MST PRODUZ VÍDEO
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quarta-feira, 10 de maio de 2000
Francelino França De Londrina 
O Festival Internacional de Londrina articulou, dentro da Oficina de Linguagem Audiovisual, uma ponte entre as zonas excludentes e excluídas, ao direcionar a Oficina para os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Após as aulas teóricas e práticas, 40 horas de imagens foram captadas, resultando num documentário de aproximadamente 20 minutos. O trabalho foi completamente idealizado e realizado por 30 integrantes do MST, originários do Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Essa pode ser considerada a primeira produção audiovisual do Movimento, numa leitura dos próprios integrantes como agentes da história.
Com a realização da oficina, o abismo cultural foi ultrapassado com a socialização do saber. De posse do conhecimento técnico e de como utilizá-lo, os integrantes da oficina poderão incluir essa nova ferramenta na tentativa de diminuição do latifúndio da informação.
A coordenação da oficina ficou sob os olhares experientes da cineasta paranaense Berenice Mendes, ancorada pela roteirista Fernanda Pompeu. Participaram também o fotógrafo Peter Lorenzo, a produtora Lu Rufalco e Mauro Zanatta (responsável pela interpretação). Essa equipe repassou conhecimentos de expressão oral e escrita, noções de técnica vocal e interpretação, enquadramento, cronograma de trabalho e noções orçamentárias. Berenice e sua equipe ficaram instalados no assentamento, dividindo espaço de descanso e refeições com os integrantes do MST.
O assentamento Dorcelina Folador fica em Arapongas, a 37 km de Londrina. Para chegar até o local, é preciso enfrentar um bom pedaço de chão, sinuoso e empoeirado. Na entrada, no alto de num mastro de madeira, tremula uma bandeira do Movimento, enquanto um integrante, acocorado, faz vigília da entrada. Divididas pela estradinha, plantações de milho e feijão florescem. Casas de madeira com varanda e jardim formado fazem parte da paisagem. A terra roxa dá o tom do local.
No assentamento Dorcelina Folador, as crianças estão por toda parte. Numa das casas, se improvisou um pequeno estúdio de vídeo. No vocabulário dos assentados foram assimilados novas expressões e termos técnicos: close, plano americano, plano aberto... Enquanto alguém analisa as imagens num monitor, outro capta novas imagens e um terceiro organiza tudo. Empilhados numa escrivaninha, vários livros sobre a linguagem cinematográfica estão impregnados com a cor resistente da terra pelo qual tanto lutam.
Jovana Cestille, participante da Oficina de Audiovisual, não esconde a satisfação em participar do evento. A questão cultural está na lista de dicussões do MST. Nunca tivemos acesso a essas técnicas. O que aparece na mídia sobre nós é somente conflito. Temos importantes projetos no setor de educação, destaca. Entre esses projetos, Jovana elege como bons exemplos de avanço as escolas no Rio Grande do Sul, de nível médio, com cursos de Técnico Administrativo Cooperativista e Magistério. Na escala de graduação, 200 integrantes realizam o curso de Pedagogia da Terra, em Mato Grosso, Espírito Santos e Rio Grande do Sul.
As dificuldades das famílias assentadas são grandes. Por isso, o centro de formação, além da área política, também investe em técnicas agrícolas e matriz tecnológica. Nossa preocupação com o meio ambiente é grande, prossegue. O interesse e envolvimento no projeto audiovisual se faz presente em toda a comunidade. A cineasta paranaense Berenice Mendes, com botinas e calças impregnadas pelo encardido da terra, afirma que a oficina de 15 dias foi intensiva.
A imersão total dos 30 alunos se refletiu na absorção dos conteúdos e das técnicas práticas, que segundo Berenice, resvalou nos 100%. Encontrei pessoas disciplinadas, atentas, com uma incrível sede de conhecimento. De um modo geral, desconheciam o papel da mídia e do processo audiovisual. Agora, são pessoas que sabem ler as linhas e entrelinhas de um noticiário, relata a cineasta, sem camuflar seu entusiasmo. No processo interativo, Berenice percebeu pessoas encontrando vocações. Essas pessoas saem da oficina com sua visão de vida modificada, advoga Berenice.
Na concepção do roteiro, as cinco equipes da oficina marcharam para uma proposta única, de documentar a história do assentamento, resgatar os dias tensos do processo de ocupação, mostrar de que forma a organização interna se estrutura e a preocupação tecnológica. Não esqueceram de inserir uma breve história da prefeita assassinada de Mundo Novo (MS), Dorcelina Folador, defensora do Movimento, homenageada com uma placa na entrada do assentamento. A parte didática, incluiu enquetes, entrevistas, depoimentos, pesquisas, preparação de arquivos, cenas de reconstituição e levantamento iconográfico. Para a equipe de produção uma das cenas mais complicadas, teve início às 4 horas da manhã, quando se reconstituiu a ocupação da fazenda, com a utilização de dezenas de figurantes.
A previsão de estréia do documentário (por enquanto, sem título), é para 1º de junho, no Cine-Teatro Ouro Verde, abrindo a mostra Dogma, polêmica vertente dinamarquesa de fazer cinema. Será uma noite de gala. O registro histórico será exibido brevemente no Congresso Nacional do MST, que reunirá 10 mil pessoas, e deve percorrer um circuito europeu e americano. Afinal, o MST é notícia lá fora também.


