Eu sou feita de palavras. O ser humano é um veículo de palavras. Por dentro e por fora, elas estão ali para nos dar sentido. A espécie humana é a única que fala com linguagem articulada, até que provem o contrário e meu gato dite o bê-á-bá todinho.
Muito antes do nosso nascimento, antes mesmo que disséssemos ''a'', as palavras estavam ali, como um eco de fora pra dentro, dizendo que, uma vez vivos, damos o salto para a articulação dos sentidos. Nossos ancestrais, os macacos, estes sim não têm palavras. Quebram o coco e não dizem que é coco. Nós quebramos o coco e pensamos fruta, água, trópicos.
Já tentei o exercício zen de ficar sem palavras, lá dentro, sem os meus mais íntimos pensamentos. Mas me lembro que mesmo o vazio era palavra, como quem derrama uma caixa de letrinhas de madeira, destas que servem para alfabetizar crianças e, mesmo na desarticulação, uma letra vem nos lembrar que é ''uva'', ''viagem'' ou ''estrela.'' Que palavra linda é estrela, a gente diz e ela já vem estrelando, brilhando com a explosão da verdade de que o mundo é grande, muito grande, e a gente precisou dar nome a tudo, se não, esqueceria a metade.
Eu acho muito triste quando alguém não se lembra de mais nada. Que Deus me livre deste ostracismo, do silêncio da falta de memória, de não poder alinhavar os pensamentos, encadeando-os com as letras mais belas. ''S'' de solar, ''G'' de gérbera, ''T'' de travessia. O ''Z'' é mais ''difízil'', mas vem o azar e Sherazade a nos salvar da falta de memória, da falta de história, da caduquice da falta de articulação.
Gosto muito das palavras. Em algumas línguas, como o português, elas são essencialmente musicais. Viram quanta música há nesses ''esses'', pronunciados como quem arrasta a surpresa do canto da cigarra no céu da boca?
Há línguas que têm raízes telúricas, acho que a africana é assim. Felicidade em africano é ''boyakodah'', sei disso porque um grupo de dança tem uma coreografia com este nome lindo: boyakodah, que me lembra uma aldeia onde todos são felizes.
Felicidade pra mim é conhecer palavras, brincar com palavras como uma bailarina que arrisca um salto dentro da língua, quanto mais difícil a palavra maior o salto, exigente e caprichoso.
Mas que as palavras sirvam para coisas mágicas, abracadabras que nos dão o passe para ser feliz, como um time que joga no domingo à tarde e a torcida fica esperando para gritar gooooollll, desde sempre o mantra do Brasil.
Então, que a gente grite gol e seja feliz em Boyakodah, como as tribos telúricas que dão sentido à palavra de acordo com a paisagem, a cultura da paisagem, que se transforma em nomes tão belos quanto poemas. Já pensou em se chamar ''Lua Subindo'', ''Rio Nascendo'', ''Terra que Abençoa''? Quer coisa mais telúrica do que ''Terra que Abençoa?''
E, assim, me despeço com palavras, como quem faz o último passo da coreografia e cai no chão satisfeito, por se deliciar com o gozo de tramar estas frases, tecer uma história, graças à imaginação que nos faz falantes como uma espécie única, dando a cada coisa um nome, um mostruário possível do esplendor da vida, muito maior que a sintaxe.

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