Jayme Monjardim é o que se costuma chamar de ''rei do markenting''. Talvez como herança dos seus trabalhos na publicidade, entre os egos dilatados dos criadores e as inclementes pressões dos clientes, Jayme adota um estilo diplomático pouco comum nos sets de gravação de novelas. Sempre educado e atencioso com todos que o cercam, aos 45 anos se transformou em um dos diretores mais importantes da emissora. A maior prova é que, após seu retorno à Globo - ocorrido em 1998 depois de alguns anos no cargo de diretor-artístico da extinta Manchete e ainda por uma rápida passagem pela Band -, ele volta a comandar uma novela no horário nobre: ''O Clone'', de Glória Perez, com estréia marcada para o dia 1º de outubro. A primeira foi ''Terra Nostra'', de Benedito Ruy Barbosa. ''Sou muito simples e gosto de trabalhar em equipe. Mas cada diretor tem seu estilo próprio de comandar'', ensina o diretor, mais uma vez esbanjando sua habitual diplomacia.
A aparente calma, no entanto, vai dando lugar a uma indisfarçável ansiedade na medida que vem chegando a estréia da novela. Bebedor compulsivo de café, entre um gole e outro, ele vai descrevendo freneticamente todo o projeto elaborado e executado há quase um ano para a novela das oito. ''É uma trama que tem boas histórias para serem contadas e não tenho dúvida que haverá uma grande mobilização do público'', prevê. Só que ele é o primeiro a reconhecer que os temas abordados na história criada por Glória Perez - religião muçulmana, drogas e clonagem - são assuntos extremamente polêmicos. ''Mas são questões que a sociedade tem a vontade de discutir'', enfatiza Jayme.
Quais as maiores dificuldades de fazer uma novela que trata de assuntos tão polêmicos como religião muçulmana, clonagem e drogas?
O importante numa novela é ela vir por algum motivo. E a discussão sempre foi uma marca registrada nas histórias contadas pela Glória Perez. No caso de ''O Clone'', falta ainda uma compreensão maior em relação à religião muçulmana. Vamos mostrar como vive uma família tipicamente marroquina e mostrar porque as mulheres de lá andam com a cabeça coberta por lenço, por exemplo. Pela forma que a gente gravou, as pessoas vão acabar entendendo um pouco este mundo tão distante. Quanto à clonagem, a novela vem para levantar esta discussão mundial. Trata-se de um assunto que vem sendo discutido e vamos mostrar toda ética em cima da clonagem humana. Já o tema das drogas, acho fundamental qualquer campanha que seja feita na televisão para combater este problema, que tanto afeta a sociedade mundial.
Você, então, acha que as novelas realmente devam ter esta função social...
Sempre vi por este lado. Todas novelas que dirijo têm um conteúdo social e também cultural. Sempre procuro levantar uma bandeira para ser discutida. Por isso, não tenho a menor dúvida de que as novelas têm a obrigação de trazer algo substancial também, que não seja apenas distração. Se conseguir reunir entretenimento e cultura, melhor ainda para nosso trabalho.
A clonagem vem sendo discutida sistematicamente na mídia. Todas estas notícias sobre a clonagem ajudam ou atrapalham a divulgação da novela?
Não tenho a menor dúvida que ajudam. E muito. Qualquer que seja a divulgação, é importante para o nosso trabalho. E como disse, a polêmica é uma das marcas registradas nos trabalhos da Glória. Posso até dizer que ela é uma autora meio profética. Quando ela tornou pública a discussão da barriga de aluguel numa de suas novelas, era ainda uma assunto pouco difundido. Teve uma outra novela também em que ela já falava de internet. Hoje, é um assunto que domina todo mundo. E agora, ela vem com a clonagem e ainda por cima, mostrando todo o universo muçulmano.
O que mais impressionou na cultura marroquina quando você esteve na África?
É um país fascinante, que ao mesmo tempo tem inúmeras culturas. Marrocos consegue estabelecer nas regiões Norte, Sul, Leste e Oeste situações e costumes completamente diferentes umas das outras. Eles vivem uma cultura regionalizada mesmo. No Sul, por exemplo, as mulheres andam completamente cobertas, todas de preto e são meio nômades. Já na região Norte, a presença mais forte é da cultura espanhola. Lá há uma quantidade de locais e culturas muito diferentes do comum. Não é a toa que o Marrocos se tornou uma grande localização cinematográfica no mundo. Grandes estúdios estão localizados em Marrakesh, por exemplo. E o Brasil, através dos personagens criados por Glória, vai ter a oportunidade de conhecer agora também.
