Mudando as regras do jogo
Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para a Folha2
Uma das imagens que marcaram a história da arte moderna e contemporânea com maior contundência certamente foi a roda de bicicleta sobre o banquinho, de 1913, que Marcel Duchamp fez, batizando o objeto de ready-made, algo assim como já pronto. E a arte nunca mais foi a mesma. Mas também não éramos mais os mesmos. O mundo havia passado por uma guerra mundial e qualquer tentativa de querer entendê-lo por ferramentas e pensamentos antigos, resultaria em efeito inócuo. O surgimento da psicanálise e a teoria da física quântica confirmam ainda mais essa visão.
Embora ainda soe como heresia em alguns círculos dizer que o estudo das regras da arte, como o escorço, a perspectiva, as regras de composição, de harmonia entre as cores e o bom desenho naquele sentido expressivo que se pensava antes já não são mais pré-requisitos para a criação, o fato é que saber desenhar, pintar ou esculpir, não torna ninguém artista plástico. E certamente a influência de Duchamp neste sentido - que vinha da experiência do Dadaísmo - continua sendo muito forte e duradoura, pois colocou em xeque todo o sistema de arte que até então vigorava. A arte pop, minimalismo, conceitual e a mail-art, que são alguns dos movimentos mais importantes surgidos depois dos anos 50, devem muito a ele.
No Brasil, para quem a história é um pesadelo do qual quero me libertar - que é a famosa frase do escritor irlandês James Joyce - nunca foi uma grande preocupação para ninguém, nossa arte sempre esteve entre as mais originais do planeta (fora as imitações, obviamente). Aproveitando esse campo aberto pelas vanguardas e sem medo de inventar, de experimentar, de criar e produzir, artistas brasileiros já se destacam em circuitos internacionais, como Antonio Dias, Waltércio Caldas, Tunga e outros.
Obras de artistas como Yftah Peled, israelense que escreve letras feitas com cuspe e sabão em pó em estandartes e nu, se mostra dependurado sobre outdoors na cidade de Curitiba, para demonstrar o quanto é frágil nossa capacidade de comunicação, ou como alguns trabalhos da mineira Rivane Neuenschwander, que gruda filas de formigas com durex sobre a parede, sempre trabalhando com a idéia de resíduos como elemento estético, só para citar dois exemplos mínimos em meio a esse mar de criatividade, simplesmente não possuem nada a ver com as boas regras da arte. Não é à toa que Beuys e Warhol - os dois nomes mais importantes da segunda metade do século XX - disseram que Todo homem é um artista e Glauber Rocha - o inventor do cinema novo - que basta ter uma câmera na mão e uma idéia na cabeça para fazer um filme.
Isso vem demonstrar que a arte, ou a idéia que se tem de arte, está muito mais próxima das questões que vivemos do que muita gente supõe ainda hoje. Não há como ignorar, estamos todos contaminados. A arte está em tudo e só depende de quem vê.
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