Qualquer pessoa que tenha a pretensão de analisar ‘‘Quem Vai Ficar com Mary?’’ como uma obra de arte deve ter a cabeça examinada. É o tipo de filme que não pode ser levado a sério. Para se divertir com as cenas absurdas e escatológicas, é preciso deixar a razão e o senso crítico na porta do cinema. Talvez, por esse motivo, o filme vem agradado tanto à garotada. Desprovidos de preconceitos e puritanismos, os adolescentes têm sido os grandes responsáveis pelo estrondoso sucesso dessa comédia irreverente e politicamente incorreta.
Nos Estados Unidos, ‘‘Quem Vai Ficar com Mary?’’ desbancou ‘‘O Resgate do Soldado Ryan’’, a sensação do momento, ocupando um honroso segundo lugar nas bilheterias. O filme já faturou mais de US$ 100 milhões nos Estados Unidos, batendo a renda de ‘‘Arquivo X’’. O mesmo sucesso deve se repetir no Brasil. Desde sua estréia, no dia 18, as salas têm estado lotadas de espectadores que racham o bico de tanto rir. O motivo? É difícil de explicar. Afinal, o filme é uma baboseira do começo ao fim. Porém, é impossível ficar indiferente vendo Matt Dillon fazendo respiração boca a boca num cachorro ao som de Aquarela do Brasil.
Entre outras baboseiras espalhadas por quase duas horas de projeção, o público vai ver o protagonista Ben Stiller, uma espécie de dândi do cinema independente, prender o pênis no zíper (a cena não esconde nada) e Cameron Diaz, bela como sempre, usar sem saber, o resultado de uma masturbação de Stiller como se fosse gel para o cabelo. Esses são apenas alguns exemplos dessa comédia escatológica dirigida pelos irmãos Peter e Bobby Farrely, responsáveis pelo grotesco ‘‘Debi & Lóide - Dois Idiotas em Apuros’’.
Mas o motivo do sucesso de filmes como ‘‘Quem Vai Ficar com Mary?’’ é a identificação do público com os personagens. Ao contrário de heróis bonitos, fortes e invencíveis que aparecem na maioria dos filmes, aqui eles são mostrados como seres humanos comuns e suscetíveis às fraquezas e fatalidades da vida. Ted (Ben Stiller), é um protagonista que não tem nada de herói. É um nerd desengonçado, com espinhas no rosto e aparelho nos dentes. Um perdedor, cujo único sonho é conquistar a mulher amada. E nem isso ele consegue. ‘‘Quem Vai Ficar com Mary?’’ é um filme sem herói e sem mocinho, que coloca à mostra as escatologias individuais que poucos têm coragem de assumir. É o homem rindo de si mesmo. Apesar do tratamento absurdo dado aos fatos, eles são passíveis de acontecer com qualquer um.
Os puristas vão detestar, é claro. Mas os irmãos Farrelly acertaram na mosca. A escatologia parece estar na moda. Não é à toa que a Helma Chips já lançou a sua. Dentro dos pacotes de chips, as crianças encontram brindes feitos de uma borracha pegajosa que imitam olhos, orelhas e pedaços de dedos humanos. A garotada está vibrando. Esta aí, com certeza, a explicação para o sucesso de ‘‘Quem Vai Ficar com Mary?’’ que, para apimentar a trama, tem um cachorro que consegue ser mais engraçado que o Verdell de ‘‘Melhor É Impossível’’. A cena em que o totó fica doidão depois de ingerir drogas é impagável.
Para quem não sabe vai uma dica: as legendas não traduzem o nome do filme preferido da personagem de Cameron Diaz. No Brasil, ‘‘Harold and Maude’’ foi traduzido como ‘‘Ensina-me a Viver’’, um grande sucesso dos anos 70, que contava a história de um adolescente apaixonado por uma velhinha de 80 anos. Outra dica: todo o guarda-roupa de Mary foi criado pelos estilistas Donna Karan, Susan Lazer, Daryl K. e Calvin Klein.

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