Uma galeria de personalidades da vida social e política londrinense desfila, sem qualquer traço de altivez, pelas páginas do novo livro do jornalista e escritor Edison Maschio.
Se os dois primeiros títulos do autor eram romances, ainda que inspirados em fatos reais, ''Histórias Ocultas'' abandona a prosa de ficção para trazer à tona observações críticas sobre episódios, personagens e costumes que marcaram o Município ao longo de seus 75 anos.
Um caldo de memorialismo escorre do volume - uma compilação de artigos escritos em períodos diversos, a maioria tematizando desvios de conduta de políticos locais. Maschio tem a mesma idade de Londrina. Nascido em Assis (SP), chegou ao Norte do Paraná em 1938. De lá para cá, cansou de ver escândalos envolvendo vereadores.
''No campo político, várias figuras subiram na carreira por acaso ou à custa de expedientes manhosos, ao arrepio de qualquer escrúpulo. O Legislativo conviveu com uma camada de corruptos e abrigou um Barba Azul que tinha 14 mulheres, além de ser assassino'', assinala ele, sem papas na língua.
Para Maschio, o escritor é um franco atirador, alheio às pressões de poderosos. ''Não recebemos apoio oficial, portanto, estamos livres para escrever. Não temos compromisso com a mediocridade'', diz. Por outro lado, segundo ele, ''o mercado editorial está abarrotado de autores estrangeiros que surgem respaldados pela propaganda e tratados como gênios da literatura''.
Ele alerta: ''Temos que refletir os valores e a cultura de nossa sociedade. Precisamos nos despojar de modelos importados''. Ao longo das 117 páginas de seu novo livro, Maschio dedica várias linhas ao universo da imprensa londrinense.
Lembra que o município foi um celeiro de jornais independentes entre o final da década de 40 e os anos 70, quase todos sucumbindo por falta de visão empresarial. ''Houve época em que circulavam cerca de 10 publicações na cidade, todas denunciando golpistas e aventureiros que vinham à região na fase áurea do cafeicultura. O problema é que seus responsáveis não possuíam noção comercial do negócio, não investiam os lucros no próprio jornal. Tudo o que ganhavam era torrado em farras, daí não terem sobrevivido'', explica o escritor, que foi chefe de Redação da ''A Gazeta do Norte'' e fundador do ''Diário de Londrina''.
Para a abertura do volume, o autor selecionou dois textos sobre a boemia londrinense de décadas passadas, com ênfase na rede de bordéis. ''A zona do meretrício de Londrina foi a maior colônia de prostitutas do interior do país. Essa fama projetou o nome da cidade além da fronteiras do Estado, servindo como uma espécie de cartão de visitas do município'', salienta.
Ele lembra que uma das casas, a Boate Colonial, foi palco para shows de artistas como o músico Booker Pittman e a atriz Luz Del Fuego. ''Ela era o termômetro financeiro da cidade. A boate movimentada significava dinheiro circulando'', afirma. Outra casa, a Nova Diana, foi pioneira ao criar as festas temáticas ''Noite do Havaí'' e ''Noite das Arábias''. ''É fato conhecido, por exemplo, que à beira de sua piscina foi feita a maior transação do futebol paranaense: a venda do zagueiro Marinho, do Londrina Esporte Clube, para o Flamengo, do Rio'', conta.
Publicado sem qualquer patrocínio ou verba oficial, ''Histórias Ocultas'' já pode ser adquirido nas prateleiras locais, após ser lançado discretamente na Academia de Letras, Ciências e Artes da qual o autor faz parte. Além do novo livro, os leitores poderão encontrar exemplares do romance ''Escândalos da Província'', publicado originalmente em 1959 e reeditado em formato artesanal no início deste ano.
Maschio anuncia que, até o final de 2010, dois outros títulos poderão pular dos fornos: um volume de contos e um romance ambientado em Londrina e Assunção.

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