Uma misteriosa visita do físico alemão Werner Heisenberg ao seu mestre, Niels Bohr, no ano de 1941, na Dinamarca, é o ponto de partida – e de questionamento – do dramaturgo inglês Michael Frayn, autor do texto que será encenado hoje no Festival Internacional de Londrina (Filo). O grupo Teatro de La Gaviota, do Uruguai, leva ao palco do Teatro Zaqueu de Melo, às 19 horas, sua versão de ‘‘Copenhague’’.
A companhia uruguaia tem 25 anos de estrada e em seu repertório carrega espetáculos ‘‘que refletem o homem da atualidade’’. Em ‘‘Copenhague’’, os personagens são interpretados pelos atores Júver Salcedo (Bohr), Humberto de Vargas (Heisenberg) e Mary da Cuña (Margrethe).
Em plena 2ª Guerra Mundial, a cidade de Copenhague foi o cenário do encontro dos dois velhos amigos e grandes físicos do século 20. Frayn montou o texto ficcional a partir desse encontro histórico, sobre o qual não se tem mais informações. O ator Júver Salcedo narra que na visita do Heisenberg a Bohr, na casa em que o mentor morava com a esposa Margrethe, os dois cientistas saem para conversar no campo, longe dos microfones ocultos instalados na casa. ‘‘Depois, eles nunca mais voltaram a se ver ou a se falar. É sobre isso que Michael Frayn fala no texto’’, explica.
O que Heisenberg – chefe do projeto nuclear nazista e o maior cientista que havia permanecido na Alemanha – teria a conversar com Bohr – que mantinha contato com os aliados? ‘‘Há várias possibilidades’’, analisa Júver Salcedo. Teria Heisenberg tentado sabotar o plano atômico dos nazistas? Ou teria o alemão pedido a Bohr para terminar a construção da bomba? Uma carta de Bohr nunca enviada a Heisenberg dá conta de que o físico alemão teria se empenhado decididamente na tentativa de criar uma bomba atômica de Hitler.
Em ‘‘Copenhague’’, o autor discute temas que vão muito além das questões científicas. A peça de Frayn não aborda apenas física quântica, mas extrapola esses limites e trata de questões humanas. Fala de ética, dos caminhos da humanidade e da condução que alguns homens dão ao mundo movidos pela frieza de raciocínio. ‘‘O importante não é que o espectador compreenda a física quântica, mas sim que ele aprecie a relação entre os três personagens’’, comenta Humberto de Vargas.
O texto longo e denso é um desafio para diretor e atores, já que não se prende a marcações. O Teatro de La Gaviota optou por montar uma versão dinâmica, mais enxuta, enfocando questões mais específicas, para que o entendimento do texto fosse facilitado. A versão uruguaia é levada ao palco com 1h20 (com 10 minutos de intervalo).
A montagem também prima por uma movimentação cênica – apoiada no texto – mais atrativa e dinâmica, quase permanente. ‘‘Mais do que personagens, buscamos interpretar pessoas, considerando-se tratar de três figuras que realmente existiram. Não é um jogo muito teatral. É um jogo de conversação coloquial’’.
No início, Júver Salcedo conta que o La Gaviota teve receio da reação do público, devido à complexidade do texto, mas aos poucos acabou se surpreendendo com a platéia. Por ser um trabalho denso, este não é mesmo um espetáculo para quem quer somente se divertir.
O Teatro de La Gaviota vem encenando ‘‘Copenhague’’ há sete meses. No ano passado, o texto de Michael Frayn teve a primeira montagem brasileira levada aos palcos, sob direção de Marco Antonio Rodrigues, com Oswaldo Mendes e Carlos Palma nos papéis dos cientistas. Montado em várias cidades européias, o texto foi premiado na França com o MoliSre e nos Estados Unidos com o Tony.
SERVIÇO:
‘‘Copenhague’’ – Espetáculo do Teatro de La Gaviota, do Uruguai. Texto: Michael Frayn. Direção: Jorge Denevi. Elenco: Júver Salcedo, Humberto de Vargas e Mary da Cuña. Sonoplastia: Leonardo Geicher. Operação de luz: Virginia Cardinal. Duração: 1h20.

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