Quando vocês estavam escalando o elenco para esta novela, alguns atores como Fábio Assunção, Ana Paula Arósio, José Mayer e Letícia Spiller acabaram recusando o convite. Isto não traz algum certo desprestígio?
Qualquer novela da Globo que esteja em fase de preparação tem uma grande dificuldade em fechar o elenco. Não é somente com ''O Clone'' que isso acontece. O Fabinho e Ana Paula, por exemplo, só não aceitaram o convite porque já vinham de outros trabalhos. Preferiram descansar suas imagens, que foram exploradas na minissérie ''Os Maias''.
Então, por que houve todo este barulho?
Sinceramente não sei. Mas acho que foi uma precipitação da própria imprensa. Como disse, escalar elenco é um grande jogo de xadrez. Principalmente nesta novela, que tem três fases. A trama tem 20 anos de passagem de tempo. Então, é complicado achar atores que possam fazer as três fases. Também ficamos 40 dias fora do país gravando. Não são todos atores que têm esta possibilidade de se ausentar por tanto tempo do Brasil. ''O Clone'' não é uma novela simples de fazer. Ela não é ambientada apenas no Rio de Janeiro. Quando tem todas estas dificuldades que enumerei, é normal esta complicação para a escolha de elenco.
''O Clone'' é a primeira novela que você dirige depois do sucesso de ''Terra Nostra'', de Benedito Ruy Barbosa, que garantiu que nunca mais trabalha com você. O que realmente aconteceu entre vocês dois?
Eu e o Benedito vivemos uma relação de marido e mulher. Para mim, ele é um dos maiores autores de novelas de todos os tempos. Só que somos pessoas emotivas e passionais como todo mundo. O que aconteceu foram discussões normais e corriqueiras entre autor e diretor. Todas as discussões entre nós foram normais. Não vejo o menor problema em voltar a trabalhar com ele.
Ele disse que, quando você dirigiu ''Aquarela do Brasil'' - a minissérie foi ambientada na Segunda Guerra Mundial -, copiou a idéia dele, que seria explorada na segunda fase de ''Terra Nostra''...
Acho que a história que contamos em ''Aquarela'' de maneira alguma afeta ''Terra Nostra 2''. Seria a mesma coisa achar que estaria bloqueando toda uma fase: no caso a Segunda Guerra Mundial, que tem tantas coisas para serem contadas ainda. Exploramos mais a Era do Rádio quando fizemos a minissérie.
O Benedito já disse que o Luiz Fernando de Carvalho é quem vai dirigir a possível continuação de ''Terra Nostra''. O que você achou de ficar fora deste projeto?
O Luiz Fernando é um grande parceiro do Benedito. Já fizeram um excelente trabalho juntos em ''O Rei do Gado''. Então, sempre é importante mudar um pouco. Acho que o Luiz Fernando volta a trabalhar com ele numa boa hora. É importante ter uma nova visão, principalmente se o trabalho for uma continuação, como andam dizendo por ai. Também já fiz vários trabalhos com o Benedito e quem sabe num futuro a gente não volte a trabalhar juntos. Estou sempre 100% à disposição dele, que é um gênio. Não deixei de falar com ele por causa de tudo isso. Como já disse: a relação de diretor e autor é igual de marido e mulher. Então, cabe ao diretor artístico da Globo, Mário Lúcio Váz, apresentar e fazer estas novas parcerias.
Você realmente é um diretor que gosta de interferir no trabalho do autor?
É fundamental a participação do diretor no trabalho do autor. E vice e versa. O autor tem de saber entender o que o diretor acha daquilo do que ele está escrevendo. Como também o diretor tem de saber respeitar a opinião do autor em sua direção. A base da vida é o equilíbrio. Novela é uma obra aberta. Então, qualquer diretor tem de ter esta troca e sintonia com o autor. Por isso, estas parcerias e ''casamentos'' existem, o que gera uma tranquilidade natural entre diretor e ator.

mockup