A biografia de Paulo Leminski, ‘‘O Bandido que Sabia Latim’’, está evaporando das livrarias paranaenses. Na Chain, em Curitiba, restavam ontem de manhã apenas cinco exemplares de um total de 150 volumes adquiridos junto à editora Record no começo do mês.
O fenômeno se repete em Londrina, onde o título mal se acomoda nas prateleiras e já sai empacotado do balcão. Ontem, estava programada uma sessão de autógrafos na livraria Cultura de São Paulo, com a presença do autor Toninho Vaz. A imprensa tem dado grande destaque ao livro, cujo lançamento coincide com o anúncio da reedição do anti-romance ‘‘Catatau’’ e a chegada às livrarias de outras duas obras que homenageiam Leminski.
Uma é a coletânea ‘‘Anseios Crípticos 2’’ (Criar Edições), que reúne textos curtos em prosa do poeta da Cruz do Pilarzinho, e a outra é o ensaio crítico ‘‘Aço em Flor – A Poesia de Paulo Leminski’’ (Autêntica), de Fabrício Marques. A coletânea raspa o fundo do tacho completando o projeto da editora Criar, que lançou o primeiro volume em 1986.
O segundo volume deveria sair no ano seguinte, mas seus originais acabaram sumindo depois de três mudanças de endereço da editora e o cancelamento provisório das suas atividades em razão das oscilações dos planos econômicos. Agora, quinze anos depois, os textos foram recuperados – como lembra a nota de apresentação – ‘‘no fundo de uma caixa na qual deveriam estar apenas exemplares de antigos suplementos literários’’.
Nunca reunidos em livro, os escritos trazem à luz a verve polemista do poeta revelada em prefácios, artigos e ensaios. Alguns textos saíram em jornais e revistas de circulação nacional e outros foram publicados em jornais de tiragem restrita ao Paraná. Nas páginas, Leminski aborda temas como a poesia beat e a atividade da tradução, além de discutir as obras de Rimbaud, James Joyce, John Lennon, Euclides da Cunha, Yukio Mishima, Brecht, Haroldo de Campos, Dante, Walt Withman, Lawrence Ferlinghetti, Samuel Becket, Sartre, Petrônio e Guimarães Rosa.
‘‘Consolem-se os candidatos. Os maiores poetas (escritos) dos anos 70 não são gente. São revistas’’ – assim começa seu texto sobre publicações editadas na época como Navilouca, Código, Pólem e várias outras que ele cita e comenta. Mas paralelamente a ‘‘Anseios Crípticos 2’’, os leitores já começam a receber os primeiros estudos sistemáticos sobre a obra do ‘‘parnasiano-chic’’, como ele se audodefinia.
Em ‘‘Aço em Flor – A Poesia de Paulo Leminski’’, o ensaísta mineiro Fabrício Marques mapeia a vida intelectual do poeta e o período em que atuou atribuindo à sua poesia uma ‘‘função libertadora’’ em relação aos dogmas poéticos vigentes. A reflexão parte de quatro grandes linhas de força: ‘‘concisão’’, ‘‘informação’’, ‘‘invenção’’ e ‘‘consciência semiótica’’.
O livro é resultado de uma dissertação de mestrado apresentada ao curso de Pós-Graduação da Faculdade de Letras da UFMG. Vem na esteira de ‘‘O Catatau de Paulo Leminski, (Des)coordenadas Cartesianas’’, de Tida Carvalho, e ‘‘Catatau: as Meditações da Incerteza’’, de Rômulo Valle Salvino (que já prepara outro volume de ensaios sobre o mesmmo autor), ambos lançados no ano passado.
‘‘Catatau’’, como se vê, continua desafiando os exegetas. Uma década depois de sua última edição, a enigmática obra deverá pular outra vez da gráfica em outubro pela editora gaúcha Sulina. Foi o primeiro livro de Leminski, em cuja elaboração o autor levou oito anos para colocar-lhe ponto final. Difícil, inacessível para o leitor médio, é um dos grandes exemplos de prosa experimental bem-sucedida.
Quando foi lançado, o crítico Leo Gilson Ribeiro o classificou como uma obra-prima. Sua prosa é herdeira da linhagem de ‘‘Finnegan’s Wake’’ de James Joyce, ‘‘Galáxias’’ de Haroldo de Campos e ‘‘Grande Sertão Veredas’’ de Guimarães Rosa. A narrativa traz um longo monólogo de René Descartes, ambientado na cidade de Recife na época das invasões holandesas do século XVII. Não há parágrafos nem capítulos, apenas uma fabulação labiríntica que explode os gêneros literários.
Por isso, é imensa a curiosidade sobre a transformação de ‘‘Catatau’’ em filme, projeto já anunciado pelo cineasta Otávio Bezerra. Mas o interesse em torno de Leminski parece inesgotável. Além dos títulos citados acima, está previsto para breve o lançamento de um CD-ROM multimídia sobre o poeta. O trabalho traz a assinatura do cineasta Paulo Munhoz que, para elaborar o acervo de imagens, contou com a colaboração e participação de Alice Ruiz (ex-mulher de Leminski), das filhas do poeta Áurea e Estrela, além de amigos como Sérgio Machado e Daniela Michelena.
Só falta agora a editora Brasiliense atualizar seu catálogo e colocar os volumes de poesia novamente para circular.

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