MuBE reúne trabalhos de Sansavini e Britto Velho
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quarta-feira, 04 de agosto de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 05 (AE) - As exposições preparadas para o início deste mês pelo Museu Brasileiro de Escultura (MuBE) têm tudo para encantar o público. Seguindo na contramão da frieza conceitual que marca muitas das produções contemporâneas, os trabalhos do italiano Massimo Sansavini e do brasileiro Britto Velho (cuja mostra será inaugurada apenas na segunda-feira) falam diretamente aos sentidos e à emoção do público.
Apesar da distância geográfica e etária (Britto Velho nasceu em 1946 e Sansavini, em 1961), os dois artistas estabelecem um interessante diálogo, explorando com grande requinte as possibilidades criativas das cores e das formas orgânicas e agradáveis que constróem explorando diferentes materiais, como a pintura e o recorte de madeira.
Pode-se dizer que há algo de tipicamente brasileiro nos dois trabalhos, apesar do fato de Sansavini pouco conhecer do País quando foi convidado a inaugurar um interessante projeto de intercâmbio, por meio do qual artistas brasileiros e italianos têm a oportunidade de residir e trabalhar por aproximadamente um semestre no exterior.
Segundo ele, a alegria contagiante de seu trabalho é universal, mas reconhece que depois de alguns meses trabalhando no Brasil acabou absorvendo alguns elementos da cultura local. Logo na entrada do museu, o visitante depara-se com duas pombas estilizadas que funcionam como um portal da mostra e parecem alegorias carnavalescas.
O artista procurou aproveitar ao máximo os meses em que viveu aqui - desde janeiro ele está trabalhando no ateliê de marcenaria de Piero Caló, na Vila Madalena - e chegou até a visitar uma mãe-de-santo para compreender melhor a religiosidade e a simbologia local. Para demarcar os 70 trabalhos que produziu compulsivamente em sua estada paulistana, colocou atrás de cada obra um desenho estilizado da bandeira brasileira.
Mas o caráter lúdico e infantil é uma característica básica da obra de Sansavini, onde quer que ela seja produzida. Ele propõe ao espectador uma visita ao mundo fantástico de fábulas e mitos, mas não apenas com a intenção de provocar o deleite estético.
"A arte é um prazer da alma e da mente, mas antes de tudo é um prazer do olhar", afirma ele, reconhecendo que há em sua obra uma certa provocação, uma certa crítica em relação à frieza cerebrina da arte que domina o circuito há muitas décadas. "Acho que se pode gostar de uma obra com os olhos e a alma, mas
quando ela é excessivamente conceitual, o que deveria ser um direito e um prazer para todos acaba ficando restrito a poucas pessoas", explica.
Não é à toa que as crianças ficam completamente encantadas com o seu trabalho. O uso de materiais os mais diversos (do mármore à madeira, do espelho às lampadazinhas que iluminam o interior das estreitas casinhas) também fascinam o espectador adulto. Sansavini faz questão de ressaltar, no entanto, que sua obra comporta uma dupla leitura. Cada quadro ou escultura que ocupa a parede do MuBE (o artista gosta de chamar seus trabalhos de "objetos") dá lugar a diferentes leituras por parte do público.
Porto Seguro, por exemplo, é uma alegoria à Ilha do Nunca, de Peter Pan, mas também um bricabraque com elementos tão díspares como a tranquilidade do lar, a violência tempestuosa de Netuno ou uma referência ambígua à cidade brasileira de mesmo nome. Outro exemplo é Torno e Telaio 1999, obra na qual o artista procura dialogar com trabalho de título semelhante realizado na década de 40 pelo artista futurista Fortunato Depero.
O mesmo ocorre com a obra do gaúcho Britto Velho, um dos artistas mais renomados de seu Estado, com sólida formação prática e teórica. Como escreve a crítica Angélica de Moraes, responsável pela curadoria da exposição, "Britto Velho pertence a uma vertente da arte que realiza um projeto contemporâneo a partir do sólido sedimento da tradição".
Os seres oníricos bem-humorados - e algumas vezes assustadores - que povoam suas obras têm algo de provocador, propõem uma ruptura com os modelos artísticos vigentes e ao mesmo tempo revelam um grande domínio técnico. A exposição do MuBE é composta por 23 trabalhos recentes, realizados a partir de diferentes técnicas (pinturas, objetos, recortes e esculturas em madeira e ferro). A última exposição do artista na cidade foi há dois anos, no escritório de arte Sylvio Nery. Ele também já realizou exposições no Museu de Arte Moderna (MAM) e no Masp.


