Mudança de rumo
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Mariana Trigo<br>TV Press 
Leme entra numa espécie de transe ao falar sobre seu atual personagem. Centrado e com o olhar fixo, o ator parece hipnotizado com a densidade dramática de Nando, protagonista do seriado A Lei e o Crime, na Record. Acostumado a compor papéis mais leves como o divertido soldado Peixoto de Chocolate Com Pimenta ou o atrapalhado Salomão de Uga Uga , o ator teve uma mudança brusca de perfil ao sair da Globo. Seu próprio comportamento, mais fechado e com poucos sorrisos, denunciam sua concentração no clima soturno de Nando, um assassino que teve de se refugiar no morro e chefiar o tráfico para sobreviver. Com ele, este carioca de 35 anos deixou de lado papéis de menor importância nas tramas globais para ser alçado a funções de cada vez mais destaque nos folhetins da Record. Logo de estreia, atuou como o bandido Jéferson em Vidas Opostas, passou por Caminhos do Coração como o cafajeste Rodrigo, e agora decolou para o seu primeiro protagonista: o chefão do morro Nando, no seriado assinado por Marcílio Moraes. É um papel sem sentimentalismo, um texto sóbrio, sem espetacularização da violência. Sem dúvida, é o melhor personagem da minha carreira, anima-se.
Em seu primeiro protagonista na tevê, você encabeça um seriado de ação, que é um formato sem tradição no Brasil. Como tem sido?
Acho esse formato muito interessante e vejo como dá certo em outros países, como os Estados Unidos. Me interessa a proposta dessa linguagem veloz, que conta a história com mais rapidez. As cenas ficam mais redondas, sem detalhes supérfluos. A trama caminha de uma forma mais ágil e a carpintaria do próprio texto se propõe a fazer diálogos com mais precisão, é mais sucinto. Além disso, o tratamento que o Marcílio (Moraes) dá a esse assunto é realista, acima de tudo. Ele faz esse trabalho com muita sobriedade. Não permite nenhum tipo de sentimentalismo ou espetacularização de qualquer cena ou ação.
Como assim?
Não aumenta nada. Tudo parece realidade. A produção trata de uma forma sóbria e verdadeira os fatos. Procura fazer um retrato do mundo de hoje nas grandes cidades, principalmente no Rio, refletindo sobre o assunto principal, que é o limite tênue entre a lei e o crime. A lei representada pela força do Estado e o crime representado pelas leis paralelas, como a ditada pelo tráfico de drogas e de armas. O mais bacana é que o tratamento dos personagens não é tão maniqueísta nesse formato, não existem vilões e mocinhos. Os personagens são complexos, erram, acertam, têm sonhos, frustrações e desejos. O Nando, por exemplo, mata o sogro por sempre ser humilhado por ele. Depois dessa atitude extrema, ele poderia ter se entregado, pagar pelo crime, afinal tem o Estado para defendê-lo. Mas é um cara de classe média baixa, não tem dinheiro para pagar advogado. Diante da situação de um Estado ausente, dando margem para o crescimento do poder paralelo, com tanta impunidade, ele decide fugir por medo de morrer. Está jurado de morte pelo cunhado, que é policial civil e vai atrás dele. A única alternativa do Nando é fugir, se envolver cada vez mais no crime e se fortalecer. Com isso, vira o chefe do morro. Agora, é um combate entre duas forças que têm suas armas. O Romero tem a lei, o Estado. O Nando tem os bandidos do tráfico, o exército paralelo.
Como você se inteirou desse universo da marginalidade nessa composição?
Primeiro fui entender que homem é esse, o que se passa no coração dele, o que sente, qual seu sonho. A tragédia se dá de uma forma avassaladora, a vida dele muda rapidamente e ele não tem tempo de pensar, mas é um cara ágil, de pulso forte. Isso faz com que ele esteja vivo. Entendi quem ele é quando li sobre tráfico no livro Abusado, do Caco Barcellos, além de outros livros sobre o assunto. Também assisti a alguns filmes e procurei rever longas nacionais, como Tropa de Elite e Cidade de Deus. Depois fiz um treinamento físico para ficar esperto e com preparo. Ele é superativo. Também tive aulas de aperfeiçoamento em tiro e manuseio de armas. Já tinha feito aulas de tiro para Vidas Opostas, mas agora me aprimorei mais. Procurei fazer uma radiografia desse cara e ter uma formação parecida com a dele, que é um ex-paraquedista, de físico composto, que atira bem.
Você fez personagens mais leves e puxados pela comédia na Globo. Esse é o papel mais complexo que você já fez na tevê, com uma linha dramática e uma elaboração mais densa e realista. Como você vê a abordagem desse tema da violência tão explorado na Record?
A Globo não costuma retratar a violência, a realidade da vida nas comunidades, as pessoas de classe baixa, de vida complicada em lugares hostis, com outros tipos de lei e outras autoridades. Realmente, na Globo, meus últimos personagens se aproximaram da comédia. Fiz o Salomão, um personagem cômico em Uga Uga. Depois, o soldado Peixoto em Chocolate Com Pimenta. Era outra realidade.
Como você avalia ter se destacado como ator ao mudar de emissora e em papéis com temas violentos? Se continuasse na Globo, acredita que poderia protagonizar algum trabalho?
Vim para a Record sem caso pensado. Não estava insatisfeito na Globo. Tinha acabado de fazer dois filmes, estava cansado e tinha sido convidado para fazer Sinhá Moça na Globo. Mas esperei pelo cinema e recusei a novela. Seis meses depois, o (diretor Alexandre) Avancini me falou do Jéferson, em Vidas Opostas. Disse que era um papel genial. Me apaixonei pelo personagem. Quando acabou a novela, não tinha contrato com a Record e o Avancini me levou para Caminhos do Coração, onde fiz o Rodrigo, que era um personagem mais comum, sem cores fortes. Assinei um contrato longo e continuei a parceria com o Avancini, com quem trabalho desde História de Amor. Em relação à Globo, os personagens que fiz me satisfizeram, fiquei feliz.
Mas sua carreira só
decolou na Record...
Não sei se esse meu crescimento na carreira é porque vim para a Record. Se eu estivesse fazendo novela na Globo, não sei no que estaria atuando por lá. Mas sei que o que estou fazendo aqui é muito bom. O Nando é o melhor personagem que já fiz na tevê. Não por ser protagonista, mas pela densidade, pelas questões que ele levanta, pela reflexão. Estou superfeliz com esse trabalho. Ia fazer a novela do Lauro César Muniz, Poder Paralelo, mas esse seriado foi a melhor coisa que podia acontecer. Esse trabalho é especial por também se aproximar do cinema, feito em HD, com cuidado na fotografia, na direção. Tudo isso influencia no trabalho dos atores. Personagens mais ambíguos enriquecem as atuações.


