Rio, 01 (AE) - A música popular brasileira tem extensa bibliografia, mas até agora ninguém tinha reunido todos os seus ritmos e artistas num dicionário. Quem tomou essa iniciativa foi o pesquisador e jornalista Ricardo Cravo Albim, que começou a escrever hoje o "Dicionário Cravo Albim de Música Popular Brasileira", com o patrocínio do Ministério da Cultura. É uma tarefa com data de início e fim. Daqui a dez meses, a obra deve entrar na rede da Internet, no site da Biblioteca Nacional, como um dos títulos da Biblioteca Virtual. A publicação em papel deve ocorrer até o fim de 2001.
Na verdade, Albim está recomeçando um trabalho iniciado em 1997, para a Editora Francisco Alves, com o apoio técnico da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio. A crise econômica interrompeu a pesquisa no ano passado. "Este ano, a Secretaria de Música e Artes Cênicas do Ministério da Cultura retomou o projeto, que será um balanço dos 500 anos da história de nossa música popular", diz Albim, que vai trabalhar com cinco doutorandos em Comunicação e Letras da PUC. "O texto final será de Lourenço Lamartine, mas os críticos que atuam na imprensa brasileira vão colaborar também".
Os planos de Albim são ambiciosos. O dicionário terá entre 5.500 e 6 mil verbetes, relacionando os principais estilos e ritmos brasileiros e todos os compositores, cantores e instrumentistas. É uma tarefa inédita, pois há poucos dicionários ou enciclopédias da música brasileira. Além disso, apesar de outros pesquisadores, como Ary Vasconcellos e José Ramos Tinhorão, terem escrito sobre os primórdios de nossa arte mais bem-sucedida (tendo em pauta, na maior parte das vezes, um período que, na verdade, vai até meados deste século) e de haver vários livros sobre nosso passado musical recente, não existe um compêndio abrangendo toda a história. Sem preconceitos - A tarefa é difícil, também. A música popular que se fez no Brasil neste século é bem documentada, mas pouco se sabe do que foi produzido nos anteriores. "Até os anos 60, a música popular foi depreciada, tida como atividade de malandros e prostitutas", lembra Albim. "Donga, Pixinguinha e João da Baiana, que hoje são reverenciados como grandes artistas, sempre contavam como eram perseguidos e malvistos na sociedade, por ser sambistas".
Por esse mesmo motivo, muitos dos compositores populares do século 19 usavam pseudônimo. "É o caso de d. Pedro I, que fez várias modinhas para a marquesa dos Santos", cita Albim. "Mas, como eram para a amante, ele assinava com outro nome e ninguém até hoje conseguiu saber qual era". Dessa época, ele conseguiu ainda partituras de Domingos Caldas, autor das primeiras modinhas brasileiras, no século 18, e de Xisto Bahia, o primeiro compositor conhecido de lundus, no ínício do século 19.
Para evitar parcialidades, Albim incluirá verbetes de todos os músicos brasileiros, não importando como a crítica ou a mídia os tratou ou trata. Por isso, movimentos como a jovem-guarda, o axé music, o rock dos anos 80 e o pagode dos anos 90 vão estar no dicionário, com sua história contada, discografia e partituras das músicas. "Não posso ter partidarismos numa obra como essa, porque um dicionário deve conter todos os nomes importantes na área que cobre", explica ele.
No caso de músicos que se dedicaram à música popular e também à erudita, como Heitor Villa-Lobos ou aqueles que não faziam essa diferenciação, como Radamés Gnatalli, Albim decidiu incluir só sua obra popular. Como a linha que separa um estilo do outro não é definida em muitos compositores, Albim criou um critério pessoal para o dicionário. "Toda música simples e curta é popular", comenta ele. Resta saber como será avaliada essa simplicidade.
O crítico e pesquisador, no entanto, não deixará de dar sua opinião. "Além dos verbetes para cada artista, vamos ter 50 ensaios sobre principais compositores, escritos por críticos brasileiros", adianta. "É aí que entra minha opinião e pode ter certeza de que Pixinguinha, Tom Jobim, Chico Buarque, Dorival Caymmi, Noel Rosa e Ari Barroso estarão nessa lista". Num acesso de modéstia, ele explica por que o dicionário levará seu nome. "Foi uma idéia da editora Francisco Alves, porque, segundo eles, todo dicionário leva o nome do coordenador e, quando isso não ocorre, a obra cai no esquecimento".

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