Muitas frentes fragilizam 'Austrália'
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Solenemente ignorado nas diversas listas oficiais das premiações de maior prestígio (Oscar, Glob de Ouro, SAG, BAFTA), ''Austrália'' está longe de ser o blockbuster que a princípio se desenhou: dos U$ 130 milhões investidos, desde a estréia mundial, há seis semanas, o filme recuperou apenas cerca de 50 milhões.
E o que não deu certo, neste mega-projeto muito pessoal do australiano Baz Luhrmann, roteirista, diretor e produtor desta saga? Já a partir do título ficam explícitas as ambições desmedidas de Luhrmann, de resto nada extraordinárias quando se sabe que extravagâncias e transbordamentos, artifícios e culto ao kitsch são marcas registradas da curta porém esfuziante filmografia dele - lembram-se de ''Romeu + Julieta'' e ''Moulin Rouge'' ?
Pois bem, a idéia do irrequieto cineasta foi fazer com ''Austrália'' um filme de inspiração nos grandes clássicos ''bigger than life'', ''maiores que a vida'', uma epopéia obviamente focada num momento histórico e paisagístico de proporções épicas e abrigando a rigor uma apaixonante trama lírico-amorosa. Os modelos são evidentes, desde o mitológico ''...E O Vento Levou'' até ''Titanic'', passando obrigatoriamente por ''Entre Dois Amores''. A referência/reverência é todo o cinema narrativo e profundamente humanista de David Lean (''Jivago'', ''Filha de Ryan'', ''Passagem para a Índia'').
Em 1939 (coincidência? foi o ano de ''...E O Vento Levou'' ), véspera da Segunda Guerra Mundial, a aristocrata inglesa Sarah Ashley (Nicole Kidman) recebe como herança uma fazenda na Austrália. Fora de seu contexto social, ela conta com a ajuda decisiva do rude vaqueiro Drover (Hugh Jackman, misturando Clark Gable com Clint Eastwood). A primeira metade, embora congestionada com a presença do subtema da discriminação racial em relação aos aborígenes e a um tom mágico-telúrico, não deixa de ser sugestiva e até funciona bem na introdução ágil de personagens e ambientações.
Mas logo a correnteza indomável toma conta da direção de Luhrmann, e o filme fica à deriva. É um cineasta brusco, que perde o controle com certa facilidade. É como se previamente ele tivesse decidido que seu filme teria 165 minutos e dissesse: bem, agora vamos ver como preenchemos aqui, e ali, e mais adiante, quem sabe colocamos um baile, e mais a guerra (o pouco conhecido bombardeio japonês à cidade de Darwin) e incrementamos o melodrama. Na superposição de vários clímax, ele quase mata à mingua a efetividade emocional do romance. E o final resulta tão previsível quanto cômodo.


