br> TV Press 
José Wilker criou uma técnica para avaliar o resultado de seu trabalho ainda no estúdio. O intérprete do homossexual Ariel em ''Desejos de Mulher'' fica ligado no que considera sua primeira platéia na tevê: os técnicos que gravam a novela. O ator só se convence de que está acertando quando encontra neles alguma reação. ''São pessoas que gravam todas as novelas, todos os dias. Eles já viram todos os atores, todas as cenas, não existe mais novidade'', justifica, com 32 anos de tevê.
O ator de 56 anos tem se divertido muito ao interpretar um homossexual inteligente, bem-humorado, sensível e, sobretudo, muito elegante. Recostado confortavelmente no sofá da sala de sua casa, no bairro carioca do Jardim Botânico, ele fala mais do que o habitual sobre seu personagem na tevê, o que prova sua satisfação. A relação com os companheiros em cena é o que mais o encanta. ''Uma das coisas que garantem o resultado de um trabalho é uma boa coxia'', opina, lembrando que já pensou em gravar os bastidores da novela. A preparação de Wilker e Otávio Muller para viver o casal Ariel e Tadeu é regada a indisciplina e anarquia. Nada de ficar horas se concentrando ou pensando no personagem antes de entrar em cena. Com Vera Holtz, que interpreta Bárbara, os dois cantam, riem e falam muita bobagem. ''Quando o cara fala 'gravando' a gente já entra chorando, se for preciso'', brinca, divertindo-se com a própria irreverência.
Você teve algum receio de interpretar um homossexual na tevê?
Nós tivemos um certo receio quando começamos a gravar, porque sabíamos que já tinha havido na Globo algumas dificuldades com relação a este tipo de personagem. Mas eu tinha certeza de que não haveria problemas se a gente fizesse isso com o máximo de elegância e dignidade. Tanto que, quando o Dênis me convidou para fazer a novela, ele estava em dúvida entre três ou quatro personagens. Eu é que pedi para fazer o Ariel, porque eu nunca fiz este tipo de personagem na tevê e achei que seria interessante. E acabou que a resposta que eu tenho recebido do público é uma das mais efusivas, divertidas e favoráveis de toda a minha carreira. As pessoas vêem o Ariel com muita simpatia, desde crianças até senhores de 70, 80 anos.
Mas foi publicado na imprensa que o público estaria rejeitando o casal, o que teria até motivado mudanças, como o fim do uso das alianças e a relação do Ariel com a Virgínia...
Andou-se publicando que havia sido feita uma pesquisa mostrando que haveria por parte do público uma rejeição aos personagens, ou sabe-se lá o que mais. Nenhum de nós sabia desta pesquisa, ninguém fez esta pesquisa, ela não existia. Um dia me ligaram para ter uma opinião a este respeito e me disseram que o Euclydes já tinha opinado. Eu achei estranho, porque eu acho que o fórum para se discutir este tipo de coisa é o estúdio. Eu liguei para o Euclydes, a gente conversou e até combinou uma resposta comum para quando fôssemos procurados para este tipo de assunto. Então eu acho que este tipo de coisa não deve ser discutida publicamente. Eu acho um absurdo o ator que dá entrevista dizendo que não está gostando do personagem e por aí adiante. O fórum para se discutir isso não é o jornal, não é a revista. É internamente, é entre quem vai poder resolver aquilo de forma ética.
Como foi a receptividade dos homossexuais aos personagens na Parada do Orgulho Gay?
Foi ótimo. A gente estava um pouco acanhado quando chegou lá, porque é sempre muito imprevisível o que pode acontecer no meio de uma multidão, ainda mais com 400 mil pessoas reunidas. Mas fomos recebidos com gritos de ''Ariel, meu amor'' e ''Te amo, Ariel'', fomos lambidos, beijados, abraçados e bolinados o quanto foi possível. E foi ótimo. A gente já ia, independentemente da novela. Achávamos que se estamos fazendo estes personagens, valia a pena ir lá para homenagear os caras. Para dizer: ''Olha, a gente está aqui com vocês e a gente é a favor da diversidade''. Quando o Euclydes e o Dênis ficaram sabendo que a gente ia, resolveram incluir a presença dos personagens para a novela. O que eu não sei é como o que a gente gravou lá vai aparecer. Eu não tenho a menor idéia do que aquilo vai virar.
Você acredita que cumpre uma função social importante ao imprimir elegância e discrição a um tipo de personagem que geralmente é tão estereotipado na tevê?
Nossa intenção nunca foi levantar nenhuma bandeira. O meu compromisso sempre foi e vai ser até o fim da novela com a ficção. Mas o caminho que a gente escolheu foi o do respeito a estas pessoas. Eu, particularmente, respeito os conflitos, o senso de humor, a inteligência, a burrice, a alegria e a tristeza do Ariel. Então minha preocupação é ser sutil, discreto, elegante e, sobretudo, respeitar este tipo de personagem, que em geral é tratado de maneira muito depreciativa na tevê.
Como você se preparou para construir o Ariel?
Eu não me preparei. Eu posso inventar uma teoria, dizer que fiz isso, fiz aquilo, mas a verdade é que eu não fiz nada. Eu sei que deve ser muito sensato que um ator estude, se prepare, pesquise, elabore, mas eu não faço isso. Uma semana antes das gravações, a gente fez uma leitura com o autor. E só. Eu guardei os capítulos em casa e só toquei neles quando comecei a gravar. Claro que tinha uma memória para mim, porque eu já fiz homossexual em filmes e no teatro e já fiz uma mulher no teatro. Então, talvez isso tenha me voltado de alguma maneira, num ritmo, num jeito de me movimentar, de me postar, de olhar, de me virar. Mas daí a dizer que eu fiz esta ou aquela investigação é mentira. Acho que isso é absolutamente irresponsável, mas é a verdade. Eu peguei o texto e fui gravar.
Pode-se dizer então que você parte do texto para compor um personagem?
É isso. Para mim, vale o que está escrito. Eu acho que texto de televisão, texto de cinema, texto de teatro é tudo ruína. Você edifica esta ruína interpretando. O seu papel é saber pegar um monte de tijolo desarrumado e fazer daquilo uma casa habitável.
Você alcançou um estágio da carreira almejado por qualquer ator: a possibilidade de escolher os seus trabalhos. Que critérios você usa na hora de aceitar ou recusar um papel?
É sempre muito complicado decidir entre este ou aquele papel. Agora mesmo eu estou em dúvida entre três ou quatro trabalhos no teatro. Mas, se eu for pensar no critério, eu acho que é um só: é preciso que me desafie. Eu fico um pouco desesperado com uma certa mesmice à qual a gente é obrigado, principalmente na televisão. Se você dá certo como um determinado personagem, fica praticamente condenado a repeti-lo por um bom período. O que me fascina é a possibilidade de conseguir tocar no coração e na inteligência de uma pessoa. Se eu conseguir isso, acho que o trabalho foi completo. E eu acho que só se consegue isso com alguma coisa desafiadora, alguma coisa que fuja da mesmice.


