MuBE traz exposição do escultor francês César
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sábado, 03 de abril de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 04 (AE) - A partir de amanhã (05) à noite, o Museu Brasileiro de Escultura (MuBE) apresenta a obra de César (1921-1998), um dos mais renomados escultores franceses deste século e ainda pouco conhecido do público brasileiro - apesar de ter participado com grande destaque da 9.ª Bienal de São Paulo, em 1967. A exposição é uma continuidade da retrospectiva realizada há dois anos pelo diretor do Jeu de Paume, Daniel Abadie, no célebre museu parisiense. E reconstitui, por meio de 108 obras, a trajetória do artista entre 1954 e 1992.
A mostra começa com as esculturas com restos de matéria bruta, como o aço e o ferro, que César modela por meio do maçarico. Várias fases de sua produção estão representadas, começando com as esculturas figurativas feitas no ateliê de Villetaneuse, nas quais retoma temas clássicos como o nu feminino ou demonstra a enorme expressividade do novo material construindo grandes e curiosas representações de animais como o Mosquito e o Percevejo. Nota-se em obras desses anos iniciais, como A Parisiense, uma forte influência de Giacometti. Os dois chegaram a ser vizinhos, na rua Moulin-Vert, em Paris. Mas, segundo Abadie, Giacometti vai até o osso da escultura, enquanto os trabalhos em metal soldado de César parecem criar uma pele.
Nesse processo de construção da própria linguagem artística, César vai aos poucos deixando de lado a figuração - que retoma apenas esporadicamente ao longo de sua carreira. O Homem de Villetaneuse, de 1957, já indica um claro caminho em direção ao abstracionismo. Foi no ano seguinte que César viu num depósito de ferro-velho dois pequenos cubos de cobre e se encantou com sua força. Ele acabou descobrindo o enorme potencial desse processo mecânico e criando compressões em larga escala, transformando-as em sua marca registrada.
Essas obras foram muitas vezes confundidas com uma espécie de manifesto contra a violência no trânsito - equívoco reforçado pelo fato de César ter trabalhado durante um período como instrutor de auto-escola para sobreviver. Mas nem o artista atribuiu num primeiro momento qualquer importância simbólica ao material utilizado. Segundo ele, foi o crítico Pierre Restany - ideológo do Novo Realismo e um eterno defensor das esculturas de César - que o fez tomar consciência do que há de mais rico em sua obra: a incorporação do dejeto industrial no processo de criação artística.
Como explica o historiador de arte Giuglio Carlo Argan, "César se interessa, como escultor, pelo momento negativo do ciclo industrial: aquele em que os refugos são comprimidos em blocos, para serem enviados à fundição, isto é, o momento em que a indústria encerra o seu ciclo, destrói seus produtos, reconduz esses produtos ao estado inicial da matéria bruta". Ao usar o refugo industrial da sociedade de consumo, ele estaria, de certa forma, fazendo uma crítica à sociedade contemporânea.
César não utiliza apenas as carcaças de automóvel, mas um leque amplo de materiais. Há no MuBE uma série de compressões de parede feitas de palha, cartão, plástico e até calças de brim. Apesar do caráter incontrolável desse processo de criação, o escultor foi aos poucos controlando o resultado final, aprendendo como organizar a matéria a ser prensada para obter o resultado desejado. "Suas compressões exibem um expressionismo dominado, sim, mas atrevido", resume o crítico David Bourdon, acrescentando que o artista prefere as superfícies eloquentes, cheias de detalhes que atraem o olhar.
"Nessa hora há uma linguagem do material, é como uma paleta", explicou César numa entrevista feita por Abadie para o catálogo da exposição sobre suas compressões de sucata. "Acho que todos os materiais são materiais de escultor", afirma o artista, que tem uma forma curiosa definir as inúmeras experiências que faz com os mais diferentes elementos: "Faço amor com a matéria; é técnico, é sensual, é passional."
Realmente, há uma grande sensualidade em seus trabalhos, principalmente nas superfícies lisas de suas expansões, que muitas vezes adquirem formas fálicas ou sugestivas, como um polegar maior do que ele próprio (o escultor media apenas 1,63 metros) ou um enorme seio vermelho. A expansão - movimento oposto à compressão, que parece encantar o artista exatamente pelo mesmo caráter de instabilidade que as compressões, já que é impossível determinar completamente qual será o resultado - começou a ser explorada por César em 1967.
Para realizar essas formas orgânicas curiosas e gigantescas, que atraem não apenas o olhar mas também o toque, o escultor utilizou a poliuretana expansiva (a poliuretana é misturada a um catalisador que, como uma espécie de fermento, provoca a oxigenação e expansão das moléculas da matéria plástica). Ele transformou essas experiências em performances, apresentadas em várias partes do mundo. Uma delas foi realizada em São Paulo durante a 9.ª Bienal e um desses trabalhos, Expansão Controlada, foi adquirido na época pelo Museu de Arte Contemporânea (MAC) e faz parte deste acervo.
A exposição também contempla outros núcleos interessantes da produção de César, como uma série de auto-retratos feitos a partir da década de 70 e várias obras em Homenagem a Morandi, nas quais o artista faz uma leitura quase tridimensional das naturezas-mortas do pintor italiano. Há em outro relevo da exposição outra referência mordaz à história da arte. Em 1957, César faz sua versão do célebre Déjeuner sur lHerbe, de Édouard Manet, colando sobre um fundo de cor triste e indefinida uma lata de sardinhas e outra de conserva, já vazias e amassadas.
Por um infeliz acaso, César não pôde voltar mais uma vez para ver a mostra, como estava previsto. O evento será a primeira retrospectiva do artista após sua morte, em dezembro. César, que foi amigo pessoal da presidente do MuBE, Marilisa Rathsam, era esperado na festa de abertura e havia prometido realizar uma de suas compressões de automóveis para o público, nas instalações da Volkswagen, patrocinadora da mostra. Serviço: De terça a domingo, das 10h às 19h. R$ 5 e R$ 3, estudantes. Quinta, grátis. Museu Brasileiro da Escultura. Rua Alemanha, 221. Fone: 881-8611. Até 30/5. Abertura: amanhã (05), às 20h30.


