Elisa Marilia Carneiro
De Curitiba
O espetáculo ‘‘Divíduo’’ da Companhia de Dança Quasar de Goiânia, anteontem, no Teatro Guaíra, em Curitiba, foi impecável. A proposta da montagem é retratar, com a linguagem da dança contemporânea, a vida fragmentada da atualidade, a dificuldade de comunicação entre as pessoas e fazer uma abordagem sobre os escapes inventados pela sociedade moderna.
Para tanto, colocou, no palco, dois apartamentos onde quatro excelentes bailarinos dançam com a criatividade que só os vanguardistas têm a capacidade de perceber. O coreógrafo Henrique Rodovalho foi além. As situações do momento, vividas pela maioria arrasadora das pessoas, entram em cena de forma inédita.
É o caso de um entregador de pizza que é chamado no início do espetáculo e, ao chegar, é conduzido ao palco. O ‘‘nosso’’ (de Curitiba) comportou-se de forma inusitada. Entrou no palco, tropeçou no tablado, olhou a platéia, cobrou a pizza, deu o troco e um tchauzinho. Saiu sob os aplausos que poucos conseguem no seu primeiro dia em cena.
Por sua vez, o rapaz que atendeu no serviço ‘‘disque-erótico’’ foi sofrível e pouco criativo. Por mais que a bailarina tentasse provocá-lo, João não deu conta do recado. Nem por telefone.
Outra forma de interferir no dia-a-dia, fez o coreógrafo levar à rua um dos bailarinos. Ele dança em perfeita sincronia com a bailarina que fica em cena, no palco. Com a vantagem de uma assistência incrédula e pega de surpresa. A platéia assiste a cena projetada numa parede.
Os bailarinos dançam vestidos com roupas cotidianas e mais uma vez esse recurso reforça o reconhecimento do dia-a-dia. Numa cena, com ritmos de capoeira, os bailarinos executam movimentos em dupla, sem no entanto se encontrarem. Seus corpos se cruzam, voam um por cima do outro, se entrelaçam numa dança da solidão.
A trilha sonora, de Hendrik Lorenze, compõe a montagem de ‘‘Divíduo’’ em perfeita compatibilidade. Usa recursos tão criativos quanto a coreografia, como vozes, ecos da cidade e depoimentos.

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