Muito além das aparências
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quarta-feira, 23 de julho de 2008
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Quando estreou como crítico da revista ''Cahiers du Cinema'', em 1987, Frédéric Strauss logo se interessou pela obra do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. ''Ele já tinha uma reputação de provocador, mas ninguém havia percebido suas qualidades. Assim, para um 'crítico novato' como eu, interessava compreender um 'cineasta novato', além de me agradar a idéia da provocação'', diz Strauss, comentando o livro ''Conversas com Almodóvar'', lançado esta semana.
Strauss tornou-se, segundo o próprio Almodóvar, no interlocutor que melhor o entendeu, criando a intimidade necessária para discutir sobre sua carreira. Assim, no livro é possível descobrir como o cineasta trabalha com as cores, seleciona as músicas e se relaciona com os atores, confessando ser Chus Lampreave (de ''Maus Hábitos'') sua atriz preferida, além dos problemas provocados por Gael García Bernal, em ''Má Educação'', e sua dificuldade em se vestir de mulher.
As entrevistas ajudaram a corrigir mitos sobre Almodóvar?
A provocação parecia ser a visão do telespectador, não a de Almodóvar. Levei tempo para realmente aceitar isso: pensava que, quando Almodóvar primeiro me disse que não tinha nenhuma intenção de provocar, ele não estava sendo sincero. Mas ele é extremamente autêntico, como homem e diretor: ele se atreve a mostrar o que gosta, o que o move, emociona, fascina. Ele é, acima de tudo, um lutador de causas diversas, conectadas com as necessidades humanas, com o sentido da vida, muito além das aparências.
Almodóvar sempre manteve uma relação de amor e ódio com a indústria de cinema da Espanha. Ele ainda não é devidamente reconhecido em seu país?
Parece que a situação vem evoluindo devagar. ''Volver'' representou algo muito forte na Espanha: o retorno de Carmen Maura, que é muito popular, e a abençoada relação cinematográfica com Penelope Cruz, a queridinha do país. Também a presença do folclore da região de La Mancha, que garantiu uma forte presença espanhola. Assim, em seu próprio país, Almodóvar pode agora ser considerado embaixador da Espanha, título que ele ostenta no exterior há muito tempo. Para os tradicionalistas, no entanto, ele permanece como inimigo, o que ainda o afeta muito.
O que você acha da frase de Peter Travers, da ''Rolling Stone'', de que ''Almodóvar não apenas faz filmes - ele representa seu próprio cinema''?
É verdadeira em mais de uma forma. Primeiro porque Almodóvar é provavelmente o cineasta que mais conectado está com a história do cinema mundial. Basta lembrar da homenagem a Sophia Loren em ''Volver'', cheia de vida, prazerosa. O mesmo pode ser dito sobre ''A Malvada'' quando se fala em ''Tudo Sobre Minha Mãe''. Mas, acima de tudo, Almodóvar representa seu cinema porque todos os seus filmes são sobre Almodóvar. Sua obra é como um auto-retrato através de personagens que carregam parte de sua trajetória, de seus gostos, de seu próprio universo. E a linguagem é acessível a todos os espectadores. Um exemplo: quando Almodóvar convida Caetano Veloso, em ''Fale com Ela'', tem relação com seus gostos e sua vida. Afinal, ele ama a música ''Cucurucucu Paloma'' na interpretação de Caetano, que é um amigo querido. E o resultado não é desfrutado apenas pelos amigos, mas, ao contrário, tornou-se uma das cenas mais tocantes do filme.
Quais as contribuições de Almodóvar para o cinema?
Em termos estéticos, seus filmes abriram novas perspectivas e criaram uma espécie de ''arte visual remix'', muito representativa nos tempos atuais. Também a forma com que ele une cinema e escrita (em filmes como ''Má Educação'' e ''A Flor do Meu Segredo'') é única, além de revisitar a cultura clássica como o teatro. Almodóvar coloca ainda a relação entre diretor e atores no centro do processo, a ponto de os não-profissionais ganharem uma rara evidência, transformando a arte de direção em algo quase antiquado. Em resumo, eu diria que todo o trabalho de Almodóvar engrandeceu o cinema, comprovando sua capacidade e a força de sua linguagem.


